Indígena Maxakali do sul da Bahia cria canudo biodegradável com casca de folha de goiabeira

Maybí Machacalis busca parceiros para avançar seus estudos e o projeto

Indígena Maxakali do sul da Bahia cria canudo biodegradável com casca de folha de goiabeira

Carlos Ratton

15.06.2026

Fotos: Divulgação

Ela cursou Pilotagem de Aeronaves durante o período em que residiu em Belo Horizonte (MG), mas a paixão pela ciência e pela natureza a fez ir mais além. Eva Pereira de Camargo, tenho 31 anos, ou simplesmente Maybí Machacalis, moradora hoje no município de Itanhém, no extremo sul da Bahia, e pertencente ao povo indígena Maxakali, desenvolveu o conceito de um canudo biodegradável cuja matéria-prima principal é composta por folhas de goiabeira associadas a um polímero natural derivado da linhaça.

Segundo explica, há muito vinha buscando alternativas práticas e acessíveis que poderiam contribuir para a redução dos impactos ambientais causados pelos resíduos plásticos. “Como possuo uma goiabeira em minha residência, comecei a refletir sobre o potencial de materiais vegetais de baixo custo”, revelou.

Maybí teve como principal inspiração a paixão pela ciência e da preocupação com as mudanças climáticas e a poluição ambiental. Em sua região, assim como em diversas partes do mundo, ela observou e o uso intenso de materiais plásticos descartáveis, que podem gerar microplásticos capazes de impactar negativamente a fauna, a flora e os ecossistemas aquáticos e terrestres.

“O material que desenvolvi é composto principalmente por folhas de goiabeira e um polímero natural obtido a partir da linhaça, formando uma estrutura biodegradável de origem vegetal”, completa.

Nos testes preliminares realizados por ela, o protótipo apresentou resistência estimada entre 15 e 30 minutos em bebidas quentes e entre 30 e 50 minutos em bebidas geladas. “Após o descarte, estima-se que o material possa ser degradado por microrganismos decompositores, como fungos, em um período aproximado de 7 a 15 dias, dependendo das condições ambientais”, conta.

Vantagem

A jovem pesquisadora revela entre os potenciais benefícios ambientais estão a redução da geração de resíduos plásticos persistentes, a diminuição do risco de formação de microplásticos e o retorno da matéria orgânica ao solo durante o processo de decomposição.

“A utilização de matérias-primas vegetais relativamente acessíveis sugere potencial para desenvolvimento em escala industrial, desde que sejam realizados estudos técnicos, testes de qualidade, validações sanitárias e análises de viabilidade econômica”, adianta.

Além de sua proposta ambiental, o produto agrega valor por utilizar recursos naturais renováveis e por buscar substituir materiais derivados de combustíveis fósseis.

O projeto também possui potencial de impacto social ao incentivar soluções sustentáveis inspiradas em conhecimentos tradicionais e na biodiversidade brasileira.

Sua principal inovação está na combinação entre biodegradabilidade, baixo potencial de geração de resíduos persistentes e uso de matérias-primas vegetais acessíveis.

“O projeto ainda se encontra em fase inicial de desenvolvimento e não possui um custo industrial definido. Entretanto, por utilizar matérias-primas vegetais amplamente disponíveis, existe a expectativa de que, após otimização dos processos produtivos, o custo unitário possa ser competitivo em relação a outras alternativas biodegradáveis presentes no mercado. Estudos de escalabilidade serão necessários para determinar valores precisos”, adianta.

Parcerias

Aos Inconfidentes, a pesquisadora diz ter interesse em estabelecer parcerias com universidades, centros de pesquisa, empresas, investidores e instituições ambientais para aprimorar a tecnologia, validar cientificamente o produto e ampliar sua aplicação.

Disse também que pretendo desenvolver novos materiais sustentáveis, incluindo soluções que possam gerar benefícios ambientais adicionais após o descarte, como contribuir para processos de recuperação ecológica.

“Este projeto nasceu da observação cotidiana de um problema global e da busca por soluções acessíveis inspiradas na natureza. Embora ainda esteja em fase inicial, a proposta demonstra como a criatividade, a ciência e o conhecimento dos recursos naturais podem contribuir para o desenvolvimento de alternativas sustentáveis”, ressaltou

Para Maybí, sua iniciativa reforça a importância de incentivar a pesquisa, a inovação e a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais na construção de tecnologias voltadas para a preservação ambiental e o enfrentamento das mudanças climáticas.

 

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