Menos analfabetos, mais perguntas: o Brasil que começa a ler e o sistema que não quer que ele entenda

Por CristianoTorres1977
22.06.2026
Foto: Agência Brasil EBC
O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de analfabetismo de toda a sua série histórica, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Educação (PNAD Contínua Educação), divulgada pelo IBGE em 19 de junho de 2026. Pela primeira vez, o índice ficou abaixo de 5%, chegando a 4,9% entre pessoas com 15 anos ou mais — o menor valor desde o início da série, em 2016. São 8,4 milhões de brasileiros que ainda não sabem ler nem escrever.
Em 2024, a taxa era de 5,3%, o que significa uma redução de cerca de 592 mil pessoas analfabetas em apenas um ano. Desde 2016, quando a taxa era de 6,7%, a queda foi de 1,8 pontos percentuais. Mas esses números gerais escondem abismos que não são acidentais.
A Região Nordeste concentra 57,4% do total com 4,8 milhões de pessoas. O analfabetismo atinge principalmente os mais velhos: são 4,8 milhões de analfabetos com 60 anos ou mais correspondendo a 14,9% desse grupo etário e a 58% de todos os analfabetos do país.
A cor da pele continua definindo o destino: entre os idosos a taxa de analfabetismo de pretos ou pardos chega a 20,6% quase três vezes superior à de brancos que é de 7,3%. Quando olhamos para as gerações mais novas a taxa cai para 2,6% entre pessoas de 15 a 59 anos mostrando que o acesso à escola melhorou, mas não resolveu a dívida histórica.
Também há diferenças por sexo: a taxa é de 4,6% para mulheres e 5,2% para homens na população geral e entre os idosos pela primeira vez as mulheres apresentam taxa menor com 13,7% contra 14,1% dos homens.
A conclusão do IBGE é clara, mas insuficiente: é preciso manter crianças e jovens na escola e investir na alfabetização de adultos e idosos, mas o que os números revelam de verdade é que o analfabetismo não é apenas falta de letras é o rastro cruel de uma exclusão que escolhe quem pode aprender e quem deve permanecer na sombra.
Esse número que à primeira vista parece apenas estatístico e técnico revela na prática uma das transformações mais profundas e incômodas para uma sociedade historicamente construída sobre a desigualdade: cada vez menos pessoas podem ser facilmente mantidas fora do acesso à leitura à escrita e sobretudo à interpretação crítica da realidade social. Durante séculos a ignorância não foi um acidente, mas uma escolha funcional.
Um país que nasceu sob mais de trezentos anos de escravidão só poderia se estruturar pela manutenção de hierarquias rígidas entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem entre aqueles que pensam e aqueles que executam entre aqueles que escrevem a história e aqueles que apenas sobrevivem dentro dela.
Quando a educação começa a romper essa lógica mesmo que lentamente o desconforto se manifesta não apenas nos números, mas nas relações sociais econômicas e simbólicas que sustentam o cotidiano.
O problema nunca se resumiu a ensinar apenas a ler palavras; o objetivo real sempre foi impedir que a leitura da palavra levasse à leitura do mundo. Isso significa que um trabalhador alfabetizado não é apenas alguém que reconhece letras, mas sim quem começa a perceber padrões contradições e relações de poder e exploração.
É exatamente aí que surge a tensão central desse processo histórico: enquanto parte da sociedade celebra a queda do analfabetismo outra parcela sente o impacto direto dessa mudança na disponibilidade de mão de obra barata e na aceitação de condições de trabalho que antes eram naturalizadas como as únicas possíveis.
Daí vem a ironia estrutural de um país onde se reclama constantemente da falta de trabalhadores dispostos a aceitar salários baixos e jornadas exaustivas como se isso fosse uma falha moral dos indivíduos e não uma consequência direta de um modelo econômico que sempre se beneficiou da precarização.
