Lincoln, a picanha e a verdade que o Brasil cala

Por CristianoTorres1977
30.06.2026
Foto: Divulgação Redes Sociais
Ele apareceu por aí reclamando que o problema nunca é a falta de vontade de trabalhar, e que o brasileiro acorda cedo, rala o dia todo, paga todos os impostos e ainda assim não consegue garantir o básico. Diz que os alimentos que sempre fizeram parte da mesa viraram luxo, e que o custo de vida sobe muito mais rápido do que o salário de quem trabalha.
Afirma que faz tudo certo e, mesmo assim, o essencial fica cada vez mais distante. Daqui a pouco, o Pablo Marçal já aparece por aí pegando ele, dando casa grande e fazendo dele o maior exemplo vivo de meritocrata de sucesso que o mundo já conheceu. Logo, ele vai estar viajando por aí dando palestras, ensinando todo mundo a vencer na vida.
Agora, vamos falar com sinceridade, sem enrolação. Se ele está tão insatisfeito assim, que tal ir testar essa sorte nos Estados Unidos ou na Europa?
Ele vai lá com todas essas tatuagens espalhadas pela cara, pelo pescoço e por todo o corpo, e vamos ver quanto tempo ele consegue um serviço formal. Lá, ele já chega sendo visto como um homem latino, negro e pobre, e essas características já são suficientes para muita gente fechar a porta na cara dele antes mesmo de qualquer conversa.
E não é só a recusa ao trabalho: nesses mesmos lugares, quando recebem pessoas que consideram indesejadas ou que não se encaixam no que eles chamam de ordem, elas são levadas para áreas de concentração, muitas vezes ficam presas em condições desumanas, depois são deportadas ou simplesmente aparecem mortas, uma prática que guarda uma semelhança assustadora com o que foi feito na Alemanha nazista, onde grupos inteiros foram confinados e eliminados por não corresponderem ao ideal que o poder determinava.
Muitos diriam que o trabalho braçal seria o mais acessível, mas esse tipo de ofício foi historicamente reservado e imposto às pessoas negras como forma de exploração, e mesmo assim, hoje, até essas vagas são negadas a quem não se encaixa no visual esperado. Os trabalhos mais específicos e especializados, como atender clientes atrás de um balcão, operar um computador em escritório, atuar em consultório médico, lecionar em sala de aula ou exercer funções em escritórios de engenharia e direito, todos exigem um comportamento e características físicas consideradas padrão pela sociedade. Com a aparência que ele apresenta, dificilmente ele passaria nem pela imigração, e se por acaso conseguisse entrar, ainda assim não seria aceito em quase nenhuma atividade formal.
Voltando ao Brasil, o que realmente restaria para ele seria justamente o trabalho braçal mais pesado e desvalorizado, ou então os serviços informais que hoje são apresentados como a grande saída da tal meritocracia, como ser motorista de aplicativo, mototaxista e outros ofícios sem vínculo nenhum.
Mas nem sempre essa oportunidade aparece, pois o preconceito e os julgamentos pela aparência impedem até mesmo o acesso a esse tipo de serviço. E não se engane, pois esses trabalhos também são uma forma de exploração: exigem dedicação total, obrigam o trabalhador a arcar com todos os gastos do próprio veículo, como combustível, seguro, impostos, consertos, troca de peças, pneus e manutenção constante, e no final, depois de descontar tudo isso, quem exerce isso acaba se submetendo à mesma jornada 6x1², que chamam de oportunidade, mas que só serve para sugar o último resto de energia de quem precisa sobreviver.
E não venha acreditar que um currículo cheio resolve tudo isso. Mesmo que ele tenha títulos acadêmicos e estudos, ainda assim não vai adiantar muita coisa. Aqui, ele é visto como um homem negro de pele clara, e essa condição já carrega todos os pesos que a história desse país colocou sobre os ombros da população negra.
Aqui no Brasil, que também não é nenhum paraíso e vive cheio de preconceitos, a polícia já olha com outros olhos para quem tem esse visual. Se ele anda com roupas que geralmente associam a pessoas de má índole ou bandidos, como espera ser tratado com respeito? A polícia já vai logo imaginando que ele é envolvido com alguma coisa errada, e o risco de acabar numa situação ruim é muito grande. Muitas vezes, o desfecho pode ser até trágico, e ninguém fica sabendo direito o que aconteceu.
