Grandes complexos hospitalares públicos de São Paulo (capital) carecem de unidades do Bom Prato Paulista

Reportagem esteve na Santa Casa de São Paulo é constatou o sufoco de pacientes, acompanhantes e prestadores de serviços para comer barato

Grandes complexos hospitalares públicos de São Paulo (capital) carecem de unidades do Bom Prato Paulista

Carlos Ratton

09.07.2026

Fotos: Tony Valentte/Alesp  

“Bom dia. São quase meio dia e cheguei aqui às 7 horas. Minha esposa operou de emergência e eu preciso ficar aguardando até às 17 horas, depois da visita. Só viemos com o dinheiro das passagens pois não sabíamos que ela operaria hoje. O senhor poderia me pagar um lanche pois, devido à distância, tivemos que sair de casa de madrugada sem nem tomar café”.    

Foi assim que Os Inconfidentes foram abordados por José da Silva (nome fictício), próximo a uma lanchonete, dentro do complexo hospitalar da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, uma verdadeira referência da área de saúde pública no Estado de São Paulo, no Bairro Santa Cecília, região do Centro da Capital Paulista.     

José da Silva é apenas um número do montante que impressiona. A Santa Casa de São Paulo faz 26 mil cirurgias; 2,7 milhões de exames; 500 mil atendimentos ambulatoriais e 208 mil atendimentos de urgência/emergência. Números que movimentam milhares de pacientes, acompanhantes e profissionais da saúde que, como José, passam literalmente fome aguardando atendimento.

Os Inconfidentes observaram muita gente, geralmente de baixa renda, pedindo ajuda para comprar alimento por conta da distância de moradia e dos valores cobrados por uma refeição no entorno do complexo que atende paulistanos e paulistas.

A Reportagem não precisou de muito esforço para descobrir uma boa solução: a implantação urgente de uma unidade do Programa Bom Prato dentro do complexo, pois espaço não é problema: 240 mil metros quadrados, sendo 143 mil de área construída e 92 mil no quadrilátero central.

Um Bom Prato para garantir segurança alimentar a preços acessíveis (com café da manhã a R$ 0,50 e almoço/jantar a R$ 1,00) seria um alento às pessoas que trabalham ou vão à unidade em busca de atendimento.

Trabalhadores

A falta de refeições a preços acessíveis também é sentida pelos trabalhadores. O motorista de ambulância Leandro José da Silva disse à Reportagem que seria bem importante um Bom Prato no complexo, pois muitas pessoas vêm do interior do Estado também para serem atendidas.

“Chegam aqui e não tem as condições reais de estar pagando até 40,00 em um almoço fora do complexo. Por conta do movimento do hospital, muitos comerciantes abusam nos preços. Um Bom Prato ajudaria pessoas carentes e até quem trabalha aqui”.

O socorrista Jax Alexandre Mendonça diz que uma unidade do Bom Prato seria importante em todos os grandes complexos da Capital. “No Hospital das Clínicas também seria muito bom. Para se ter uma ideia, Você vai tomar um cafezinho com um salgado e paga cerca de R$ 10,00. Uma refeição por um real seria excepcional e não iria atrapalhar o comércio interno e nem o externo. Arroz, feijão, uma mistura, um suco e sobremesa por apenas um real seria muito bom para quem vem de fora e quem trabalha aqui”.

Lucélio Rodrigues da Silva estava acompanhando a mãe, Leonice Rodrigues da Silva. Ele trabalha com logística. Leonice teve que teve que fazer uma cirurgia de amputação da perna e estava no retorno.

“Tem muita gente aqui que possui atestado de pobreza, né? Está na linha da pobreza. Está totalmente desprivilegiado. Eu gostaria muito de contar com um Bom Prato aqui na Santa Casa, onde o movimento é muito grande. É um hospital de referência aqui de São Paulo. Tem muita gente que vem do interior, vem de outros estados para cá para poder fazer tratamento”.

Lucélio afirma que por atender pelo Sistema Único de Saúde, muitas vezes a espera é grande. “Com pouco dinheiro, como você faz? Graças a Deus, eu ainda tenho trabalho. Tem o meu irmão que reveza comigo. Mas muita gente que não tem. Como é que vai fazer pra comer? A pessoa fica o dia inteiro aqui. Gente de idade, criança. Pessoas com deficiências também. O bom prato atingiria tanto os pacientes como as pessoas que acompanham, né?”.  

Leonice esteve na Santa Casa em retorno de atendimento 

Unidades

Em uma breve pesquisa, Os Inconfidentes descobriram que existe unidades do Bom Prato nas imediações de grandes complexos hospitalares no Interior do Estado. Um dos principais exemplos é a unidade inaugurada próximo ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Há também projetos de lei e iniciativas contínuas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) para expandir o programa para outras regiões de saúde, como as propostas para a implantação de um restaurante nas imediações do Hospital Regional de Presidente Prudente.

Na capital paulista, também houve esforços para viabilizar alimentação popular e acessível aos usuários e funcionários nos arredores do Hospital das Clínicas de São Paulo.

​O Bom Prato Paulistano é uma política pública estratégica construída em parceria entre a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo, unindo esforços para garantir alimentação de qualidade, acessível e nutritiva para a população em situação de vulnerabilidade social.

O modelo funciona de maneira compartilhada: a Prefeitura disponibiliza o imóvel onde a unidade será instalada, enquanto o Governo do Estado realiza o equipamento completo do espaço e firma parceria com uma Organização da Sociedade Civil (OSC) responsável pela gestão cotidiana do restaurante. Após a implantação, os custos operacionais são divididos entre as duas esferas de governo, sendo a contribuição municipal realizada por meio do Fundo de Abastecimento Alimentar de São Paulo (FAASP).

Essa cooperação permite ampliar o alcance da política de segurança alimentar e levar refeições completas e equilibradas a diferentes regiões da cidade. Atualmente, o Bom Prato Paulistano conta com cinco unidades em funcionamento, distribuídas estrategicamente para atender territórios de alta vulnerabilidade.

Na Zona Sul tem duas unidades — M’Boi Mirim (Piraporinha) e Parelheiros, ambas sob gestão da Associação Comunitária Sempre Viva. Na Região Central mais duas unidades — Refeitório Mauá (República) e Refeitório Canindé (Pari) e, na Zona Leste uma unidade na Cidade Tiradentes.

Cada unidade segue rigorosos padrões nutricionais e higiênicos definidos pelo Estado, garantindo refeições seguras, balanceadas e preparadas com critérios técnicos de alimentação saudável. Além disso, o programa favorece o desenvolvimento social ao oferecer refeições a preços simbólicos, mantendo o foco no acesso universal e no respeito à dignidade humana.

As refeições incluem prato principal, acompanhamento, bebida e sobremesa, seguindo cardápios elaborados por nutricionistas, com foco em qualidade, variedade e valor energético adequado.

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