“Luto pela demarcação de terras e pelos direitos, igualdade e liberdade de meu povo”

Na semana passada, em que se comemorou a Independência do Brasil e passado um ano de prisão domiciliar, o Cacique Suruí concedeu entrevista aos Inconfidentes.

“Luto pela demarcação de terras e pelos direitos, igualdade e liberdade de meu povo”

Carlos Ratton

15.09.2026

Fotos: Tony Valentte

Ele sequer pode pescar para sobreviver, apesar do mar estar bem próximo. Está sob prisão domiciliar desde 12 de setembro de 2025. O Cacique Suruí Pataxó (Welington Ribeiro de Oliveira) é presidente do Conselho de Caciques da Terra Indígena Barra Velha (BA). Comanda a Aldeia Mãe Barra Velha, localizada em Porto Seguro, perto do distrito de Caraíva, conhecida por ser a aldeia mãe por dar origem as demais 32 comunidades pataxós da região.

Principal personagem da luta pela demarcação e ampliação dos territórios tradicionais do Povo Pataxó no extremo sul da Bahia – cerca de 30 mil indígenas - o Cacique Suruí esteve na linha de frente contra invasões e pressões fundiárias na região.

Segue cumprindo condenação a sete anos e seis meses pela Justiça Federal por meio da Vara Única da Subseção Judiciária de Eunápolis, pelos crimes de posse e porte ilegal de armas de fogo e corrupção de adolescentes (que estavam com ele após abordagem policial).

O cacique foi preso no dia 2 de julho de 2025 durante um patrulhamento realizado pela Força Nacional de Segurança Pública no âmbito da Operação Pataxó, deflagrada no município de Porto Seguro, também no extremo sul do estado.

Lideranças Pataxó relataram que as armas apreendidas com o cacique haviam sido interceptadas pelos indígenas durante uma ação de retomada territorial em uma das fazendas sobrepostas ao território reivindicado pelos indígenas. Eles afirmaram que, no momento da prisão, Suruí transportava as armas para entregá-las às forças de segurança.

Após pedido conjunto de revogação da prisão por parte da Defensoria Pública da Bahia (DPE), do Ministério Público Federal (MPF), e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a 1ª Vara Criminal da Comarca de Porto Seguro decidiu substituir a prisão preventiva por medidas cautelares, incluindo recolhimento domiciliar. 

Na semana passada, em que se comemorou a Independência do Brasil e passado um ano de prisão domiciliar, o Cacique Suruí concedeu entrevista aos Inconfidentes.

A Reportagem esteve na aldeia e ouviu o lamento de um guerreiro que, segundo acredita, seu único crime foi o de lutar pela remarcação de terra dominada por grileiros, fazendeiros e latifundiários que agem sob ‘vistas grossas’ da classe política local, que assiste de ‘camarote’ os conflitos.

Tanto da Defensoria Pública Federal, quanto o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) - órgão indigenista cristão criado em 1972 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com os objetivos de lutar pelo direito e autonomia dos indígenas através de projetos pluriétnicos e de organizar com os indígenas o trabalho da Igreja Católica no Brasil) – já se posicionaram.

Por intermédio da Imprensa regional, declararam que há uma tendência que a investigação e a criminalização sempre ocorram ou avancem contra membros da comunidade indígena, mas nunca da maneira esperada ou devida com relação à violência perpetrada pelos fazendeiros e proprietários de terras da região.

Confira a entrevista:

Os Inconfidentes -  O seu caso já ultrapassou a fronteira de Porto Seguro e ganhou o Mundo. Explica melhor isso?

Cacique Suruí Pataxó – Conseguimos dar nosso recado para a ONU (Organização das Nações Unidas). Nosso parente já fez denúncia em Genebra (Suíça) e na França, através do CIMI. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também está a par de nossa situação. Estou preso junto com minha família.     

Os Inconfidentes – Você é um caso isolado?

Não. Outros parentes sofreram situações semelhantes. Alguns já foram até mortos. A criminalização das lideranças Pataxó só cresce. Mais de 10 indígenas Pataxó da Terra Indígena Comexatibá já haviam sido presos injustamente, acusados de tentativa de homicídio, associação criminosa, porte ilegal de arma de fogo e corrupção de menores. Sete dos detidos são adolescentes.

