Manifesto contra racismo estrutural dá título a Unidos da Zona Noroeste
Cidinha Santos, Dida Dias e Eugênia Lisboa*

Cidinha Santos, Dida Dias e Eugênia Lisboa*
12.02.2026
Fotos Divulgação
A Passarela Dráuzio da Cruz testemunhou mais do que um desfile de Carnaval no último sábado (7). Com um enredo denso, corajoso e politicamente afiado, a Unidos da Zona Noroeste sagrou-se campeã do Grupo de Acesso de Santos, garantindo sua vaga na elite do samba santista para 2027.
Sob o título impactante “Somos Netos dos Negros que vocês não conseguiram matar”, a agremiação transformou o sambódromo em um território de resistência e denúncia.

O Acerto de Contas com a História
Diferente das narrativas tradicionais que exaltam Santos apenas como a "Cidade Abolicionista", a Unidos da Zona Noroeste, carinhosamente chamada de "Academia", levou para a avenida as contradições dessa fama.
O enredo questionou a "falsa abolição" e expôs como o desenvolvimento urbano da cidade historicamente empurrou a população preta para as margens e para a periferia.
"Queremos dizer que, apesar de todo o projeto de apagamento histórico e físico da população preta, nós estamos aqui", afirmou o presidente da escola, João Marcos.
A primeira porta-bandeira da Escola, Thaís Helena e o mestre-sala Lincoln Reis (ambos começaram ainda crianças), reafirmam a importância da Unidos da Zona Noroeste na comunidade, como espaço de formação e sentimento coletivo de pertencimento, além da importância do enredo, o carnaval pode e deve recontar a nossa história e precisa ser um instrumento de protesto junto com a celebração.
Os casais de porta-bandeiras e mestres-salas mirins serão os futuros primeiros e segundos casais, além do conjunto da bateria ritmo perfeito que tem acolhido jovens – meninos e meninas que se entusiasmam com os instrumentos.

Destaques de uma Passagem Histórica
O desfile foi marcado por momentos de profunda carga emocional e simbolismo religioso:
O Alujá de Xangô: A bateria Ritmo Perfeito não apenas marcou o tempo do samba, mas invocou a justiça ao executar o toque sagrado de Xangô. O som das baquetas, empunhadas majoritariamente por jovens negros da comunidade, serviu como um manifesto vivo de sobrevivência.
Homenagem às Mães de Maio: Em um dos setores mais emocionantes, a Ala das Baianas conectou o passado escravocrata ao genocídio contemporâneo da juventude negra. O tradicional girar das saias homenageou as Mães de Maio, simbolizando o acolhimento e a transformação do luto em luta por reparação. Foi emocionante ver muitas das mulheres do Movimento Mães de Maio na avenida!
Protagonismo Feminino: A Ala das Mulheres Negras por Reparação reforçou a estética retinta e o orgulho das favelas, posicionando a mulher negra como o verdadeiro motor de transformação social do país. Ia Baixada Santista.
Inspiradas pela Segunda Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver (Brasília, 2025), nós, mulheres negras, reafirmamos nosso protagonismo de ontem e de hoje, na manutenção da ancestralidade, da cultura, da vida.

A Vitória da Identidade Quilombola
A conquista do título do Grupo de Acesso reafirma a força da Zona Noroeste não apenas como um polo cultural, mas como um reduto de consciência política, um verdadeiro quilombo. O refrão que ecoou pela avenida — “Sou neto de reis da coroa saber / A cor-resistência nasci para vencer” — provou ser profético.
Ao equilibrar a técnica impecável de seus quesitos com a densidade de um tema que fere e cura ao mesmo tempo, a Unidos da Zona Noroeste mostrou que o Carnaval é, em sua essência, o quilombo moderno. A escola agora se prepara para levar sua voz e seu "ritmo perfeito" ao Grupo Especial, prometendo manter a chama da resistência acesa no asfalto santista.
A conquista do título do Grupo de Acesso reafirma a força da Zona Noroeste não apenas como um polo cultural, mas como um reduto de consciência política, um verdadeiro quilombo.
*organização da Ala das Mulheres Negras por Reparação

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