Laudelina Vive: trabalho doméstico, democracia e a luta por direitos invisibilizados

Por Paula Ravanelli

Laudelina Vive: trabalho doméstico, democracia e a luta por direitos invisibilizados

Por Paula Ravanelli

23.03.2026

Em um país marcado por profundas desigualdades, há lutas que persistem por décadas sem ocupar o centro do debate público. O trabalho doméstico é uma delas. Exercido majoritariamente por mulheres negras e periféricas, ele carrega as marcas de uma herança escravocrata que insiste em sobreviver sob novas formas de exploração, informalidade e invisibilidade.

É nesse contexto que a Baixada Santista vive um momento histórico: a fundação da Associação das Trabalhadoras Domésticas da Baixada Santista – Laudelina Vive no próximo sábado (28) na sede da Associação Cultura Jose Marti, em Santos. Mais do que um ato formal, trata-se da reafirmação de um projeto coletivo de organização, autonomia e luta por direitos.

A escolha do nome não é casual. Laudelina de Campos Mello foi uma mulher à frente de seu tempo. Há 90 anos, aqui mesmo em Santos, fundou a primeira associação de trabalhadoras domésticas do Brasil — um gesto profundamente político em uma época em que essas mulheres sequer eram reconhecidas como sujeitas de direitos.

Mais tarde, em Campinas, fundou outra associação, que viria a se transformar no primeiro sindicato da categoria, quando finalmente o trabalho doméstico passou a ser reconhecido como profissão por meio da Lei nº 5.859, de 1972.

Laudelina enfrentou o silêncio imposto às trabalhadoras com coragem e organização. Sua frase “empregada não é de confiança, é de luta” segue atual e necessária. Ela compreendia algo que ainda hoje precisamos reafirmar: não há direitos sem luta, e não há justiça social sem o reconhecimento pleno do trabalho doméstico.

Apesar de avanços importantes, como a Emenda Constitucional das Domésticas, de 2013, a realidade ainda é dura. A informalidade segue como regra, o acesso aos direitos é desigual e a precarização se intensifica em momentos de crise econômica. Muitas trabalhadoras ainda desconhecem seus direitos básicos ou enfrentam dificuldades concretas para garanti-los.

Por isso, a nova associação aponta um caminho inovador e necessário. Ao incluir não apenas empregadas domésticas, mas também diaristas, cuidadoras e donas de casa — as chamadas trabalhadoras da economia do cuidado —, a associação reconhece uma realidade que sempre existiu, mas raramente foi tratada como questão política.

Estamos falando de um universo imenso de mulheres que sustentam a vida cotidiana: cuidam de crianças, idosos, pessoas com deficiência, organizam lares, garantem alimentação, afeto e sobrevivência. Sem esse trabalho, nenhuma sociedade moderna funciona. Ainda assim, ele permanece invisível nas estatísticas, subvalorizado nas políticas públicas e naturalizado como obrigação feminina.

Ao se organizar como associação — e não como sindicato —, a Laudelina Vive dá um passo importante: cria um espaço capaz de articular todas essas experiências, reconhecendo o cuidado como eixo central da vida social e da luta por direitos.

Não se trata de substituir o sindicato, que continua a ser um dos objetivos do movimento, mas de ampliar o seu campo de atuação. De construir uma plataforma que dialogue com a realidade concreta das mulheres, que muitas vezes transitam entre o trabalho remunerado e o não remunerado, entre a informalidade e o emprego precário, entre o cuidado da própria família e o cuidado de outras.

Essa visão dialoga diretamente com um dos debates mais avançados do nosso tempo: a construção de um novo modelo de desenvolvimento baseado na valorização da economia do cuidado. E isso não é um detalhe — é uma mudança de paradigma.

Significa afirmar que o cuidado não é responsabilidade individual das mulheres, mas uma questão coletiva, que deve ser compartilhada entre famílias, Estado, mercado e sociedade. Significa, também, enfrentar as desigualdades de gênero, raça e classe que estruturam esse tipo de trabalho.

Hoje, quase um século depois, seguimos os passos de Laudelina, demonstrando que sua inspiração permanece viva — tanto na luta pelo reconhecimento formal do trabalho doméstico quanto na afirmação do cuidado como base da vida social — e que é preciso reorganizar a forma como esse trabalho é distribuído e valorizado.

A criação da Associação Laudelina Vive, na Baixada Santista, aponta exatamente nessa direção.

Ela nos convida a enxergar o que sempre esteve diante de nós, mas foi sistematicamente invisibilizado. E, mais do que isso, nos chama à ação coletiva.

Porque, como nos ensinou Laudelina, nenhum direito nasce pronto. Ele é construído na luta.

Paula Ravanelli é advogada e procuradora do Município de Cubatão, feminista e ativista dos direitos humanos. Atuou como Assessora Especial da Presidência da República nos governos Lula e Dilma e integra o Conselho Municipal da Condição Feminina de Cubatão

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