Nesse ponto entra o que defino de forma crítica e simbólica como regime (6x1²). Ele não representa apenas uma escala de trabalho, mas funciona como metáfora da intensificação da exploração contemporânea na qual o trabalhador entrega não só seis dias de trabalho por um de descanso, mas também sua saúde física e mental sua convivência familiar seu tempo de formação sua possibilidade de descanso real e sua própria capacidade de imaginar uma vida diferente.
É muito comum ouvir que falta mão de obra que o trabalhador não quer mais trabalhar ou que existe uma crise de disciplina social. Na verdade o que se observa é uma recusa progressiva ainda que desigual e contraditória de aceitar condições que se aproximam de uma forma moderna de exploração contínua. A ironia histórica se torna ainda mais profunda quando se reflete: se a dificuldade é realmente encontrar quem tolere essas condições a solução mais coerente com a lógica usada em outros momentos da história seria repetir os mesmos mecanismos.
Isso significa trazer trabalhadores pobres da Europa dos Estados Unidos ou do Japão financiar suas passagens oferecer moradia terra educação saúde ferramentas de trabalho e integração econômica exatamente como foi feito com certos grupos de imigrantes.
Ao mesmo tempo a população negra recém-liberta da escravidão foi abandonada à própria sorte sem acesso à terra crédito educação ou políticas reais de inclusão. Esse contraste revela não apenas uma desigualdade histórica, mas uma verdadeira engenharia social de privilégios seletivos que moldou o desenvolvimento econômico nacional.
E aqui cabe uma pergunta que não quer calar: por que nunca tivemos reforma agrária no Brasil e por que ela continua não acontecendo até hoje? A resposta está na mesma intenção cruel que levou Rui Barbosa a queimar propositalmente todos os documentos sobre os escravizados que chegaram ao país num gesto calculado para apagar a história a identidade e os direitos de quem construiu essa nação com sangue e suor.
A reforma agrária nunca foi feita e não é feita justamente para não dar espaço nem terra nem oportunidade real à população negra ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos onde mesmo com um racismo extremo e violento houve uma reorganização fundiária que possibilitou a formação de uma classe média e até de pessoas negras ricas algo que aqui foi sistematicamente negado.
No Brasil o racismo se esconde na hipocrisia de quem se diz sem cor e não se considera racista, mas age para empurrar negros para a marginalidade para a invisibilidade tratando-os como se fossem animais sem alma seres selvagens ignorantes que só servem para o trabalho forçado ou para a sobrevivência miserável.
Essa é a razão verdadeira pela qual a terra e a renda nunca são distribuídas com justiça: manter a população negra vulnerável é a forma mais eficaz de garantir mão de obra barata de continuar escravizando de forma velada e de preservar os privilégios de quem sempre mandou sem nunca precisar dar satisfação nem reconhecer o crime histórico que se repete até hoje.
A pergunta que essa ironia levanta não é apenas econômica, mas profundamente política e histórica: quantos desses trabalhadores estrangeiros se submetidos às mesmas condições oferecidas hoje a milhões de brasileiros aceitariam permanecer nelas sem questionar sem se organizar sem resistir e sem exigir direitos?
Se provavelmente não aceitariam o que isso diz sobre a forma como a exploração é naturalizada quando recai sobre determinados corpos classes e histórias sociais?
O problema central não é a falta de trabalhadores, mas sim a maneira como o trabalho foi historicamente organizado para depender da vulnerabilidade social de parte da população. Essa vulnerabilidade não é casual; ela é produzida reproduzida e mantida por estruturas que vão muito além da economia alcançando a educação a cultura a religião a mídia e todas as formas de produção de sentido social.
Outro ponto decisivo é que a redução do analfabetismo não significa automaticamente o fim da alienação. Saber ler não garante por si só a capacidade de interpretar criticamente o que se lê. É nesse espaço entre a alfabetização técnica e a consciência crítica que atuam diversas formas de mediação ideológica.
Discursos religiosos políticos e midiáticos frequentemente simplificam a complexidade social em frases de efeito explicações rasas e narrativas morais que deslocam o foco das estruturas de poder para o comportamento individual.
