Feminismo, antirracismo e urgência climática: a teia da vida

Feminismo, antirracismo e urgência climática: a teia da vida

Por Cidinha Santos

17.08.2026

Imagem Senado Federal

Por uma política de alianças que compreenda o machismo e o racismo como estruturas a serem implodidas — e não como falhas morais individuais.

Escrevo este texto a partir de onde me pauto e existo no mundo: como uma mulher preta, feminista e militante. Trago na pele e na memória o peso de lutas ancestrais, mas trago também no peito um desejo profundo de cura coletiva.

Vivemos um momento histórico atravessado por urgências que nos tiram o sono, mas também por contradições que nos desafiam a caminhar de um jeito diferente.

Nas trincheiras dos nossos movimentos sociais, aprendi que um dos nossos maiores desafios é combater opressões seculares sem nos deixarmos endurecer ao ponto de essencializar o outro como o inimigo final.

Como mulheres negras — e também ao lado de nossas companheiras brancas —, enfrentamos diariamente a engrenagem perversa do machismo e do racismo.

No entanto, se o nosso horizonte é a transformação real da vida, precisamos olhar para essa dor com afeto e precisão política: a nossa luta não é contra o homem ou contra a pessoa branca no nível estritamente individual. O nosso inimigo verdadeiro é o patriarcado, o racismo estrutural e o capitalismo colonial.

A fragmentação das nossas pautas é a maior vitória do sistema que tenta nos sufocar. Para virarmos esse jogo com a força do nosso amor e da nossa indignação, precisamos abraçar nossas lutas não como ilhas isoladas, mas como um continente interligado que deságua na única e mais urgente causa: a defesa e a sustentabilidade da teia da vida.

O inimigo é estrutural, não essencial

A sororidade nos ensina que o afeto e a escuta são ferramentas de reconstrução. Quando olhamos para os ensinamentos de intelectuais e juristas como Carol Proner, Adilson Moreira e Dora Bertúlio, percebemos que as estruturas de dominação não nascem de meros desvios morais de um ou outro indivíduo, mas de engrenagens institucionais desenhadas para perpetuar privilégios de classe, raça e gênero.

Compreender a natureza estrutural dessas violências muda completamente a forma como olhamos para as alianças necessárias. O movimento negro e o feminismo aos quais me dedico não buscam a eliminação ou o cancelamento do homem branco, mas sim a abolição histórica e urgente dos privilégios que essa categoria acumulou.

Nossos irmãos brancos não precisam ser vistos como inimigos irremediáveis; eles precisam ser acolhidos e, sobretudo, convocados a assumir sua responsabilidade histórica. Precisamos que atuem ativamente como aliados antirracistas, desfazendo pactos de branquitude em prol de uma sociedade verdadeiramente humana. A culpa paralisa e isola; a consciência política mobiliza e aproxima.

A desconstrução das masculinidades e a Política do Cuidado

Nossa saudosa e amada bell hooks, em “O Desejo de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor”, nos ensina com generosidade que o patriarcado não tem gênero. Ele é uma engrenagem que nos atinge e violenta de forma brutal (muitas vezes tirando a vida de nossas irmãs), mas que também mutila emocionalmente os homens, exigindo deles a negação do afeto, a dominação e a repressão dos próprios sentimentos.

Romper com o machismo exige estender a mão e trazer os homens para a roda. Consideramos e acreditamos que os homens serão, de fato, nossos parceiros nessa jornada de desconstrução machista e racista na medida em que se dispuserem a caminhar ao nosso lado, interessando-se genuinamente por escutar e compreender como as mulheres pensam, sentem e vivenciam o mundo.

Olho com esperança para esse movimento recente de homens que começam a questionar as masculinidades hegemônicas e a buscar essa aproximação empática, percebendo que a armadura do "homem provedor e inabalável" é uma prisão que também os adoece.

Para nós, mulheres — e especialmente para nós, mulheres negras, que historicamente sustentamos este país —, essa mudança não é apenas um afeto teórico; é uma necessidade material urgente. Ela deságua diretamente na política de cuidados.

Enquanto a jornada invisível do trabalho doméstico e reprodutivo for empurrada quase que exclusivamente para as nossas costas, não haverá emancipação verdadeira para nenhuma de nós. Homens dispostos a desconstruir o machismo e a se aproximar do sentir feminino precisam assumir, no cotidiano, a divisão igualitária do cuidar, reconhecendo que sustentar a vida é uma missão de todos nós.

O elo com a crise climática: a Terra e os nossos corpos

Mas como conectar a nossa luta contra o racismo e o machismo à emergência climática que ameaça o planeta? A resposta está na própria sensibilidade de perceber como a exploração atravessa tudo o que é vivo.

A teórica política Nancy Fraser nos mostra com lucidez que o capitalismo sobrevive às custas da expropriação não paga de três frentes: o trabalho de cuidado das mulheres, os corpos racializados e a própria natureza. A mesma lógica que desvaloriza o corpo da mulher no lar e que precariza ou encarcera o corpo negro nas periferias é a lógica extrativista que rasga a Amazônia e envenena os rios.

Não existe crise climática sem racismo ambiental. Quando as tragédias acontecem — as enchentes, os deslizamentos, as secas —, eu vejo claramente quem são as primeiras vítimas nas áreas de risco: o meu povo, a população negra e periférica. E vejo, com o coração apertado e orgulhoso, quem lidera a reconstrução em meio ao caos: as mulheres.

Como nos lembra o mestre Ailton Krenak, a humanidade se divorciou da Mãe Terra, passou a tratá-la como um simples "recurso". Essa é a raiz do pensamento colonial: dividir o mundo entre quem manda e o que pode ser descartado ou explorado.

Uma só causa: o Bem Viver

A nossa ancestralidade intelectual, guiada pela gigante Lélia Gonzalez e pelo seu conceito de “Amefricanidade”, já nos ensinava que é impossível pensar o Brasil sem entrecruzar raça, classe e gênero. A interseccionalidade não é um termo distante da academia; é a lente sensível pela qual enxergamos a nossa sobrevivência diária.

Unir todas essas frentes em uma só causa é compreender que lutar por justiça climática é, fundamentalmente, fazer luta feminista e antirracista.

Não seremos capazes de curar a Terra sem derrubar o modelo que destrói a vida. Não mudaremos essa lógica econômica sem redistribuir a riqueza e a responsabilidade pelo cuidado humano. E jamais alcançaremos a justiça social enquanto o racismo estrutural determinar quem pode viver e quem pode ser esquecido.

Homens dispostos a se despirem de suas armaduras, a nos escutar de coração aberto e a se tornarem parceiros reais, junto a pessoas brancas comprometidas a abrir mão de privilégios, não são nossos adversários; são companheiros necessários na construção de um novo paradigma civilizatório. O nosso verdadeiro inimigo é a política de morte. A nossa causa — indivisível, afetuosa e radical — é a celebração e a defesa da vida.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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