Máquina pública santista está sendo usada para reeleição de Paulo Alexandre Barbosa, aponta vereador
Situação já não consegue ser ignorada nem por pessoas que não têm relação direta com o político. Funcionários se mostram constrangidos nas redes

Carlos Ratton
28.09.2026
Fotos: Reprodução/YouTube/Victória Muniz e Gabriel Dias (Câmara de Santos)
“É um nível de intromissão dentro de um órgão executivo absurdo! Todo mundo na Prefeitura está fechado com o PAB (Paulo Alexandre Barbosa). É preciso ter um pouco de vergonha na cara. Isso pode ser legal, mas é absolutamente imoral os tentáculos desse cidadão dentro da Prefeitura. Não é possível que nós não tenhamos algum nível de restrição para isso”.
O discurso em tom de desabafo foi feito na sessão da Câmara de Vereadores de Santos (SP) pelo vereador e médico Marcos Caseiro (PT). Ele disse que já fez denúncia formal ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) de suposto uso da máquina pública pelo ex-prefeito e atual deputado que tenta a reeleição.
A Assessoria de Paulo Alexandre foi contatada, mas até o final deste reportagem não encaminhou a versão do candidato. O espaço permanece aberto à contestação.
Nos bastidores políticos e fora dele, não é novidade que Paulo Alexandre possui centenas de apoiadores e até ex-assessores e ex-secretários ainda trabalhando na Prefeitura de Santos. O deputado, inclusive, é citado na denúncia do também vereador Rui De Rosis Júnior (PL), que também se encontra no MPSP. Confira nessa reportagem. Detalhe: Caseiro é de um partido de esquerda e De Rosis de extrema-direita.
Telefonema
Em sua denúncia na tribuna da Casa, Caseiro dá exemplos dos ‘tentáculos’ de Paulo Alexandre no governo do prefeito Rogério Santos (Republicanos) que, por sinal, foi seu secretário de Governo. “Recebi o telefone de um enfermeiro dizendo que foi convocado para uma reunião que teria que ter pelo menos 90 participantes no Hospital dos Estivadores, às 8 horas de noite. Não é possível que isso seja normal. É um uso de uma maneira absurda da máquina pública”.
Alerta ainda sobre o que está ocorrendo fora da Prefeitura de Santos: “os funcionários das organizações sociais são obrigados a fazer reuniões em um nível quase que intimidatório. É aquela cabine giratória. Vocês estão aí porque, na verdade, tem um contrato. E, para garantir o contrato vocês têm que estar fechados comigo. Isso não pode ser considerado normal. Eu também já consultei o Ministério Público. Estou fazendo algumas denúncias que eu tenho e a gente tem que obviamente tentar fazer alguma coisa para coibir isso. A campanha deveria ser igual para todo mundo. Isonomia. Vamos fazer campanha na rua, mas usar a máquina me parece não ser correto. Espero que a população esteja atenta para isso e dê a resposta no dia das eleições”, finaliza.

Vereador Marcos Caseiro
Pouco antes de elaborar essa reportagem, Os Inconfidentes receberam um relato de uma pessoa que, recentemente, esteve no estacionamento do Teatro Municipal Braz Cubas, onde funciona a Secretaria de Cultura: “exatamente todos os carros de funcionários estacionados tinham o adesivo do PAB no vidro de trás. Parecia um comitê eleitoral dentro de um órgão público. Em outros locais, deve estar ocorrendo o mesmo”, acredita.
Também em recente pronunciamento na Câmara, o vereador Rui De Rosis Júnior foi enfático: “Estamos falando de uma cidade em que o governo acha que tem dono. Faz promoção pessoal do deputado Paulo Alexandre Barbosa. Já mandei para a Imprensa, para o MPSP. Não admito que uma cidade fique de joelhos para uma pessoa”.
Card
Durante a elaboração da reportagem, Os Inconfidentes receberam um card de postagem no Instagram, dando conta que funcionários da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central estariam sendo obrigados a apoiar Paulo Alexandre.
A Gerência da unidade teria dispensado mais cedo os trabalhadores para participar de uma reunião com o candidato. A pessoa que articulou a reunião ficaria no equipamento falando que o candidato teria planos para a UPA e que teria medo da atual terceirizada não renove o contrato.
MP
Na representação em apreciação no Ministério Público (MP) encaminhada por Rui De Rosis Júnior, for apontado que pelo menos, R$ 133 mil em repasse para perfis do Instagram, somente em 2025; entre as aferidas e pagas pela Comunicação Municipal estão publicações que enaltecem o prefeito Rogério Santos (Republicanos) e o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa e atacam parlamentares de oposição
Um contrato de Publicidade de R$ 9,4 milhões da Prefeitura de Santos-SP está no centro de duas representações encaminhadas ao Ministério Público (MP) após a fiscalização de um vereador identificar pagamentos do município a perfis de redes sociais locais que publicam conteúdos favoráveis a aliados do governo e críticas e ataques a adversários.
As denúncias também questionam a contratação de monitoramento digital de vereadores e de redes de oposição e para a produção de “relatórios de inteligência”. Ao fiscalizar a prestação do serviço, o vereador De Rosis encontrou R$ 133 mil em pagamentos a cinco titulares de páginas do Instagram da Baixada Santista - quatro deles de São Vicente-SP. Os perfis ora fazem referências positivas ao governo, ao prefeito de Santos e ao deputado Paulo Alexandre, ora atacam ou depreciam mandatários considerados opositores da gestão.
As publicações foram juntadas a processos administrativos oficias da Prefeitura de Santos como comprovação dos serviços prestados. Segundo a representação em trâmite no MP, os posts foram conferidos, atestados e pagos pela Secretaria Municipal de Comunicação. Contratação desta natureza, via dinheiro público, é expressamente proibida por lei.

