Grupos bolsonaristas usam exemplo nazista em Santos e Guarujá (SP)
Seria a distribuição, via redes sociais, de listas que comércios que se posicionaram em favor da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Carlos Ratton/Agência Brasil
27.10.2026
Fotos: Joedson Alves (Agência Brasil)/ Enciclopédia do Holocausto/Facebook
O que ocorreu nas eleições de 2022 voltou agora em 2026, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsonaristas estão usando as redes sociais para incentivar o boicote a comerciantes e empresários que se identificaram com a proposta de Lula e se posicionaram em favor da democracia. Até uma lista foi postada em rede de WhatsApp.
A denúncia, também via redes sociais, foi feita pela direção do site Juicy Santos e também pelo perfil Papo Reto, de Guarujá, que acrescenta que, no caso da cidade vizinha, a iniciativa teria partido também de funcionários da Prefeitura de Guarujá, que, segundo vídeo de alerta, deveriam lutar pela sustentação econômica do município e, não, ao contrário. Até está se estimulando a não contratação de pessoas por conta do posicionamento contrário a extrema direita.
“Esse povo que quer boicotar negócios locais não entende nada de economia e não entende minimamente como o fluxo de dinheiro funciona. A cidade tá dividida, metade e metade. Eles vão querer deixar de vender também para pessoas que votaram no PT? É isso? Esse movimento está vindo de uma direita maluca, em clubes que, aparentemente, têm muitos homens aglomerados. Então, fica essa coisa meio brutona, meia típica de valentão”, afirma a Ludmilla Rossi, santista e CEO da Juicyhub.
Ludmilla diz ter muito orgulho do Juicy ter aparecido em uma dessas listas duas vezes. “Primeiro porque, da primeira vez que saiu, eles não souberam nem escrever o nome da minha empresa. Esse povo tem que estudar economia, entender as dinâmicas sociais, o comércio de bairro. A importância disso para cidades é fundamental. Esse mesmo povo que depois fica chorando que o centro histórico está vazio e abandonado. Querem sabotar a própria economia? Não faz sentido nenhum”, desabafa.
Para Ludmilla Rossi, a iniciativa partiu de pessoas raivosas e mal-intencionadas, que só replicam um modelo que foi usado pelos comandados por Hitler. Nenhum empreendedor com quem eu conversei de ontem pra hoje vai deixar de se posicionar nas redes, porque isso cada vez precisa ser mais claro para as pessoas. E as pessoas precisam aprender a dialogar sem querer boicotar ou que o outro deixe de existir”, finaliza a CEO.

Sul
A ex-deputada federal Manuela D'Ávila (PSOL) também fez um vídeo nas redes sociais denunciando a prática nazista no Rio Grande do Sul e dá um conselho: ”se o teu nome ou o nome da tua empresa aparece em algumas dessas listas, faz print, registra os links, os perfis, os grupos de quem está divulgando. Procura o Ministério Público e uma advogada ou advogado. Não trata isso como brincadeira de internet. Listar pessoas para persegui-las economicamente por aquilo que pensam é uma prática autoritária. E as práticas autoritárias precisam ser enfrentadas quando começam, não quando já foram longe demais”.
A escritora e jornalista continua: “negocia com quem usa as coisas e ama as pessoas, não com quem ama as coisas e usa as pessoas. Valoriza o negócio de quem valoriza suas trabalhadoras e seus trabalhadores. E jamais, jamais deixe protegido nas suas redes alguém que adota as práticas semelhantes às que a história já nos ensinou a reconhecer: marcar, listar, perseguir, desumanizar pessoas por aquilo que elas são ou pensam. Autoritarismo também se combate deixando de dar palco, alcance e normalidade a quem pratica o autoritarismo. Que estranho, por que não falaram sobre isso antes de domingo? Porque até domingo queriam parecer normais diante da democracia e não autoritários, tal qual são”.

Ex-deputada federal Manoela D’Ávila
Nazistas
Não precisou de muito tempo para que Os Inconfidentes pesquisassem que a artimanha dos grupos bolsonaristas não seria novidade e tem como exemplo a Alemanha de Adolf Hitler, quando nazistas boicotavam sistematicamente o comércio e os profissionais judeus. Esse processo foi uma das primeiras e mais importantes etapas da exclusão econômica e social dos judeus na Alemanha após a ascensão de Hitler ao poder.
O marco inicial dessa política ocorreu em 1º de abril de 1933, com o chamado Judenboykott (Boicote aos Judeus), que representou a primeira ação nacional coordenada pelo regime nazista contra a população judaica.
Naquela época, que logicamente não existia as redes sociais, os nazistas elaboravam e divulgavam listas detalhadas de lojas, consultórios médicos e escritórios de advocacia que pertenciam a judeus.
Membros uniformizados das forças paramilitares SA (Sturmabteilung) e da Juventude Hitlerista eram posicionados em frente aos estabelecimentos. Eles pintavam a Estrela de Davi ou a palavra "Jude" (Judeu) nas vitrines e portas para marcar os locais. Cartazes eram colados pelas ruas com ordens explícitas à população alemã, utilizando slogans como "Não compre de judeus!".
O boicote de 1933 abriu caminho para a asfixia financeira total da comunidade judaica. Nos anos seguintes, por meio de decretos e da violência psicológica e física, os proprietários judeus foram forçados a vender suas empresas por valores irrisórios para cidadãos alemães "arianos" ou tiveram seus bens confiscados pelo Estado.
O ápice da destruição física desses comércios antes da Segunda Guerra Mundial ocorreu na Noite dos Cristais (Kristallnacht), entre 9 e 10 de novembro de 1938, quando milhares de lojas e negócios de propriedade judaica foram vandalizados, destruídos e saqueados pelas forças nazistas.

Culpa de Flávio
Parte da culpa da iniciativa regional de boicotar o comércio cujos proprietários pensam politicamente diferente teve como estímulo o posicionamento do candidato derrotado e ainda senador Flávio Bolsonaro (PL) que, já na noite do último domingo (25) optou por não reconhecer o resultado das urnas, apesar da diferença de mais de 4,4 milhões de votos a favor de Lula.
A justificativa seria a prorrogação do horário de votação eleitoral, decidida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, que atendeu um pedido de ambas as candidaturas, incluindo a da campanha de Flávio que, fazer menção aos mais de 59 milhões de votos recebidos, saiu de uma coletiva de Imprensa sem responder às perguntas.
Zanin tomou a decisão sobre a prorrogação do horário de votação, até às 19h, em caráter de urgência, considerando graves os relatos de dificuldades no transporte de eleitores, especialmente em cidades da Bahia e na cidade de São Paulo. A determinação, anunciada próximo das 17h, horário previsto para o encerramento da votação, inicialmente estabeleceu a extensão do prazo em todas as seções eleitorais.
Após informações do TSE de que diversas urnas já haviam sido fechadas, o ministro esclareceu que a prorrogação deveria ser aplicada somente às seções que ainda estavam abertas. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, orientou os tribunais regionais a manterem essas seções em funcionamento até as 19h. Os votos registrados nas urnas já encerradas seriam computados normalmente.
Vale lembrar que o Judiciário eleitoral e constitucional brasileiro considera válida a eleição, rejeita a tese de anulação defendida por Flávio Bolsonaro e entende que os problemas ocorridos no dia da votação não tiveram impacto suficiente para alterar o resultado. Flavio Bolsonaro está com seu passaporte retido pela Polícia Federal.

Comentários dos leitores
Carregando comentários…