Lucro bilionário e cachê zero: A perversa lógica do Edital "Porto e Cultura" da APS

Por Luciano Albano de Oliveira
21.07.2026
Foto: APS
Recentemente a Autoridade Portuária Santista (APS) divulgou um Edital de Chamamento Público nº 01/2026 Ocupação de Espaços para projetos artísticos e culturais para ocupação temporária do espaço "Porto e Cultura". O Edital traz em seu regulamento pontos cruciais que explicam a forte reação negativa da classe artística.
Resumidamente, o documento estabelece as seguintes condições para os selecionados:
1. Ausência Total de Remuneração (Item 2.5)
O edital especifica expressamente que não haverá qualquer tipo de contrapartida financeira, o que inclui:
*Não pagamento de cachê;
*Não pagamento de ajuda de custo;
*Ausência de premiação ou reembolso de qualquer natureza por parte da APS.
2. Transferência Integral de Custos Operacionais (Item 2.6)
Toda a viabilização financeira, logística e operacional da atividade fica a encargo exclusivo do artista/proponente selecionado. O edital exige que o proponente arque do próprio bolso com:
*Produção, transporte e logística;
*Montagem e desmontagem das exposições ou apresentações;
*Contratação de equipe técnica;
*Aquisição/locação de materiais;
*Seguros e adequação às normas de segurança do espaço.
3. Formato de Ocupação e Escopo
*Objetivo: Seleção de até 60 propostas (artes visuais, dança, música, teatro, literatura, circo e artes integradas) para compor a programação do espaço entre 2026 e 2028.
*Período de Uso: Prazo máximo de ocupação de até 45 dias por projeto (incluindo montagem e desmontagem).
Modalidade: Fluxo contínuo de inscrições ao longo do ano.
O edital funciona como uma autorização de cessão de uso do espaço sob a justificativa de "apoio institucional" e "visibilidade", impondo ao proponente a obrigação de financiar integralmente a própria apresentação e cobrir todos os custos técnicos, logísticos e de segurança.
UMA AFRONTA PARA A CLASSE ARTÍSTICA
De imediato os artistas da Baixada Santista reagiram com indignação ao Edital considerando-o como institucionalização de exploração do trabalho cultural, invertendo a lógica do fomento público.
Em 2025 a Autoridade Portuária de Santos lucrou R$ 938,9 milhões, com uma alta de 22,3% em relação ao resultado de 2024.
Lançar um chamamento para implementação de sua agenda cultural sem nenhum investimento exigindo que os trabalhadores paguem para trabalhar é inaceitável e abusivo, uma vergonha para o setor cultural regional.
Este Edital vai totalmente no sentido contrário da função de um Edital público, pois não fomenta, não financia e inviabiliza a produção artística.
Além disso, a APS se apropria indevidamente do prestígio dos artistas pensando exclusivamente em valorizar institucionalmente sua própria imagem, transferindo 100% dos custos e riscos financeiros ao criador.
Assim, exclui o artista como beneficiário do incentivo, transformando-o em financiador privado de um espaço de uma empresa pública.
A exigência do Item 2.6 de que o artista arque com seguros, segurança do espaço, equipe técnica, transporte e montagem/desmontagem é um disparate econômico.
*Segurança e manutenção do espaço físico são custos fixos de infraestrutura da própria administradora (APS).
Ao eximir-se dessas responsabilidades, a APS impõe uma despesa operacional gravíssima ao trabalhador, fazendo com que uma apresentação ou exposição represente prejuízo financeiro direto ao proponente.
Ao justificar a ausência de recursos como "cessão de espaço" e "apoio institucional", o edital valida a falácia de que "visibilidade" é moeda de troca.
Visibilidade não paga transporte, equipamentos, direitos autorais, ensaios ou sustento de quem produz.
Essa postura vinda de um órgão oficial reforça a ideia retrógrada de que a arte não é trabalho, mas sim um mero "passatempo" ou favor.
ELITISMO. CULTURA PARA TODOS?
Ao não oferecer ajuda de custo e exigir investimentos do próprio bolso, o edital exclui sistematicamente a maioria dos artistas independentes, periféricos e de pequeno porte da Baixada Santista.
Só consegue ocupar o espaço quem já tem recursos financeiros próprios para arcar com seguro, logística e produção.
Isso transforma um espaço público em um privilégio para poucos, sufocando a diversidade e a riqueza da produção cultural local.
A Baixada Santista tem uma trajetória histórica de organização da classe artística que vem há anos lutando por leis de incentivo (como a Aldir Blanc, Paulo Gustavo e editais municipais) pautadas no respeito à remuneração digna e à valorização do trabalhador da cultura.
Um edital nesses moldes, vindo da APS, é um retrocesso grave nas conquistas trabalhistas da categoria e desconsidera totalmente a relevância econômica e social da economia criativa da região. É um acinte.
Considero legítimo o protesto dos artistas que devem ser respeitados por seu talento, remunerados de maneira digna e justa pelo seu esforço profissional.
Diminuir o trabalho cultural sob o rótulo de "oportunidade" deve ser severamente combatido.
Que a classe artística continue levantando as bandeiras do respeito, indignação e valorização da nossa Cultura.
Basta de bizarrices como esta.

Luciano Albano é músico e publicitário, formado em Comunicação Social

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