Geografia Eleitoral e as Fronteiras da Cognição Política

Por CristianoTorres1977
17.10.2026
Foto: Divulgação
A política brasileira contemporânea é marcada por uma profunda fratura que se manifesta tanto na geografia eleitoral quanto no funcionamento da cognição humana. De um lado, observa-se a consolidação de um eleitorado conservador e reacionário cuja fidelidade ultrapassa oscilações conjunturais e escândalos de corrupção.
Trata-se de um voto identitário, ancorado em valores morais, religiosos e regionais, que estabelece uma base eleitoral resistente às flutuações econômicas e às revelações do debate público. Diante da força desse polo, a permanência das forças progressistas no poder depende da mobilização de segmentos específicos da sociedade, especialmente da juventude universitária e do eleitorado nordestino, tanto em sua região de origem quanto nas metrópoles para as quais parte dessa população migrou em decorrência de históricas correntes migratórias.
Como se observou no pleito de 2022, esse contingente teve papel decisivo na composição da maioria eleitoral, contribuindo para compensar a desvantagem progressista em outros territórios e garantir a margem necessária para a vitória.
Essa assimetria eleitoral não decorre apenas de divergências programáticas ou doutrinárias. Ela também expressa um conflito moral sustentado pela identificação subjetiva e pela legitimação de disposições autoritárias.
O sujeito político não adere a uma liderança dessa natureza necessariamente por equívoco analítico, falta de informação ou ingenuidade, mas pode encontrar nela afinidade com a violência que autoriza, normaliza e valida no espaço público. A escolha eleitoral torna-se, nesse caso, um ato de reconhecimento identitário, no qual o eleitor projeta na figura pública a permissão para manifestar ressentimento, crueldade e preconceitos.
A adesão ao reacionarismo revela cumplicidade com a degradação humana quando se traduz no respaldo velado ou ostensivo ao machismo, à misoginia, ao feminicídio, à cultura do estupro e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Sob o manto de uma religiosidade hipócrita e de uma mitologia cristã instrumentalizada, constrói-se uma fachada de purismo moral que encobre práticas de dominação e opressão contra populações historicamente vulnerabilizadas.
Nessa engrenagem, a cognição fechada contribui para que sujeitos subalternizados reproduzam a violência que os atinge. A vítima pode ser levada a atuar como agente da própria opressão, reproduzindo contradições presentes no cotidiano: o conservador que mantém uma amante em segredo, o homofóbico que busca relações homoafetivas clandestinas no ambiente virtual e o antifeminista que defende publicamente seus dogmas enquanto rejeita a autonomia feminina no espaço doméstico.
A mulher conservadora também pode assumir o papel de reprodutora do patriarcado e do sexismo, sustentando uma imagem de santidade baseada em normas estéticas rígidas, na modéstia vestimentar e no moralismo religioso. Essa postura pode servir como justificativa para julgar e desumanizar outras mulheres, contribuindo para a legitimação social do assédio, da objetificação sexual e de outras formas de violência, inclusive o estupro e o feminicídio. Essa cumplicidade discursiva não transfere à mulher a responsabilidade pelo crime, que pertence ao agressor, mas ajuda a sustentar estruturas que naturalizam a violência e culpabilizam suas vítimas.
A hipocrisia do fundamentalismo religioso também se manifesta no debate sobre os direitos reprodutivos e o aborto legal. Enquanto setores economicamente privilegiados conseguem recorrer a procedimentos clandestinos em condições mais seguras, meninas e mulheres da classe trabalhadora enfrentam maiores riscos e são submetidas à pressão para levar adiante gestações indesejadas. A desigualdade de classe determina, assim, quem dispõe de recursos para proteger a própria saúde e quem fica exposto às consequências mais graves da restrição de direitos.
A violência do sistema eclesial e fundamentalista expõe relatos estarrecedores de abusos e casamentos arranjados com crianças e adolescentes no seio de denominações como a Assembleia de Deus e outras instituições religiosas: meninas de apenas 12 anos entregues a homens adultos de 24 anos, adolescentes de 15 anos pressionadas a casar com homens de 50 anos viúvos, e jovens de 16 anos entregues a homens de 47 anos.