Os Inconfidentes – Você se vê vulnerável aqui em sua própria terra?

Cacique Suruí Pataxó – Estou inserido em um programa de direitos humanos. Colocaram câmeras, um refletor, mas fiquei quase um ano sem proteção. Sou prisioneiro em minha própria terra por buscar os direitos dos indígenas, pela demarcação das terras. O meu crime é lutar pelo direito de igualdade e liberdade do meu povo. Digo à para a sociedade baiana e brasileira que eu não sou bandido, eu não sou traficante. Tenho seis filhos e seis netos. Convivo aqui há 44 anos na aldeia mãe.

Os Inconfidentes – você também denunciou o crime organizado. Confere?

Cacique Suruí Pataxó – Já denunciei muito o tráfico entre 2022 e o ano passado, sendo que minha casa foi metralhada. As marcas estão nas paredes até hoje. Fui atacado na estrada e o carro também foi alvejado por pistoleiros mandados por fazendeiros. Espero até hoje que a justiça seja feita.      

Os Inconfidentes – Como o governo federal está vendo sua situação e os conflitos? 

Cacique Suruí Pataxó – No governo Bolsonaro houve um grande retrocesso. Nós, pataxós, resolvemos fazer a autodemarcação. No ano passado, 24 pataxós foram presos e esse ano mais 12. Cinco parentes nossos já foram mortos sem que a Justiça punisse os autores dos crimes.

Os Inconfidentes – Como mudar isso?

Cacique Suruí Pataxó - O governo atual tem que demarcar a terra dos povos indígenas no Brasil para acabar esse problema de lideranças serem mortas, de serem criminalizadas, de mulheres serem mortas, de pessoas más cortarem o pescoço de parente nosso. Há uma verdadeira orquestra para tentar impedir nossa luta. 

Cacique Suruí Pataxó

Em pesquisa de reportagens feitas pelos Inconfidentes sobre o caso do Cacique Suruí Pataxó, foi descoberto que a presença da Força Nacional na região foi solicitada pelo Ministério dos Povos Indígenas em novembro de 2023, para resguardo da integridade física dos povos indígenas diante do acirramento dos conflitos fundiários na região.

O Conselho de Caciques aponta que a prisão de Suruí Pataxó ocorreu sem mandado judicial e foi motivada por perseguição política, com o objetivo de criminalizar uma liderança atuante na defesa dos direitos dos povos indígenas.

“O Cacique Suruí está sendo punido por cumprir seu dever ancestral e constitucional de defender seu povo, seu território e seus direitos. Ele é símbolo de resistência e dignidade, e sua prisão atenta contra todos os povos originários do Brasil”, aponta o documento. 

Além disso, a entidade denuncia abusos cometidos por agentes durante o transporte do cacique e de três adolescentes indígenas, com relatos de tortura física e psicológica.

“Durante o trajeto, os policiais pararam o veículo diversas vezes na estrada, obrigando os detidos a descer, correr e se submeter a insultos e humilhações. O cacique foi chamado de ‘falso cacique’, teve sua identidade questionada e ouviu dos agentes que ‘o cano da arma deles estava quente’”, destaca a nota.

De acordo com o Relatório de Conflitos no Campo 2024 da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o ano passado apresentou o 2º maior número de conflitos da série histórica da CPT, com 2.185 casos registrados. Dos 13 assassinatos, 5 foram contra indígenas, a categoria que mais sofreu com a violência.

O documento também destaca a atuação do “Movimento Invasão Zero“ - grupo ruralista, fundado na Bahia, composto por grandes fazendeiros e proprietários de terras, conhecido por ações violentas contra famílias em situação de acampamento, ocupações e retomada de territórios.

Mãdy Pataxó, Cacique da TI Comexatibá, salienta que, ao invés de investigar e punir os crimes cometidos contra os povos indígenas, os aparatos do Estado avançam na criminalização de suas lideranças.

“Enquanto os pistoleiros, os milicianos, os mandantes dos crimes, os assassinatos do sangue Pataxó derramado no caminho do agronegócio estão soltos, estão aí prendendo e criminalizando nossas lideranças”, denuncia.

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