Com isso problemas estruturais são apresentados como falhas pessoais como falta de esforço de fé de mérito ou de disciplina quando na verdade são resultados de processos históricos profundamente enraizados.
O avanço da alfabetização no Brasil não elimina essa contradição; apenas a desloca. Agora o país não se define apenas por milhões de analfabetos, mas por milhões de pessoas capazes de ler, mas ainda expostas a múltiplos mecanismos de manipulação simbólica que disputam diariamente a interpretação da realidade.
Nesse cenário a luta não se restringe mais ao acesso à escola, mas se estende ao sentido de estar no mundo de trabalhar de sobreviver e de compreender o próprio lugar dentro da estrutura social.
Os dados mostram também que a conclusão da educação básica segue marcada pela cor: em 2025 64,9% dos brancos com 25 anos ou mais concluíram pelo menos o ciclo básico enquanto entre pretos e pardos esse número cai para 51,3% uma diferença de 13,6 pontos percentuais que praticamente não se alterou em relação a 2024 e só diminuiu pouco desde 2016 quando era de 16,4 pontos. Essa diferença não é falta de vontade é falta de estrutura é falta de oportunidade é a mesma lógica que mantém terras concentradas e negros fora da reforma agrária.
Por isso toda vez que a educação avança mesmo que de forma limitada ela provoca um efeito ambíguo. Ao mesmo tempo em que amplia possibilidades de inserção social expõe contradições históricas que antes podiam ser facilmente escondidas.
Isso gera desconforto resistência e em alguns casos hostilidade. Um povo que começa a compreender minimamente sua história sua posição e suas condições de vida deixa de ser apenas força de trabalho para se tornar também força de questionamento.
E nenhuma estrutura construída sobre a desigualdade aceita ser questionada tranquilamente por aqueles que garantem seu funcionamento diário. Os números do abandono escolar confirmam isso com brutalidade: em 2025 7,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos não haviam concluído o ensino médio sendo 59,8% homens e 40,2% mulheres e 72,8% pretos ou pardos contra apenas 26,4% brancos.
E por que saem da escola? O principal motivo apontado por 43% é a necessidade de trabalhar para sobreviver. O segundo é a falta de interesse citada por 25,6% o que pode ser um recado claro de que o modelo escolar não responde à realidade nem às dores desses jovens.
Outros motivos são gravidez mencionada por 9,9% problemas de saúde por 4,4% afazeres domésticos por 3,9% e falta de escola ou vaga por apenas 2,8%. Tudo isso revela que a escola não é só um espaço de aprendizado é um campo de batalha onde a pobreza vende mais vezes do que deveria.
Ao analisar a formação do imaginário brasileiro não se pode ignorar que parte da produção intelectual e literária do país também reproduziu em diferentes níveis ideias profundamente racistas e eugenistas.
E o nome central dessa trajetória é Monteiro Lobato que não se limitou a escrever ficção, mas se tornou um dos maiores defensores da eugenia no Brasil ao lado de Renato Kehl principal referência do movimento eugenista nacional.
Lobato era um racista declarado que defendia abertamente a ideia de branqueamento da população brasileira como caminho para o progresso considerando pessoas negras indígenas e mestiças como inferiores e obstáculos ao desenvolvimento. Essa visão não ficou restrita a textos de teoria ou manifestos; ela permeou toda a sua obra inclusive a literatura infantil que marcou gerações.
Em O Presidente Negro sua ficção mais explicitamente ligada a essas ideias ele constrói um cenário onde a ameaça negra ao poder branco é tratada como um problema a ser resolvido por meio de seleção e controle populacional numa clara defesa de princípios eugenistas que já haviam inspirado políticas de exclusão e até de extermínio em outros países.
Mas o racismo não aparece só nos livros considerados para adultos; ele está presente de forma disseminada e naturalizada em toda a série do Sítio do Picapau Amarelo. Lá personagens como Dona Benta ocupam o lugar da sabedoria da ordem e da superioridade enquanto personagens negras como Tia Anastácia são retratadas em posições de submissão servilismo e com traços que reforçam estereótipos pejorativos sempre em desvantagem levando a pior em qualquer situação de convívio como se essa hierarquia fosse algo natural e imutável.
