Médicos de gerações diferentes mostram em livros suas experiências na medicina humanizada
Fábio Mesquita e Walter Titz são referências na Baixada Santista. Ambos com experiências distintas, relatam em suas obras as formas de exercer a profissão que abraçaram dentro e fora do País.

Carlos Ratton
23.05.2025
Fotos: Tony Valentte e Divulgação
Eles são de gerações diferentes. O primeiro, Fábio Mesquita, contribuiu de forma significativa à medicina brasileira desde o período da ditadura militar e da reorganização dos movimentos estudantis no Brasil até experiências internacionais em saúde pública e resposta à epidemias.
O segundo, sentia uma paixão muito grande pelo Jornalismo, mas largou a faculdade no penúltimo ano para abraçar a medicina em Cuba, onde aprendeu que, como ele mesmo diz, “90% do diagnóstico está na interação com o paciente, na conversa com sua vida pregressa”.
Esse último, jovem médico escritor Walter Titz Leite Neto, que lançou sua mais recente obra poética Brechianas Caiçaras ou o traço falciforme”, pela Editora Libertinagem, é da opinião que “Cuba tem um olhar para a medicina de família e comunidade, um olhar para o território, o que na formação do médico é muito importante”, afirma.
Diário de Bordo
Fábio Mesquita, com seu “Diário de Bordo - A Jornada de um Médico pelo Mundo”, pela Amare Editora, percorre a história da saúde pública brasileira por meio de sua trajetória, que ganhou o Mundo. Mesquita, uma referência em políticas públicas, epidemias e mudanças institucionais, em sua obra, que envolve a também de pessoas que atravessaram diferentes períodos históricos e participaram diretamente da construção dessas transformações, conseguiu reunir memórias pessoais e profissionais que atravessam diferentes contextos históricos.
Por sua vez, o Walter Titz, médico na Unidade de Saúde da Família do Pilões, em Cubatão (SP) e professor universitário, carrega na sua poesia sua experiência na caminhada grande em lugares históricos da periferia da Baixada Santista. “A Baixada é o território de onde escrevo, a partir de onde escrevo e para onde escrevo, trazendo referências de fora dela. Acho que isso que é o modernismo. O livro é internacionalista e regionalista. Trago referências de fora para escrever sobre a população onde eu atuo, onde caminho”, explica.
Sistema Público
O Diário de Bordo de Mesquita, ao longo das páginas, percorre momentos importantes da construção do sistema público de saúde no país. Entre eles está a experiência desenvolvida em Santos (SP) no início dos anos 1990, período em que a cidade enfrentava uma das mais graves crises relacionadas ao HIV/AIDS no Brasil.
Na época, o município ganhou projeção nacional devido aos altos índices da epidemia, tornando-se cenário para estratégias consideradas pioneiras em prevenção, cuidado e políticas de redução de danos.
“Abordo também meu trabalho em diferentes momentos da gestão pública federal, incluindo passagens pelo Ministério da Saúde, entre elas a direção do então Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais entre 2013 e 2016, período marcado pela ampliação de debates sobre prevenção combinada, acesso ao tratamento e respostas às infecções sexualmente transmissíveis”, lembra o médico, agora também escritor.

Fábio Mesquita lançou Diário de Bordo
Cuba
Titz, que possui especialização brasileira pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é médico de família e comunidade, experiência trazida de Cuba, “país que tem um olhar para a medicina de família. Eu me formei em Cuba a partir da atenção primária à saúde, mas voltado para a saúde pública. E devolvo isso através dos olhares dos cubanos, das cubanas, do povo cubano, para o meu território, para a Baixada Santista”, explica.
O jovem médico e professor explica que Brechianas Caiçaras, sua segunda obra - o primeiro livro tem como título “Itapema, Pedra, Povo, Poema” - tem uma referência portuária que traz, no subtítulo, uma referência ao Paulo Leminski.
No primeiro livro, o território mais importante foi o portuário do Itapema. Nesse segundo livro, o território mais importante é o portuário de Cubatão, “porque temos que lembrar que Cubatão é um território portuário também. Então, escrevo como um cidadão insular, um cidadão de ilha, que sou, um guarujáense-santista”, revela com orgulho.
Atuação Internacional
Diário de Bordo de Fábio Mesquita tem um segundo eixo que é a atuação internacional do médico ao longo de aproximadamente 14 anos. A narrativa percorre experiências em diferentes países da Ásia e em organismos internacionais, apresentando situações que extrapolam a rotina técnica da saúde pública e revelam aspectos humanos, culturais e políticos do trabalho em campo. Entre os relatos aparecem episódios vividos em contextos de desastres naturais, crises humanitárias e instabilidades políticas.
Mais do que uma autobiografia, Diário de Bordo aproxima acontecimentos históricos de experiências pessoais e profissionais, deslocando a atenção da figura idealizada do médico para a dimensão humana das escolhas, dos dilemas e das incertezas presentes ao longo de uma carreira construída em diferentes territórios e cenários.
“Ao reunir também memórias que atravessam o movimento estudantil, a construção do Sistema Único de Saúde, a resposta brasileira ao HIV/AIDS e experiências internacionais, acredito que meu livro acaba funcionando ainda como registro de transformações mais amplas da saúde pública nas últimas décadas”, explica Fábio.

Walter Titz escreveu Brechianas Caiçaras
Funk e Brecht
Em sua obra, Walter percorre o ambiente do mangue, o modernismo pós-tropicália, a partir de Torquato Neto, de Ana Cristina César, de Paulo Leminski, “muito atentos ao que está acontecendo na cultura periférica, naquele momento, no underground, que era Tropicália também, mas depois no rap e agora no funk”, explica.
Segundo Walter Titz, o livro reivindica o funk de Santos, da Baixada Santista, por intermédio de letras de MC Duda do Marapé, de MC Felipe Boladão, artistas que foram importantes para a formação estética da cultura da Baixada. “O funk precisa ser cunhado como algo erudito, popular dentro do modernismo e é lógico que há referências a Caetano Veloso, Ana Cristina César e outros”, completa.
O jovem médico-escritor cunhou Brechianas Caiçaras também após um estudo sobre Bertolt Brecht - o dramaturgo mais interpretado no Mundo depois de Willian Shakespeare. “O meu vínculo com o Brecht é muito importante. Tornou-se minha principal referência. Em todas as capitais de estados cubanos há um café com o nome dele. Comecei uma imersão muito forte na literatura brechtiana, tanto no teatro quanto na poesia, que foi a construção estética do livro”, finaliza.
Quem foi ao lançamento do livro Diário de Bordo, na Casa das Culturas, em Santos, confirmou a capacidade de Fábio Mesquita de construir pontes entre mundos distintos. Em tom bem-humorado, muitos resumiram a cena como mais uma prova do “ecumenismo” de Fábio, alguém que, entre a saúde, a política, a cultura e os afetos, foi reunindo pessoas que talvez dificilmente estivessem na mesma sala em outras circunstâncias.

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