Quando essas meninas recusam a violência e o estupro institucionalizado, são submetidas a punições severas, disciplinarizações coercitivas e ao assédio moral com o aval dos próprios pais e da comunidade eclesial. Ignora-se a ciência biológica e o consenso médico sobre a ausência de viabilidade fetal e o desenvolvimento embrionário para sacrificar a integridade física e psíquica de crianças reais, enquanto a estrutura religiosa e política protege pedófilos e prioriza dogmas mitológicos instrumentalizados para o controle social e a disciplinarização da pobreza.
A mesma lógica aparece na pressão para que crianças e adolescentes vítimas de estupro levem adiante uma gestação decorrente da violência. Meninas de 9, 10, 12, 15 ou 16 anos podem ser submetidas à maternidade compulsória, mesmo quando a gravidez resulta de abusos cometidos no ambiente familiar ou em espaços religiosos.
Em vez de priorizar a proteção integral dessas vítimas, determinados discursos fundamentalistas subordinam seus direitos a uma interpretação dogmática da vida, impondo às crianças as consequências de uma violência que deveria ser combatida e responsabilizada.
O conhecimento científico sobre o desenvolvimento embrionário, a formação progressiva do sistema nervoso e a viabilidade fetal é frequentemente subordinado a convicções morais e metafísicas. O desenvolvimento embrionário compreende etapas biologicamente distintas, e a viabilidade fetal depende da idade gestacional e das condições clínicas.
Entretanto, o fundamentalismo religioso procura converter uma interpretação particular em norma universal, desconsiderando os riscos enfrentados pelas meninas e mulheres. Em nome de textos sagrados cujas narrativas incluem guerras, derramamento de sangue, machismo, violência sexual e dominação patriarcal, a integridade de pessoas reais pode ser sacrificada para preservar dogmas.
Quando essas narrativas são instrumentalizadas para controlar a sexualidade, justificar a submissão feminina e disciplinar a pobreza, a religião passa a funcionar como mecanismo de manutenção das hierarquias sociais. A proteção dos agressores e a imposição da maternidade compulsória expõem, então, a distância entre a moral proclamada e a violência efetivamente tolerada.
A mesma estrutura de dominação atravessa as relações raciais e trabalhistas. A preservação de uma ordem social marcada pela herança colonial depende da continuidade de mecanismos de exploração, entre eles o trabalho infantil, enquanto programas sociais e direitos trabalhistas são atacados em nome de interesses econômicos que favorecem a precarização.
Essa contradição torna-se evidente quando o próprio trabalhador submetido à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) defende jornadas exaustivas e se posiciona contra medidas destinadas à ampliação de seus direitos. A ideologia meritocrática transforma a exploração em prova de caráter e a precariedade em condição supostamente necessária para o sucesso, atribuindo aos indivíduos a responsabilidade por desigualdades produzidas socialmente. Desse modo, o trabalhador passa a defender condições que restringem sua liberdade, enquanto os interesses econômicos beneficiados por essa estrutura permanecem protegidos.
O indivíduo negro cooptado pelo discurso reacionário também pode atacar as ações afirmativas, combater as cotas raciais nas universidades e no serviço público e negar a existência do racismo estrutural. Ao estabelecer vínculos pessoais com setores abastados da branquitude, passa a interpretar a aceitação individual como prova de superação das barreiras raciais.
A proximidade com determinados círculos sociais transforma-se, assim, em um green card simbólico, um suposto salvo-conduto que alimenta a crença de que sua posição pessoal o equipara ao opressor. Essa percepção ignora que o reconhecimento individual não elimina as estruturas históricas responsáveis pela distribuição desigual de oportunidades, prestígio e poder.
Nesse movimento de autonegação, o indivíduo assume a postura do feitor voluntário e do sniper ideológico que dispara contra os próprios iguais, abraçando o fetiche da meritocracia para desresponsabilizar o Estado e culpabilizar as vítimas da escravidão e do colonialismo por sua condição de subalternidade.
