Maior reservatório em rocha evitou desabastecimento total da Baixada

Maior reservatório em rocha evitou desabastecimento total da Baixada Santista Carlos Ratton

Maior reservatório em rocha evitou desabastecimento total da Baixada

Maior reservatório em rocha evitou desabastecimento total da Baixada Santista

Carlos Ratton

09.01.2026

Fotos: Divulgação Sabesp

A maior reserva de água da América Latina, o Reservatório-Túnel Santa Tereza/Voturuá, implantado em 1981 e que fica nos morros da divisa entre Santos e São Vicente (SP), evitou que a falta de água, entre o final de 2025 e início de 2026, fosse ainda mais prejudicial à Baixada Santista. Conheça detalhes nesta reportagem.

“Há décadas, o Santa Teresa é o pulmão do sistema integrado da Baixada Santista. Esse reservatório atende Santos e São Vicente perfeitamente mas, com o crescimento das cidades, ele precisou ser redimensionado para atende-las em situações como as ocorridas na virada do ano, em que o sistema mostrou-se sobrecarregado para abastecer os municípios vizinhos, o que gerou a falta de pressão em Santos, por exemplo. O redimensionamento foi a solução emergencial para equilibrar o sistema”.

A informação é do assessor de Relações Governamentais da companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), João Paulo Tavares Papa, que recebeu Os Inconfidentes na última quinta-feira (8), logo após uma reunião com os parlamentares da União dos Vereadores da Baixada Santista (Uvebs), na sede da empresa, na Avenida São Francisco, no Centro de Santos.     

Segundo informou aos vereadores e à Reportagem, o litoral depende do fortalecimento do sistema integrado e a solução para a Baixada acabar com o desabastecimento é ampliá-lo. O sistema abrange oito municípios de Guarujá a Peruíbe. Bertioga, segundo Papa, ainda permanece isolada do sistema. “Por isso estamos estudando a criação de mais uma fonte de captação de água na Usina Hidroelétrica do Itatinga”, completou, revelando que o sistema normalizou por completo praticamente no dia sete.         

O ex-prefeito de Santos, hoje assessor da Sabesp (foto), lembra que o sistema de abastecimento da Baixada Santista é complexo e preparado para dar conta das variações violentas de consumo, como no período da temporada. Mas, na virada recente, ocorreu um recorde de fluxo. Quase um milhão de veículos vieram para a Baixada Santista e muitos condomínios não estavam acostumados e nem preparados para essa demanda.

João Paulo Tavares Papa

Enxurrada

Além do grande número de veranistas e turistas que desceram a serra, Papa ratificou que o Rio Jurubatuba - uma das principais fontes de água para o abastecimento do Guarujá, junto com o Jurubatuba-Mirim, através da ETA Jurubatuba – praticamente secou.

Disse ainda que uma enxurrada atingiu os rios Manbú e Rio Branco, no Litoral Sul da Baixada, levando sedimentos a ambos e deixando a água por um período sem poder receber tratamento.

A ETA Mambú-Branco foi duplicada há dois anos. Ela tinha uma produção de 1,6 mil litros por segundo e passou a ter 3,2 mil litros por segundo. Ele abastece Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e Área Continental de São Vicente.

“Tivemos que paralisar a produção por várias noites a partir do dia 1º de janeiro”. Assim que a água melhorou e os acessos à ETA foram sendo retomados, as operações voltaram gradualmente. Como ocorreu com os demais níveis dos reservatórios. Saneamento precisa ser tratado com visão técnica e não política”, disse Papa.  

João Paulo Papa lembra que o Mundo está vivendo mudanças climáticas e o saneamento é o segmento mais afetado por elas, aumentando os desafios.

“O sistema operacional da Baixada Santista não conta com reservatórios, represas. E não os temos por questões geográficas. Temos um conjunto de mananciais de serra, que é afetado pela questão climática. Trabalhamos com um sistema integrado. Quando ponto tem problema, a redistribuição é realizada para suprir a demanda do ponto que está momentaneamente crítico”, explica.

Obras

Aos Inconfidentes, João Paulo Papa lembrou três obras regionais que já estão em andamento para melhorar o sistema. O da Adutora Santos–Guarujá, obra estratégica que amplia a integração entre os sistemas, aumenta a flexibilidade operacional e reforça a segurança hídrica da região, com um investimento de R$ 134,7 milhões para a travessia subaquática.