Vereador Rui De Rosis Júnior
Pesquisa
Entre os conteúdos que motivaram o ingresso de denúncia na Promotoria paulista estão posts, por exemplo, sobre “a popularidade” de Rogério Santos, que está no segundo mandato de prefeito, e uma intitulada “pesquisa de intenção de voto”, que traz Paulo Alexandre liderando a preferência dos eleitores da Baixada Santista no pleito de 2026.
Outro material que teria sido pago pela Prefeitura de Santos trata sobre a PEC da Blindagem. No post, Rosana Valle (PL-SP), deputada federal com base eleitoral em Santos e com quem disputou o Poder Executivo contra o atual prefeito, em 2024, aparece como “favorável à proposta”, enquanto Paulo Alexandre é destacado por ter votado contra. O card registrou 88 mil visualizações e mais de 3,2 mil interações, até o momento.
Segundo o advogado Arthur Rollo, doutor e mestre em Direito, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, e especialista em Direito Público e em Direito Eleitoral, o Direito Administrativo proíbe a contratação via poder público de espaço em veículos de Comunicação para a publicação de conteúdos que não sejam estritamente institucionais e que não firam a impessoalidade:
“O que significa dizer que não cabe à Prefeitura de Santos pagar perfis nem para enaltecer, nem para criticar agentes públicos ou a esfera privada. As denúncias (do vereador Rosis Júnior), se comprovadas, são gravíssimas, porque indicam uso de dinheiro público para benefício próprio e para prejudicar adversários. Todas as páginas e políticos beneficiados podem ter de devolver o dinheiro público, serem proibidos de contratar com o poder público e perderem os direitos políticos”, adianta o jurista.
Processos Administrativos
Segundo a assessoria do vereador, a denúncia de Rui DE Rosis aponta vários processos administrativos feitos na Prefeitura que envolvem Paulo Alexandre. O PA 052755/2025-85 traz publicação do prefeito e do deputado, além de conteúdos de outras áreas da administração local que não guardam relação com o objeto do contrato de Turismo, Economia Criativa e Empreendedorismo.
Já o PA 059213/2025-61 traz publicação intitulada "ELEIÇÕES 2026", divulgando o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSD-SP) na liderança de pesquisa para o pleito de outubro, além de sequência sobre a PEC da Blindagem - posts que valorizam Paulo Alexandre e expõe negativamente a deputada federal Rosana Valle (PL-SP).
O PA 062529/2025-11 aponta pesquisa eleitoral favorável ao deputado federal Paulo Alexandre Barbosa e publicação sobre a PEC da Blindagem, o contrapondo à deputada federal Rosana Valle (PL-SP) - com tratamento favorável a ele e negativo a ela.
O PA 065048/2025-31 aponta o túnel Santos-Guarujá com fotografia do prefeito Rogério Santos e destaque nominal para o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa. Por fim, o PA 005662/2026-51, com relatório de serviço prestado por página, com conteúdos e métricas apresentados como “comprovação de execução”. Entre as publicações está o reel contra o vereador Alisson Sales (PL) - “o vereador que virou especialista em falar mal da própria cidade" - além de conteúdo sobre o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa. Barbosa
Secretária convocada
Conforme já publicado pelos Inconfidentes, a secretária de Comunicação e Economia Criativa de Santos, Selley Storino, terá de comparecer à Câmara para prestar esclarecimentos sobre a gestão dos contratos de publicidade da Prefeitura, especialmente em relação aos recursos destinados a páginas e perfis nas redes sociais. Ela terá 15 dias úteis para comparecer ao Legislativo, após ser notificada.

Selley Storino
A aprovação do convite ocorre três semanas depois de De Rosis apresentar os primeiros questionamentos sobre o assunto. Em reportagem publicada em 11 de setembro, Os Inconfidentes mostraram que o parlamentar havia analisado 19 processos administrativos referentes a pagamentos de publicidade realizados entre dezembro de 2024 e outubro de 2025.
Os documentos reuniam 32 notas fiscais, que totalizavam R$ 133 mil. Desse montante, R$ 106,4 mil foram destinados a cinco microempreendedores individuais (MEIs) responsáveis por perfis nas redes sociais. Quatro deles, ainda de acordo com a análise apresentada pelo vereador, tinham sede em São Vicente e mantinham páginas voltadas ao público daquele município.
Durante a discussão sobre o convite para Selley, o vereador Alliso Salles (PL) cobrou providências do prefeito Rogério Santos e pediu a exoneração da secretária por entender que o Legislativo foi desrespeitado como um todo.

Vereador Allison Sales
Prefeitura nega irregularidades
A Secretaria de Comunicação e Economia Criativa negou que tenha ocorrido desvio de finalidade nos contratos de publicidade.
Em resposta aos questionamentos apresentados anteriormente, a pasta informou que todas as publicações patrocinadas possuem caráter estritamente institucional e têm como objetivo ampliar a divulgação de serviços, obras e outras informações de interesse público para os moradores da Cidade.
A secretaria também explicou que os pagamentos dependem da prestação de contas dos veículos contratados, mediante a apresentação de relatórios detalhados das publicações realizadas.

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