O feitor voluntário internaliza a autoridade do opressor e passa a fiscalizar os integrantes de seu próprio grupo; o sniper ideológico, por sua vez, dirige seus ataques discursivos às reivindicações coletivas de sua população. Ambos contribuem para preservar uma estrutura que restringe as possibilidades de transformação social. Quando a meritocracia se torna explicação absoluta das trajetórias individuais, as desigualdades de origem desaparecem da análise e os privilégios historicamente constituídos passam a ser apresentados como provas de superioridade pessoal.
Essa dinâmica também alcança integrantes da comunidade LGBTQIA+ que reproduzem discursos homofóbicos, deslegitimam os direitos de seus pares e atacam a diversidade na expectativa de obter reconhecimento de setores conservadores. A aceitação oferecida por esses grupos é condicional: depende da adequação às normas dominantes e pode desaparecer quando o indivíduo deixa de corresponder às expectativas impostas.
A proximidade com setores conservadores não elimina a discriminação nem garante a proteção de direitos que o próprio sujeito contribui para deslegitimar. A negação do racismo, da misoginia, da homofobia e da exploração do trabalho pode expressar não apenas a rejeição de evidências, mas também o autoengano e a busca por privilégios simbólicos dentro das relações de dominação.
Em contraposição à servidão voluntária e à reprodução da opressão, o campo progressista encontra possibilidades de sustentação na expansão da consciência crítica. A juventude universitária, ao se apropriar do método científico, do pensamento filosófico e da crítica historiográfica, dispõe de instrumentos para questionar verdades naturalizadas e compreender a historicidade das desigualdades.
O eleitorado nordestino, por sua vez, reúne experiências de sobrevivência, trabalho, migração e enfrentamento das desigualdades regionais. Essas vivências podem contribuir para uma consciência política capaz de relacionar trajetórias individuais às estruturas econômicas e sociais que condicionam as oportunidades de vida.
Embora heterogêneos, esses segmentos podem fortalecer um campo político comprometido com a ampliação dos direitos sociais. A expansão cognitiva não consiste apenas em acumular informações, mas em questionar convicções, confrontar evidências e reconhecer a historicidade das relações de poder.
Quando o conhecimento científico, a reflexão filosófica e a experiência social se articulam, torna-se possível contestar narrativas que naturalizam privilégios e responsabilizam exclusivamente os indivíduos pelas condições que enfrentam. A memória social e a empatia também podem contribuir para enfrentar a rejeição deliberada dos fatos e a desumanização de grupos vulnerabilizados.
A dinâmica eleitoral brasileira manifesta, portanto, um fenômeno que ultrapassa as preferências partidárias. Essa questão pode ser relacionada à reflexão do professor José Geraldo de Sousa Júnior sobre os limites do debate racional quando os interlocutores interpretam a realidade a partir de cosmovisões profundamente distintas.
A percepção não é inteiramente neutra: envolve linguagem, memória, trajetória histórica e categorias cognitivas por meio das quais cada indivíduo atribui significado aos acontecimentos. Em vez de apreender a totalidade do real, o sujeito seleciona elementos e estabelece relações a partir dos referenciais que constituem sua visão de mundo.
Quando uma perspectiva dogmática se cristaliza, a realidade deixa de funcionar como referência capaz de corrigir convicções e passa a ser interpretada segundo premissas previamente estabelecidas. O indivíduo privilegia informações que confirmam suas crenças e rejeita ou desqualifica aquelas que ameaçam sua identidade política.
A fidelidade eleitoral e a dificuldade de diálogo podem, assim, resultar de um processo no qual a ideologia interfere na interpretação dos acontecimentos. A disputa política passa a envolver não apenas propostas distintas, mas também critérios divergentes de verdade, legitimidade e reconhecimento social.