O projeto consiste na instalação de uma tubulação sob o canal do Porto de Santos para transportar até o Guarujá parte da água que é produzida na Estação de Tratamento de Água (ETA) Cubatão. A obra beneficiará mais de 450 mil pessoas e tem o objetivo de garantir a segurança hídrica na região e deve ser concluída deste ano.

A travessia terá 5,56 km de extensão, sendo 700 metros de travessia subaquática, ou seja, sob o canal do Porto. A capacidade de abastecimento será de 500 litros a mais de água por segundo para a cidade – volume que enche uma piscina olímpica em apenas uma hora.

Outro é a implantação de nova reservação de água potável do Sistema Mambú Branco, com capacidade total de 40 milhões de litros, projetado para mitigar os impactos na produção de água durante eventos de chuvas intensas, garantindo maior estabilidade ao abastecimento.

E por último a implantação da nova Estação de Tratamento de Água (ETA) Melvi, com capacidade de 1.270 litros por segundo, que ampliará de forma estrutural a produção de água tratada para a Baixada Santista.

Ao final, o assessor da Sabesp reforçou que a região vai receber R$ 7,5 bilhões em investimentos nos próximos três anos para resolver desafios estruturais no abastecimento de água.

O valor é quase três vezes o total de recursos investidos na região de 2017 a 2024 (R$ 400 milhões/ano), antes da desestatização realizada em 2024 pelo Governo de São Paulo.

De acordo com diagnóstico realizado pela Sabesp durante a transição de contrato, a região tem limitações acumuladas ao longo de muitos anos, que demandam plano robusto de investimentos voltado ao fortalecimento da segurança hídrica e à ampliação estrutural da oferta de água. O Governo de São Paulo fiscaliza os trabalhos por meio da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).

Cadu

Junto com Papa, o presidente da Uvebs, vereador Carlos Eduardo Barbosa, o Cadu (Praia Grande – SP) disse que não ficou totalmente satisfeito com as explicações porque tem noção da importância da água para a população.

“Mas o que ocorreu recentemente foi atípico mesmo. Porém, o povo não espera. Vereador está na ponta e é cobrado. Papa atendeu a gente e mostrou que a Sabesp vai investir. Isso nos deixou um pouco mais tranquilos. A empresa vai passar de R$ 500 mil a 2 bilhões por ano praticamente em investimentos”, disse à Reportagem.

Cadu (foto-acima) revelou na frente de Papa que a água ainda não voltou às torneiras. “A explicação é legal, mas a água não veio para todo mundo. No entanto, em boa parte o abastecimento foi restabelecido. É bom lembrar que a falta de água vem ocorrendo em todo lugar e não é somente na Baixada. A questão é climática e isso nos deixa também bastante preocupados”, finalizou Cadu.

Reservatório   

O acesso ao Reservatório-Túnel Santa Tereza/Voturuá é feito pela avenida Anita Costa, junto ao Parque Estadual Voturuá. A reserva hídrica tem mais de um km de extensão dividida em duas câmaras, cada uma com 13 metros de altura e 15 metros de largura.

A capacidade de armazenamento é de 110 milhões de litros de água, o equivalente a 44 piscinas olímpicas cheias até a borda e um terço do total estocado e disponível na região. O reservatório é dividido em duas câmaras, a do morro do Voturuá, com 50 metros, e a do Morro Santa Tereza, com 250 metros.

O equipamento é operado diretamente do Centro de Controle da Sabesp, localizado na Avenida São Francisco, em Santos. A água estocada já é tratada e é transferida diretamente para duas tubulações que distribuem o líquido.

Projetada em 1970, a ‘caixa d’água’ gigante é considerada uma das obras mais ousadas feitas pela Sabesp. O reservatório foi inaugurado em 16 de novembro de 1981. O reservatório abastece as cidades de Santos, São Vicente, bem como Guarujá e Praia Grande.

Em época de lavagem e inspeções é permitido visitas para conhecer o local. O roteiro monitorado tem duração de 40 minutos, em um trecho de 400 metros dentro do morro.

Iniciadas em 1979, as obras de construção do reservatório-túnel consumiram dois anos de trabalhos nas entranhas do maciço rochoso divisor da ilha de São Vicente.

O trabalho era realizado, em boa parte, à base de dinamite, não havendo economia no ataque às rochas graníticas sólidas. Nada menos do que 420 quilos do explosivo foram gastos todos os dias para detonar a montanha que, de tão dura, não precisou ser escorada em praticamente nenhuma etapa. A obra foi concluída em março de 1981.

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