Também não é possível ignorar a construção de personagens como Saci-Pererê que é apresentado com características que reforçam visões redutoras e discriminatórias associando o elemento cultural popular a traços de malandragem ou menor importância sem reconhecer sua riqueza simbólica e ancestral.
Tudo isso compõe uma engrenagem que naturalizou a ideia de que certos corpos são mais aptos ao trabalho intelectual enquanto outros estariam destinados ao trabalho braçal. Essa lógica atravessa séculos da história social brasileira e ainda se reflete na forma como o trabalho é distribuído valorizado e remunerado no país.
No Brasil contemporâneo essa lógica não desapareceu apenas se transformou. Enquanto se comemora a redução do analfabetismo como um dado positivo permanece intacta a realidade de milhares de crianças submetidas ao trabalho infantil em semáforos ruas feiras lixões e periferias.
São crianças que deveriam estar na escola, mas que são expostas diariamente à exploração econômica direta ou indireta. Muitas vezes elas vivem em contextos familiares marcados pela falta de renda pela precarização do trabalho dos adultos e pela insuficiência de políticas públicas de proteção social. Dessa forma a infância é capturada precocemente pela lógica da sobrevivência: o tempo de brincar se transforma em tempo de trabalho e o tempo de aprender se torna tempo de vender pequenas mercadorias ou pedir ajuda em cruzamentos. Essa realidade não pode ser tratada como exceção ou erro individual.
Ela está ligada ao mesmo processo histórico que criou o analfabetismo como fenômeno estrutural: a concentração de riqueza a desigualdade territorial o abandono de regiões periféricas a falta de acesso a serviços públicos e a manutenção de um modelo econômico que considera normal a existência de populações inteiras vivendo em situação de vulnerabilidade extrema muitas vezes em moradias precárias ocupações ou locais sem infraestrutura básica onde acesso à educação saúde e saneamento não é um direito garantido mas uma luta diária para sobreviver.
E quando olhamos para a educação infantil vemos que também ali a escolha e a falta de estrutura definem quem fica para trás: em 2025 64,1% das crianças de 0 a 1 ano e 57,1% das de 2 a 3 anos não frequentavam creche por opção dos pais, mas o segundo motivo é cruelmente objetivo: não havia escola ou vaga na localidade situação que atinge 28,1% das crianças menores de um ano e 33,4% na faixa seguinte. Ou seja, desde o início da vida o sistema já separa quem tem acesso e quem fica de fora.
E se tudo isso não bastasse, se o analfabetismo que afasta do mundo, o trabalho infantil que rouba a infância, a uberização e a terceirização que escravizam sem garantias, a renda minguada que não dá para comer direito, a palafita que serve de casa e a favela esquecida que não tem estrutura já não fossem punição suficiente para quem nasce sem privilégios, a cidade de Santos e toda a Baixada Santista ainda recebem a resposta final do Estado: a bala, a morte e o silenciamento definitivo.
Em 2006, logo depois que Geraldo Alckmin saiu do governo de São Paulo para tentar a Presidência da República, deixando o cargo nas mãos do seu vice-governador Cláudio Lembo, a região foi palco do que ficou marcado na história como o Crime de Maio.
O que começou como rebeliões organizadas por facções foi transformado pela polícia, especialmente pela ROTA, numa verdadeira carnificina que matou mais de quinhentas pessoas em todo o estado, com centenas dessas mortes acontecendo aqui na Baixada Santista.
Quase todas as vítimas eram jovens, negros, pobres, moradores das mesmas favelas e palafitas que o poder público abandona ano após ano, exatamente aqueles que já haviam sido privados de escola de qualidade, de emprego digno e de condições mínimas de vida. Foi diante dessa tragédia que surgiu o movimento Mães de Maio, formado por mães e familiares que não aceitaram a versão oficial de que todos os mortos eram criminosos.
