Jornalista santista cria roteiro para manter a Santos Indígena viva

Os Inconfidentes fizeram o roteiro no último sábado (30), que se mostrou um verdadeiro choque de realidade.

Jornalista santista cria roteiro para manter a Santos Indígena viva

Carlos Ratton

01.06.2026

Foto: Tony Valentte

Muitos santistas e até quem não é da cidade deveria conhecer “Guaiaó: Memórias, histórias e Apagamentos Indígenas em Santos”, um roteiro de caminhada, criado e executado pela jornalista Catarina Apolinário, que remonta uma história de Santos que deveria fazer parte do currículo educacional da cidade.

A partir da Ponte Edgar Perdigão, na Ponta da Praia, Catarina segue com os participantes por pontos que trazem reflexões contemporâneas sobre os povos originários, apresentando narrativas historicas propositadamente apagadas e análises criticas decoloniais.

Os Inconfidentes fizeram o roteiro no último sábado (30), que se mostrou um verdadeiro choque de realidade. Da Ponte Edgar Perdigão, Catarina apresenta esculturas urbanas que retratam a história colonial, observando a geografia, a língua tupi, a ocupação caiçara, os pensamentos afroindígenas, e os hábitos que trazem referência aos povos indígenas que habitaram este território.

Além disso, a proposta visa desmistificar a imagem genérica dos povos originários, apresentando personalidades, artistas, lideranças, profissionais de diversas áreas e produtores de conhecimento de diversas etnias.

“Mais do que uma caminhada sobre história, Guaiaó é um roteiro sociocultural na cidade de Santos que revela, retoma, ressignifica e revisita espaços de memória ancestral na Ponta da Praia”, afirma a jornalista. (Veja como participar no final desta reportagem).

Depois de apresentar seu histórico e convivência com os povos indígenas, Catarina começa o roteiro com uma canção indígena voltada para o mar

Duas décadas

Catarina carrega em sua bagagem mais de 20 anos de pesquisa em comunidades tradicionais, povos originários e de terreiro na Costa da Mata Atlântica, unindo sua experiência em projetos socioculturais, comunicação, pesquisa, educomunicação e turismo de base comunitária.

A partir de uma pesquisa multireferenciada, que utiliza de revisões bibliográficas e oralidade, a jornalista reavalia livros antigos e documentos, conversa com anciãos e comunitários, busca referências na filosofia indígena e quilombola. Sempre destacando produções de conhecimento.

Durante o trajeto, além de uma gama imensa de histórias pouco contadas por conta de centenas de anos de apagamentos da real história e a importância dos povos indígenas que viveram na Baixada Santista bem antes da invasão do Brasil pelos portugueses, Catarina lembra que muitos bairros de Santos possuem nomes indígenas.

Entre eles, Embaré (tupi-guarani) que significa águas que curam e Marapé (tupi-guarani) que significa caminho do mar e foi dado em referência à antiga rota utilizada pelos povos originários, que conectava o Centro Histórico de Santos à praia, macuco. Também Macuco e Saboó (arranca-raízes).

Não há um levantamento oficial consolidado sobre o número exato de ruas em Santos com nomes indígenas. No entanto, a malha viária do município possui dezenas de vias com origem tupi - principalmente relacionadas à flora, fauna e acidentes geográficos - espalhadas pela ilha e pela Área Continental, como é o caso das ruas Arabutã (nome indígena do pau-brasil) e Itororó (termo tupi para água corrente ou manancial).

No entanto, passados 526 anos do “Descobrimento do Brasil” – narrativa que dia após dia vem perdendo credibilidade pois os povos originários já estavam no Brasil quando os portugueses chegaram), os apagamentos não cessam.

Apagamentos recentes

Um deles ocorreu em 2023, quando a Rua Guaiaó, no Bairro da Aparecida, passou a se chamar Alameda Armênio Mendes. Em recente entrevista aos Inconfidentes, a vereadora Débora Camilo (PSOL), única que votou contra na Câmara de Santos, lembrou com tristeza a mudança.

