Fim da 6 X 1: projeto deve ser discutido nos próximos dias

Carlos Ratton/GovBr/ Meilin Neves/MN Assessoria de Imprensa

Fim da 6 X 1: projeto deve ser discutido nos próximos dias

Carlos Ratton/GovBr/ Meilin Neves/MN Assessoria de Imprensa

10.04.2026

Fotos: Ricardo Stucket/PR/GovBr/Agência Brasil

A Câmara dos Deputados deverá, na próxima semana, se debruçar sobre o Projeto de Lei (PL), de autoria do Governo Federal, que propõe o fim da escala 6 X 1. “A gente vai conseguir. Inclusive estou mandando o Projeto de Lei esta semana para o Congresso Nacional. Então, nós vamos votar e vamos aprovar. Eu tenho certeza de que vai aprovar”, afirmou Lula, durante entrevista concedida no Palácio do Planalto aos jornalistas Eduardo Moreira e Leandro Demori, do ICL Notícias.

Em números modestos, o fim da escala 6x1, que visa reduzir a jornada de trabalho, pode beneficiar diretamente cerca de 33,5 a 34,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada que trabalham entre 41 e 44 horas semanais, principalmente nos setores de comércio, serviços, hotelaria e restaurantes. A medida visa aumentar o tempo de descanso e pode, segundo defensores, gerar até 4,5 milhões de novos empregos.

Lula deixou claro que o fim da jornada 6 x 1 defendido pelo Governo do Brasil não implicará, em hipótese alguma, redução salarial. “A ideia é a redução da jornada sem redução do salário. O que significa um pequeno aumento de ganho de produtividade. Ao invés de ter prejuízo, ele vai continuar com o mesmo salário, porque a diferença é produtividade. A tecnologia permitiu que produzisse mais, portanto o trabalhador ganha um pouco mais”, esclareceu o presidente.

Para Lula, o fim da jornada 6 x 1 é um avanço que trará os mais diversos benefícios, inclusive mais tempo para estudar e buscar melhores condições de trabalho. “Todo mundo quer ter uma coisinha a mais. Eu quero trabalhar, eu quero ter uma jornada de trabalho menor do que a que eu tenho hoje. Ou seja, eu não quero mais trabalhar 48 horas, 40 horas. Eu quero colocar o fim da escala 6 por 1 porque a juventude quer mais tempo para estudar, as pessoas querem mais tempo para ficar em casa”, afirmou Lula.

O presidente frisou ainda que seu governo não é contra os avanços tecnológicos, mas destacou que eles devem vir acompanhados de benefícios para o trabalhador. “Às vezes eu fico preocupado quando a gente fala, porque dá a impressão de que a gente está contra os avanços tecnológicos. Então a minha pergunta é a seguinte: os avanços tecnológicos não deveriam ser acompanhados de aumento de salário, de ganho de produtividade? Não deveriam ser acompanhados de redução da jornada de trabalho? O dado concreto é esse: nós precisamos avançar em muitas coisas para melhorar a vida do povo, porque os avanços tecnológicos são absurdos”.

O presidente também esclareceu que a proposta para o fim da escala 6 x 1 não é rígida e pode ser ajustada conforme o tipo de atividade. Para Lula, que mostrou confiança na aprovação do Projeto de Lei, casos específicos deverão ser negociados pelas categorias.

“É importante que a gente saiba o seguinte: nós temos que deixar uma brecha para, se precisar ter contrato coletivo em função de categorias diferenciadas, você ter uma brecha de negociação. Não pode ter uma coisa rígida para todas as categorias. Você tem que permitir que haja uma negociação. Mas nós temos que ter a redução. As pessoas precisam de mais descanso, mais lazer”, afirmou.

Lula destacou ainda a importância de alinhar as propostas enviadas ao Congresso a um projeto de desenvolvimento do país. “A questão está na criação de um modelo de desenvolvimento econômico que leve em conta a necessidade desse país virar uma economia definitivamente desenvolvida. Nós temos todas as condições. Nós temos material humano para isso. Nós temos universidade para isso. Nós temos pesquisadores para isso. Nós temos trabalhadores para isso. O que que falta? É tomar a decisão na hora correta. E no Brasil muitas vezes a gente não consegue tomar a decisão na hora correta porque nem sempre você consegue aprovar”.

O fim da escala 6x1, que visa reduzir a jornada de trabalho, pode beneficiar diretamente cerca de 33,5 a 34,4 milhões de trabalhadores

A oposição vem fazendo de tudo para evitara discussão e a votação da proposta porque sabe que, com forte apelo popular, será difícil evitar sua aprovação, principalmente em ano eleitoral em que parte significativa dos deputados e dos senadores tentarão renovar seus mandatos nas urnas.

A ala mais conservadora da Câmara e do Senado Federal avalia que a proposta seria danosa para a economia. No entanto, esse discurso perde força e chega a ser até uma falácia se a memória do brasileiro não for tão fraca.

Em 1888, um discurso alarmista, semelhante ao atual, dizia que o fim da escravidão quebraria a economia brasileira. A ideia por debaixo desse discurso era barrar a abolição. A história demonstrou que o colapso econômico não ocorreu e a transição para o trabalho livre foi um avanço social necessário que fortaleceu a economia e a democracia a longo prazo.

A história também demonstrou que o discurso contra direitos trabalhistas, como férias, 13º salário e salário mínimo, sob o mesmo pretexto – acabar com a economia – não passou de pressão empresarial para justificar a má remuneração e a não preocupação com a qualidade de vida do trabalhador.

Qualidade de Vida

Ansiedade, burnout, transtornos depressivos, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de sobrecarga constante. Essas são algumas das queixas da população com relação à saúde mental, por causa de uma jornada de trabalho exaustiva.

E enquanto não há uma definição no País sobre o modelo de redução da escala a ser implantada, a sociedade discute o impacto da medida na saúde mental do trabalhador. O fim da escala 6x1 significa ter um maior tempo de qualidade, o que trará diversos benefícios à população. A falta de tempo mantém o organismo em estado contínuo de alerta, favorecendo diversos problemas de saúde.

Segundo a psiquiatra Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota, uma jornada de trabalho menor tem impacto direto na saúde mental, pois tende a diminuir a ativação crônica do sistema de estresse, reduzindo níveis de cortisol e sobrecarga mental. “A pessoa terá um sono de mais qualidade, melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional, menor esgotamento mental e uma sensação de bem-estar”.

A médica explica que na prática, o trabalhador apresentará menor exaustão emocional, pois estará mais concentrado e ficará menos irritado, estressado. Dessa forma, transtornos e demais problemas relacionados ao estresse serão amenizados ou até evitados, a partir de uma rotina de trabalho equilibrada.

Com mais tempo livre, a pessoa poderá praticar exercícios físicos regularmente, além de ter melhor convívio social e desenvolver atividades prazerosas e de lazer.  “Isso afetará significativamente na redução do volume de afastamentos (a médio e longo prazo) por doença mental, um número que temos visto crescer a cada ano”.

Ana Paula destaca que a implantação de uma nova jornada de trabalho traz a importância de como a pessoa vai utilizar um tempo maior de descanso. “Esse pode ser um ponto determinante e o trabalhador vai precisar se atentar para não ficar ocioso, cair no isolamento social ou ter uma desorganização da rotina, por exemplo”.

Outro fator que a psiquiatra acrescenta é que a redução da escala exigirá um ambiente de trabalho organizacional saudável, com liderança e cultura. “As empresas também vão precisar mostrar o cuidado com a saúde desse trabalhador”. 

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