Elas foram às ruas, buscaram provas e denunciaram execuções sumárias, desaparecimentos forçados e violência indiscriminada contra pessoas que nada tinham a ver com confrontos, apenas estavam no lugar errado, com a cor errada e a conta bancária errada.
Chamaram essa operação de segurança pública, mas o nome que ficou gravado na memória e nos relatórios de direitos humanos foi genocídio. Geraldo Alckmin pode ter saído da cadeira de governador um mês antes, mas a política de segurança que armou essa máquina de matar foi toda desenhada e implementada durante o seu mandato.
E como a história brasileira gosta de repetir as mesmas crueldades sem aprender nada, em 2025, sob o governo de Tarcísio de Freitas, a receita se repetiu com poucas mudanças de nome e nenhuma mudança de alvo.
Mais de cinquenta e sete jovens foram mortos em operações policiais na Baixada Santista, com o mesmo perfil doloroso: maioria negra, pobre, morador de áreas vulneráveis, muitos fora da escola ou em trabalhos precários que não dão futuro.
A lógica continua exatamente a mesma: se o Estado não consegue ou não quer incluir, educar, dar emprego e moradia, então ele escolhe eliminar aqueles que considera um problema ou um estorvo para a ordem dos que mandam.
A ironia aqui é tão cruel que chega a doer. O mesmo Estado que diz não ter dinheiro para manter a criança na escola, que diz não ter verba para acabar com o trabalho infantil, que diz não ter recursos para tirar famílias das palafitas e dar moradia digna, esse mesmo Estado encontra milhões sem dificuldade para comprar armas, equipar a polícia e enviar tropas para invadir as comunidades e matar.
Para limpar a cidade de pessoas pobres, a ação é rápida, eficiente, abundante e sem desculpas. Para limpar a lama das enchentes, para colocar um professor em cada sala, para criar empregos justos, a desculpa é sempre a mesma: falta orçamento, falta estrutura, falta vontade.
Fica então a pergunta que não quer calar, que fica pairando sobre cada rua de Santos e cada família que perdeu alguém. Será que é apenas coincidência que os mesmos jovens que são empurrados para o analfabetismo, para o trabalho infantil, para a uberização sem direitos e para a marginalidade sejam justamente os mesmos que aparecem como números frios nas estatísticas de morte policial? Será que o sistema não prefere mesmo ver esses corpos enterrados do que vê-los crescendo, aprendendo, pensando, questionando e cobrando o que é seu por direito? Por que para apagar vidas a solução é imediata, mas para construir vidas dignas a resposta é sempre adiada para nunca?
A ideia de que basta diminuir o analfabetismo para resolver os problemas educacionais do país é profundamente insuficiente. A alfabetização formal não rompe automaticamente com as condições materiais que geram o trabalho infantil a exploração precoce e a transmissão intergeracional da pobreza.
Uma criança pode até aprender a ler, mas se continua inserida em um ambiente onde a necessidade de trabalhar para complementar a renda da família é uma regra não escrita a educação por si só não basta. Isso revela que a educação não pode ser analisada de forma isolada, mas sempre em relação às condições concretas de vida da população.
É nesse ponto que a crítica ao regime (6x1²) ganha ainda mais força. Ele não se restringe ao trabalhador adulto do mercado formal, mas se espalha por toda uma estrutura social que organiza o tempo da vida em função da sobrevivência econômica. Isso retira não apenas o direito ao descanso, mas também a possibilidade de uma formação completa de participação política e de construção de uma consciência crítica mais profunda. O problema, portanto, não é apenas o excesso de trabalho, mas a forma como esse excesso se torna naturalizado a ponto de ser visto como a única realidade possível.
Quando se observa a relação entre analfabetismo trabalho infantil precarização do trabalho adulto e desigualdade histórica percebe-se que não são questões separadas. Elas formam uma única estrutura articulada de produção de desigualdade que se sustenta tanto na dimensão econômica quanto na simbólica cultural e educacional.
