Gil Oliveira e a Hecatombe contra o racismo e preconceito

Gil Oliveira e a Hecatombe contra o racismo e preconceito Por Luciano Albano

Gil Oliveira e a Hecatombe contra o racismo e preconceito

Gil Oliveira e a Hecatombe contra o racismo e preconceito

Por Luciano Albano

19/12/2025

A Baixada Santista vive um momento muito especial no cenário audiovisual. A região ostenta o selo de Cidade Criativa da Unesco em cinema (Santos), vivendo um ciclo virtuoso impulsionado pela execução de verbas públicas (Lei Paulo Gustavo), internacionalização e fortalecimento de redes locais.

É nítido que estamos vivenciando uma fase de estruturação de mercado, observamos a criação de uma cadeia produtiva sustentável onde o profissional local pode ser encontrado (CINEMABS), financiado (LPG/Aldir Blanc) e ter onde exibir seu trabalho (Festivais fortalecidos).

Neste cenário promissor menciono o sucesso, criatividade e talento de um trabalho incrível, produzido por uma galera excepcional da banda santista “Fizeram a Elza”.

A canção “Hecatombe” de autoria de Gil de Oliveira (compositor e guitarrista) foi o start, a fagulha da ignição de uma pesquisa musical que culminou simplesmente na formação da banda “Fizeram a Elza”.

A música nasceu a partir de uma imagem de pessoas fugindo da guerra tentando entrar pela Europa, mas um grande muro de metal e militares pesadamente armados impediam a entrada de refugiados. Uma falta de humanidade chocante que levou o compositor a escrever os primeiros versos.

O ritmo maracatu entra na composição de forma subconsciente, cuja cultura traça um paralelo de história de resistência mantendo uma forte relação com a temática da canção.

A banda “Fizeram a Elza” se define como uma “alquimia sonora” e mistura ancestralidade (ritmos como Maracatu, Afoxé, Carimbó) com elementos modernos (rock e eletrônica).

O grupo conta com Bárbara Dias (voz), Gil Oliveira (guitarra), Breno Ayres (baixo/voz), e a percussão marcante de Guilherme Zupo e Deivson Santana, além de Ney Paiva na bateria, apresentando seu som vigoroso em festivais (Mais e Santo de Casa) além de espaços culturais como Sesi, Sesc Santos e Teatro Guarany.

Videoclipe

“Hecatombe” foi lançado em setembro de 2025 e está varrendo prêmios em festivais nacionais e internacionais. O clipe conta com a participação do rapper pernambucano “Zé Brown” e tornou-se um marco para a banda. É um grito contra a xenofobia e o racismo, inspirado na história real de “Moïse Kabagambe”, o jovem congolês assassinado no Rio em 2022.

A idealização, roteiro e direção é assinada pelo cineasta colombiano Brayan Arévalo (Gori). Desde o primeiro contato com a canção, Gori sentiu forte identidade sobre preconceito por ser estrangeiro e colocou-se à disposição para produzir o videoclipe.

Captou recursos e, juntamente com Luan Maciel da produtora “Companhia Cangote”, foram selecionados (com a maior pontuação) em Edital de Incentivo da Lei Paulo Gustavo em Santos. Reuniram um grande elenco e produziram esta belíssima obra que teve como cenário pontos turísticos de Santos e São Vicente.

O ano de lançamento do álbum da banda coincidiu com a triste história do espancamento e morte do congolês Moïse Kabagambe e o cinesta Gori teve a ideia de prestar homenagem a ele com o propósito de trazer à tona esta temática, onde o povo está “longe da cura” desta verdadeira chaga que é o preconceito e o racismo.

Deivson

Natural de Recife-PE, oriundo da Comunidade da Ilha de Deus, foi nesta localidade que o percussionista Deivson Santana deixou-se influenciar pela força da cultura do maracatu desde os 13 anos. Arte Educador Cultural, Facilitador Cultural, futuro pedagogo e Mestre em Cultura Popular, teve uma rica trajetória musical e experiências com artistas de renome da música popular brasileira como Lenine e Nana Vasconcelos, ostentando seu talento e conhecimento rítmico-percussivo.

Com essas credenciais, a sonoridade da “Fizeram a Elza” tomou corpo influenciada pela musicalidade do artista, fundamental para a base e identidade musical da banda que carrega consigo um impacto, um peso de resistência cada vez maior proporcionando conhecimento, ritmos e elementos da cultura popular.

