Inaugurado Centro de Memória às Vítimas da Violência do Estado em região de resistência negra
Cidinha Santos

Cidinha Santos
06.03.2026
Fotos: Marcela Mattos
SANTOS – Em um ato histórico de reparação e afirmação política, foi lançado na quarta-feira (4) o primeiro Centro de Memória às Vítimas da Violência do Estado (CMVV). O lançamento ocorreu na quadra da escola de samba Unidos da Zona Noroeste, agremiação que acaba de ascender ao Grupo Especial do Carnaval santista com o enredo "Somos Netos dos negros que vocês não conseguiram matar".
A escolha do local carrega um simbolismo profundo: ocupar o coração da periferia onde, historicamente, a presença do Estado tem sido marcada pelo extermínio da população preta e pobre, como demonstra o número de pessoas mortas nas Operações Verão e Escudo.
A cerimônia consolidou ação interministerial inédita, estabelecendo em Santos um projeto-piloto nacional focado em memória, atendimento psicossocial e defesa de direitos.
O evento contou com a presença da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, e da secretária da Política Nacional Antidrogas, Marta Machado, além de lideranças da Iniciativa Negra pela Nova Política sobre Drogas, representada por Nathalia Oliveira e Dudu Ribeiro.

Embora o lançamento tenha ocorrido na Zona Noroeste para marcar o território de luta, a sede física do CMVV já tem endereço definido: será no Centro de Santos, na Rua Frei Gaspar.
O prédio, cedido pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU) está passando por reformas estruturais e a previsão é que as instalações entrem em funcionamento pleno no segundo semestre de 2026, tornando-se um ponto de referência permanente para a defesa de direitos na Baixada Santista.

Deputada Estadual Ediane Maria e deputado Estadual Eduardo Suplicy
Uma semente plantada pela dor e pela luta
A criação do CMVV não é apenas decisão técnica de governo, mas o resultado de trajetória de resistência que completa duas décadas. A iniciativa nasceu do Movimento Independente Mães de Maio, sob a coordenação de Débora Silva, que se tornou uma das maiores vozes contra a letalidade policial no Brasil após o assassinato de seu filho pelo Estado em maio de 2006. A luta de Débora e das outras mães por justiça, verdade e memória é o que hoje fundamenta este projeto-piloto nacional.
A vez das periferias: Onde o Estado entrava para matar, agora entra para reparar
O lançamento na Zona Noroeste foi descrito por lideranças locais como um "contra-ataque à lógica de guerra" que vítima a juventude negra. Representantes de movimentos sociais destacaram que, nas regiões periféricas, o braço armado do Estado é frequentemente a única face do poder público conhecida pela comunidade. O CMVV surge para inverter essa balança, oferecendo acolhimento onde antes havia apenas a incursão policial.
O evento foi prestigiado por um arco político progressista, incluindo a deputada estadual Ediane Maria (PSOL), integrante da Comissão de Segurança Pública da ALESP, o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), representantes de outros parlamentares, secretaria da mulher e vereadores da região, diversos coletivos de direitos humanos e movimentos sociais.
Para os presentes, a existência do Centro é a vitória das famílias que transformaram o luto em luta, com destaque para o protagonismo do Movimento Independente Mães de Maio em parceria com a Iniciativa Negra.
Projeto CAIS: Ciência e acolhimento integrados
Como braço operacional do Centro, foi apresentado o Projeto CAIS – Mães por Direitos, cooperação técnica entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O projeto articula três frentes fundamentais:
• Acolhimento Avançado: Atendimento humanizado em saúde integral para monitorar os impactos do trauma e da violência sobre os corpos e mentes dos familiares e territórios.
• Produção de Conhecimento: Transformação da vivência orgânica das famílias e movimentos sociais em pesquisas científicas sobre direitos humanos e violência institucional.
• Fortalecimento Institucional: Conexão do Centro à rede federal de políticas públicas, garantindo que a estrutura tenha perenidade e suporte técnico.
Memória como Política de Estado
A ministra Macaé Evaristo enfatizou que o projeto-piloto de Santos servirá de modelo para outras regiões do país. Enquanto as obras na Rua Frei Gaspar avançam para receber o público no segundo semestre, o projeto já começa a articular as redes de apoio nos territórios O objetivo é criar uma estrutura de defesa que impeça o apagamento das histórias das vítimas e ofereça suporte jurídico e emocional contínuo.
Ao encerrar o evento sob o eco do enredo da Unidos da Zona Noroeste, as autoridades e movimentos sociais reforçaram que a memória é ferramenta de justiça. Se a escola de samba celebrou na avenida os "negros que não conseguiram matar", o Centro de Memória se estabelece como a garantia institucional de que aqueles que tombaram não serão esquecidos e que suas famílias terão, finalmente, o amparo do Estado.

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