Hugo Souza aciona protocolo antirracismo contra torcida do Rosario Central

Por Alexandre Miguel de Souza
14.08.2026
Foto: Facebook
Na partida realizada nesta quinta-feira (13), na Argentina, entre Rosario Central e Corinthians, o goleiro corintiano Hugo Souza solicitou a aplicação do protocolo antirracismo diante de manifestações atribuídas à torcida argentina. O episódio não pode ser tratado como uma simples provocação de arquibancada. Racismo não é rivalidade, não é folclore e não faz parte do futebol. É violência.
Infelizmente, episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos contra jogadores e torcedores brasileiros não são novos. Casos recorrentes nos estádios mostram que o futebol sul-americano ainda precisa avançar muito no combate às manifestações racistas. Mas compreender esse problema também exige olhar para a história.
A presença negra na Argentina é muito mais profunda do que a narrativa de um país exclusivamente branco e de descendência europeia costuma revelar. No século XVIII, pessoas negras e afrodescendentes representavam uma parcela significativa da população de Buenos Aires e de outras regiões do território argentino.
A Argentina também esteve integrada às redes do tráfico transatlântico de africanos escravizados, e milhares de pessoas negras participaram da construção econômica, social e cultural do país.
Ao longo do século XIX, entretanto, políticas de incentivo à imigração europeia, associadas a ideias de "civilização" e branqueamento, contribuíram para a construção de uma identidade nacional que valorizava a europeização e marginalizava a presença negra e indígena.
Esse processo não significou que a população negra simplesmente desapareceu. Houve guerras — nas quais muitos negros eram colocados na linha de frente para serem mortos —, epidemias, miscigenação, mudanças demográficas, migração e, principalmente, um processo histórico de apagamento da identidade e da contribuição afro-argentina. Durante décadas, a própria ideia de uma Argentina negra foi relegada à invisibilidade.
A contribuição africana também está presente na cultura argentina. A música, as manifestações populares, a linguagem e diversas expressões culturais carregam marcas da presença africana. O próprio tango possui importantes raízes afro-rioplatenses, embora a narrativa internacional sobre o gênero muitas vezes destaque apenas sua associação posterior à imigração europeia e à cultura urbana de Buenos Aires.
Por isso, quando o racismo aparece nas arquibancadas, ele não pode ser relativizado como uma simples "brincadeira" ou provocação entre torcidas. O preconceito racial tem história, tem consequências e precisa ser enfrentado.
O gesto de Hugo Souza é importante porque mostra que jogadores não precisam aceitar o racismo em silêncio. Denunciar, interromper partidas, aplicar protocolos e responsabilizar os autores são medidas fundamentais para transformar os estádios em espaços verdadeiramente democráticos.
E essa luta não termina quando acaba o jogo. Precisamos combater o racismo nos estádios, nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, nas instituições e em todos os espaços da sociedade.

Alexandre Miguel de Souza é escritor e poeta santista

Comentários dos leitores
Carregando comentários…