“Quando houve a mudança da rua Guaiaó para Armênio Mendes não se levou em consideração a questão histórica, porque a única coisa que se leva em consideração é quem é homenageado”. Guaiaó é o termo indígena que denominava a Ilha de São Vicente em sua origem, onde estão parte de Santos e São Vicente.

Bárbaros

No mesmo ano, o então pastor-vereador Roberto Teixeira (Republicanos), na tribuna da Câmara de Santos, ao ler requerimento de congratulações aos 31 anos de emancipação de Bertioga, município caçula da Baixada Santista, que tem, como principal atração cultural e turística, o Festival Indígena, disse o seguinte:

“Bertioga surge na História do Brasil com a importância de um dos primeiros pontos geográficos com povoamento regular. Estes locais eram destinados à defesa do povoamento e foram palco de grandes batalhas entre a civilização, representada pelos portugueses, de Martim Afonso de Sousa, e a barbárie, representada pelos tamoios de Aimberê, Caoaquira, Pindobuçu e Cunhambebe, em constantes incursões contra os colonizadores”.

O caso causou um grande desgaste à época. O ex-vereador e advogado santista Nobel Soares de Oliveira chegou a ingressar com uma representação criminal (denúncia) no Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) contra Roberto Teixeira por utilizar a tribuna da Câmara santista para rotular indígenas do litoral e, consequentemente, de todo o Brasil, de ‘bárbaros’.

Turismo

Mas se a Câmara de Vereadores de Santos não tem a mínima consideração com os povos originários, a Secretaria de Turismo de Santos também não fica longe. Aos Inconfidentes, foi enviado um print a seguinte ‘pérola’, retirada de uma única referência bibliográfica:

“Guaiaó é palavra de origem semítica (conjunto linguístico composto por uma família de vários povos que compartilham as mesmas origens culturais), provavelmente dado pelos povoadores hebraicos do litoral. Significa ‘lugar de fornecimento das provisões’, já que era na ilha que os viajantes encontravam índios amistosos e com eles trocavam mercadorias por gêneros alimentícios”.

E a Prefeitura de Santos?

O apagamento não se resume a palavras ou projetos de mudança de nomes de ruas. Durante o trajeto, Catarina Apolinário mostra uma situação que já perdura anos. No Monumento ao Padre Anchieta, nos jardins da Praça Vereador Luiz La Scala, bem em frente ao Aquário Municipal de Santos, no bairro da Ponta da Praia, o arco da mão da estátua do indígena foi arrancado e nunca restituído.

“Não colocar, não repor esse arco, representa a falta de interesse pela história indígena, a falta de respeito pela imagem do ser indígena que, por si só, ajoelhado nos pés de um padre já é desrespeitoso”, afirma a jornalista, que garante que a submissão nunca foi a marca dos indígenas, mas sim, a resistência em serem escravizados. Por isso, milhares foram mortos no Brasil e ainda continuam sendo nos dias atuais.

Catarina lembra que estátuas outras esculturas urbanas, sempre que danificadas, receberam manutenção. “No caso do arco, o que me foi dito é que não tinha foto para fazer a restauração. No entanto, o Instituto Histórico Geográfico já tem a imagem, inclusive me encaminhou a estátua na sua concepção original, provando que existia, sim”, afirma Catarina com a foto em mãos. 

Foto detalhe do arco arrancado até hoje sem reposição da peça

Para a jornalista, o ato de não repor na mão do indígena um arco é um absurdo, pois o arco é um objeto não só de poder espiritual, mas uma ferramenta de defesa, de subsistência, pois também é utilizado pra caça do alimento das famílias indígenas.    

“Acredito que isso é mais uma vez a Cidade Santos se mostrando ser supercolonialista. Que realmente não tem interesse nenhum em contar a real história dos povos originários na região. Os ataques e a referências equivocadas sobre a cultura indígenas são muitas. As formas de apagamento não param. Mas nós, com muita luta, com muita conscientização, vamos resistindo”, finaliza Catarina Apolinário.

Quem quiser participar do “Guaiaó: Memórias, histórias e Apagamentos Indígenas em Santos”, é só ligar para (13) 99152-6970.

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