Depois, ainda fica reclamando como se as escolhas não tivessem nenhum peso na vida. Mas espera um pouco, então para que servem as nossas decisões? Se alguém sai por aí colocando cinquenta filhos no mundo e se envolve com um monte de mulheres diferentes, é claro que vai ter despesas e obrigações enormes para cumprir. Se assumimos compromissos que não temos condição de arcar, depois não podemos ficar reclamando que a vida é difícil. Ou se trabalha duro para sustentar tudo isso, ou se passa fome: não existe mágica que faça o dinheiro aparecer do nada. Também não é possível querer um emprego melhor se não se esforça para estudar ou se qualificar um pouco. Algumas escolhas realmente definem muito do rumo que a nossa vida toma.
Não quero parecer que estou aplicando o darwinismo social, mas já falando sem rodeios e sem sentimentalismos inúteis, basta aceitar a tal meritocracia que vendem como verdade absoluta. Mas ele também parece esquecer de todo o histórico que forma esse país.
O Brasil foi construído como uma nação escravagista e mantém traços profundos dessa estrutura até hoje. Somente pessoas brancas contam com privilégios reais nesse território, e a democracia que existe aqui foi desenhada para funcionar bem apenas para elas.
Mesmo o branco pobre frequentemente carrega o peso desse preconceito e acaba competindo e discriminando o negro pobre que vive ao seu lado. Em qualquer loja ou empresa, o candidato branco será escolhido na frente do negro, quase sempre, especialmente se houver diferenças de aparência, vestuário ou marcas no corpo.
Esse país foi fundado sobre bases sólidas de exploração, expropriação, desumanização, genocídio e assassinato. Os latifundiários, as elites rurais e os grileiros que comandam o chamado agro da morte ocupam terras obtidas através da violência e da fraude.
Eles mataram indígenas e negros para tomar posse de todo esse território, falsificam documentos para se apropriar de áreas alheias e continuam repetindo essas práticas até os dias atuais. Ninguém assume, mas todas as grandes propriedades existem graças a sangue derramado, roubo e grilagem organizada.
E tudo isso se liga a uma estratégia muito maior: a reforma agrária nunca foi feita, e isso foi algo totalmente proposital, justamente para impedir que a terra fosse dividida. Também não podemos esquecer que, no início da República, Rui Barbosa ordenou a queima dos registros dos negros escravizados, um ato que não foi acidente, mas sim uma medida programada para apagar a história e as origens desse povo.
É interessante notar que, mesmo nos Estados Unidos, onde a discriminação racial é declarada e explícita, houve reforma agrária, o que permitiu que muitos negros conseguissem construir seu patrimônio, alcançar a ascensão social, se tornar empresários ou fazer parte da classe média — um caminho que aqui, com o nosso racismo velado e a terra concentrada, foi fechado de propósito.
E no final, quem manda realmente no Brasil não é nem o presidente. O poder está concentrado no Congresso Nacional, nos deputados, nos senadores, nos governadores, nos prefeitos e nos vereadores.
Mas vai muito além disso: o verdadeiro comando vem dos grandes empresários, dos donos dos meios de produção e dos grandes comerciantes, grupo onde mais de noventa e cinco por cento são pessoas brancas.
São os donos do Grupo Faria Lima, das Lojas Americanas, do Banco Itaú, da Coca-Cola, de todas as grandes cervejarias, das empresas do agronegócio e de tantos outros grandes negócios que ditam as regras. Eles escolhem quem vai governar o Brasil sempre de acordo com os seus interesses financeiros, montando toda uma estrutura para colocar no poder quem eles querem e tirar quem não lhes serve, inclusive da presidência.
A população até vai às urnas e faz a sua escolha, mas as grandes emissoras de televisão, de rádio e a mídia de um modo geral já definem antes quem vai vencer. Elas usam propagandas, comerciais e mensagens ocultas para moldar o pensamento do eleitor e da população, tudo guiado pelo que esses grandes donos do capital determinam para a sociedade.
Agora, basta levantar o olhar e ver quantos negros ocupam cadeiras nessas instituições, quantos fazem parte do Judiciário ou chegam ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal. Quantos negros são médicos em grandes hospitais ou diretores de grandes empresas?
Pouquíssimos estão no poder, enquanto muitos são empurrados para as bordas da sociedade, para esses trabalhos informais ou para o mundo do tráfico. E não se engane, pois esse tráfico também é comandado das mesmas cadeiras de poder por aqueles mesmos políticos e autoridades que deveriam zelar pela ordem.
Tudo funciona como uma grande rede onde ninguém de fora entra, e quem nasce na cor errada ou no lugar errado já está condenado antes mesmo de começar a lutar.
Quem sabe, seguindo tudo isso, ele consegue realizar o grande sonho de fazer churrasco de picanha aos fins de semana. Essa conquista tão esperada virá depois de se submeter a trabalhar na jornada 6x1², que muitos chamam com desfaçatez de grande oportunidade.

Cristiano Torres é professor especialista pesquisador CAPES mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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