Manter essa brasilidade de todos os ritmos afro-indígenas é fundamental para manter viva a chama da ancestralidade. Deivson foi um dos pilares do sucesso de “Hecatombe” ao intensificar ritmo e elementos percussivos com a alma da cultura do maracatu. Segundo o artista, trazer um pouco da cultura popular pernambucana para a Baixada (coco, cavalo Marinho, ciranda) tem sido prazeroso e desafiador, importante para a musicalidade, ancestralidade e resistência cultural.

É relevante trazer um novo sentido nesta pluralidade de sons e fazer tudo com o coração, não deixando a música morrer, soando o som dos tambores, continuando sempre com esse legado, disseminando sons e mensagens que trazem conhecimento e aprendizado.

PRÊMIOS

O Trabalho já ganhou prêmios no “MATE Festival (Portugal) e no “Fest Clip (Melhor Roteiro). Em dezembro de 2025 foram destaque no “Rio Webfest”. Para o autor da canção, tudo tem sido uma linda surpresa após verem o resultado do videoclipe com qualidade e sensibilidade de altíssimo nível.

Ao se depararem com as obras que estavam competindo, as indicações já eram motivo de felicidade. As premiações foram motivo de alegria imensa por honrar a memória de Moïse levando uma mensagem de luta contra e racismo e preconceito adiante.

Gil destaca que receber o último prêmio na Barra da Tijuca (RJ), mesma praia onde ocorreu o triste episódio, foi especial pelas “coincidências” do destino, pois reforçam a continuidade do trabalho e a luta pelos ideais que acreditam.

O AUTOR

Gil Oliveira iniciou sua trajetória musical estudando violão clássico na escola do maestro Antonio Manzione. Fez cursos com mestres como Mozart Mello, Luiz Oliveira e Nelson Faria. Atualmente foca seus estudos de choro na escola “Luizinho 7 cordas” no conceituado Clube do Choro de Santos.

Apresentou-se na noite santista e a partir de 2019 dedicou-se a projetos autorais, debutando com o duo “Bárbara e Um Cara”, onde lançou suas duas primeiras canções. A partir daí foi fundada a banda “Fizeram A Elza” que culminou no EP “Hecatombe” em 2022.

A partir de 2024 integrou a banda “Bailão do Santo” (que apresenta repertório com músicas, ritmos dançantes e autorais de artistas da Baixada) como baixista.

Convido a todos conhecerem este trabalho primoroso da banda, em especial o Videoclipe que traduz o brilho e talento de artistas da Baixada Santista.

Acesse as redes sociais da banda “Fizeram a Elza”: https://www.youtube.com/@fizeramaelza

Ficha técnica do videoclipe Hecatombe

Banda: Fizeram a Elza

Participação: Zé Brown

Direção: Brayán Arévalo “Gori”

Assistência de Direção: Victor Hugo Fernandes

Produção: Cia Cangote Produções

Co-produção: Gori Films • Darshan Filmes • Studio 23

Produção Executiva: Luan Maciel

Direção de Fotografia: Ariel Quintela, Lucas Rodrigues

Gaffer: Luiz Marq’s

Direção de Produção: Kevelin de Souza

Assistência de Produção: Luan Maciel

Direção de Arte & Figurino: Ycaro Samaniego

Assist. de Arte: Thaís Coutinho • Assist. de Figurino: Mafê da Silva

Maquilhagem: Paulo Sérgio

Produção de Elenco: Mafê da Silva • Assist.: Nabru Andrade

Produção de Locação: Luan Maciel, Kevelin de Souza

Edição: Ariel Quintela, Brayán Arévalo “Gori”, Larissa Melo

Making of: Mariana Pecci

Elenco e participações (seleção): Jean Natan Assis, Henrique Nascimento, Ton Albuquerque, Fabiano Santos, Anderson Prado, Stefany Calumby, Sophya Calumby, Gabriel Barbosa, João Rocha, Júlio César Pilão, O Black Lion, Pedro Rezende, Preto Chique, Tassa Moura, Mayara Gomez, Zé Cá, Maikon Marinho, comunidade.

Luciano Albano é músico e publicitário, formado em Comunicação Social

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