Essa dificuldade de diálogo ganhou expressão institucional em junho de 2023, durante uma sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados que investigava o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Na ocasião, diante das interpelações da deputada federal Caroline de Toni, o jurista e ex-reitor da Universidade de Brasília José Geraldo de Sousa Júnior deslocou a discussão para os limites cognitivos que, em sua avaliação, condicionavam a interpretação da realidade por sua interlocutora. Sua intervenção questionou a possibilidade de diálogo quando uma visão de mundo determina previamente aquilo que pode ser reconhecido como verdadeiro:
“Não tenho como discutir com a deputada, porque a sua visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão só lhe permite enxergar o que a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver, não o que existe, mas o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historização”.
A força dessa formulação está na distinção entre a realidade e o recorte produzido por quem a interpreta. A percepção humana envolve seleção e atribuição de significado, mas o problema se agrava quando uma perspectiva particular é tratada como representação integral do real.
A cognição fechada converte divergências em ameaças à identidade de quem se recusa a revisar suas premissas. Nesse processo, as evidências deixam de servir à revisão do pensamento e passam a ser julgadas conforme sua compatibilidade com crenças previamente estabelecidas.
A dimensão semiótica desse mecanismo revela que a disputa política também se desenvolve por meio de símbolos, imagens e associações que atribuem significados morais aos grupos sociais. Uma liderança autoritária pode ser apresentada como símbolo de ordem, força e restauração de valores supostamente ameaçados, enquanto populações vulnerabilizadas são representadas como responsáveis pela desorganização social. Essa inversão transforma privilégios em mérito, reivindicações de igualdade em favorecimento e a defesa de direitos em ameaça aos costumes. A linguagem não apenas descreve a realidade: participa da construção das fronteiras simbólicas que determinam quem merece reconhecimento, proteção e pertencimento.
As imagens do espelho político, do feitor voluntário e do salvo-conduto social sintetizam aspectos complementares desse mecanismo. O espelho representa a identificação por meio da qual o eleitor reconhece na liderança a autorização para legitimar suas disposições ideológicas.
O feitor voluntário expressa a internalização da autoridade e a reprodução da opressão por sujeitos subordinados. O salvo-conduto simboliza a crença de que a proximidade com os grupos dominantes pode suspender os efeitos da dominação. Em conjunto, essas imagens demonstram como a ideologia pode transformar a subordinação em pertencimento e a reprodução da desigualdade em aparente escolha individual.
A geografia eleitoral brasileira, portanto, não pode ser compreendida apenas pela distribuição territorial dos votos, pelas diferenças de renda ou pela oposição entre regiões. Ela também expressa disputas em torno da memória, da identidade, da moralidade e dos critérios empregados para interpretar os acontecimentos.
O mapa eleitoral indica onde determinadas forças encontram maior adesão, mas compreender a permanência desse apoio exige investigar os mecanismos históricos e cognitivos que transformam preferências em identidades resistentes à revisão. A política territorial está ligada às relações sociais, às experiências de desigualdade e às narrativas que atribuem significado às condições concretas de existência.
A questão decisiva não consiste apenas em compreender por que determinados grupos apoiam uma liderança ou rejeitam outra, mas em identificar como certas visões de mundo transformam a desigualdade em mérito, a submissão em virtude, o preconceito em defesa da moral e a negação de direitos em expressão de liberdade.
Quando essas operações ideológicas se consolidam, a disputa eleitoral passa a reproduzir estruturas de dominação que alcançam o trabalho, a educação, as relações raciais, os direitos reprodutivos e a diversidade humana. A democracia não se esgota na alternância de governos: exige enfrentar as estruturas históricas que restringem a igualdade e permitem que a desumanização seja apresentada como posição moral legítima.
A consciência crítica é fundamental para contestar a naturalização das desigualdades. Esse processo exige reconhecer a historicidade das relações de poder, confrontar discursos que justificam privilégios e compreender que a liberdade não pode ser construída pela negação da humanidade alheia.
Enquanto convicções dogmáticas impedirem a revisão das próprias premissas, a política permanecerá sujeita à reprodução de hierarquias apresentadas como naturais, religiosas ou meritocráticas.
A disputa eleitoral revela, assim, um conflito que ultrapassa as urnas: de um lado, a possibilidade de interpretar criticamente a realidade; de outro, a disposição de submetê-la aos limites de uma visão de mundo fechada.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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