Ela se reproduz ao longo do tempo por meio de mecanismos de legitimação social como discursos meritocráticos narrativas religiosas que afastam a política e interpretações simplificadas da realidade que transferem a responsabilidade do sistema para o indivíduo como se a pobreza fosse escolha e não resultado de um processo histórico de exclusão.
Nesse cenário a alfabetização deixa de ser apenas um indicador técnico para se tornar um campo de disputa política. Ensinar a ler escrever e interpretar significa também disputar o sentido do mundo. Por isso sociedades profundamente desiguais sempre enfrentam tensões quando o acesso à educação se amplia: isso altera a distribuição do conhecimento e consequentemente a capacidade de questionar as estruturas existentes.
Quanto mais a população aprende a ler mais pode compreender que sua condição não é natural que sua posição social não depende apenas de esforço individual e que as estruturas que organizam o trabalho a renda e a vida diária são construções históricas e, portanto, podem ser transformadas.
Essa lógica não é exclusiva do Brasil; ela tem raízes profundas na história ocidental. Na Grécia Antiga a escravidão funcionava como base econômica e social. O trabalho compulsório era naturalizado e garantia tanto a produção material quanto o tempo livre das elites políticas e filosóficas fazendo com que a cidadania fosse desde sua origem um privilégio mantido pela exploração de outros corpos.
Em Roma essa lógica se aprofundou ainda mais. A escravidão deixou de ser apenas uma consequência da guerra para se tornar um sistema econômico central onde a acumulação de riqueza dependia diretamente da desumanização de grande parte da população.
Na transição para a Idade Média a Igreja Católica não rompeu radicalmente com essa estrutura, mas a reorganizou de forma simbólica. A hierarquia entre senhores e servos passou a ser explicada como parte de uma ordem divina justificando teologicamente as desigualdades materiais por meio de uma leitura espiritual da obediência e do trabalho. Nesse contexto o trabalho ainda não tinha a carga moral que assumiria depois, mas já servia como instrumento de disciplina social e controle da vida cotidiana.
A mudança decisiva veio com a Reforma Protestante especialmente com Martinho Lutero e de forma mais sistemática com João Calvino. O trabalho passou a ocupar um lugar central na vida moral sendo associado progressivamente à ideia de vocação disciplina e sinal de eleição espiritual. Isso transformou a atividade econômica em um indicador de virtude individual.
Essa alteração é fundamental porque deslocou a explicação da pobreza e da riqueza do campo estrutural para o campo moral abrindo caminho para interpretações nas quais o sucesso econômico é visto como resultado de mérito pessoal e o fracasso como falha individual ou espiritual. Essa construção ideológica se uniu historicamente ao desenvolvimento do capitalismo e à ascensão daburguesia como classe dominante.
A nova classe precisava de uma justificativa moral para expandir as relações de trabalho assalariado e intensificar a exploração da força de trabalho já não mais baseada apenas na tradição ou na religião institucional, mas também nas ideias de mérito disciplina e produtividade individual. Nesse processo elementos da ética protestante foram incorporados à lógica econômica capitalista ajudando a naturalizar a noção de que o valor de uma pessoa está ligado diretamente ao que ela produz.
O resultado dessa combinação histórica foi a formação de uma sociedade onde a exploração do trabalho deixa de ser vista como imposição estrutural para ser interpretada como escolha individual. A responsabilidade pela desigualdade sai do sistema e recai sobre o próprio sujeito.
É nesse ponto que a meritocracia surge não como um conceito neutro, mas como uma forma de legitimação ideológica das desigualdades ao sugerir que todos partem das mesmas condições quando a realidade histórica mostra exatamente o contrário.
Ao unir essa trajetória histórica com a realidade brasileira atual percebe-se a permanência de uma lógica de exploração do trabalho muito bem enraizada.
Ela se adapta às mudanças econômicas, mas mantém seu núcleo baseado na desigualdade. O trabalhador moderno submetido a jornadas exaustivas salários baixos e alta instabilidade muitas vezes continua sendo avaliado por essa lógica moralizante como se sua situação fosse consequência de escolhas pessoais e não de um sistema que organiza o acesso ao trabalho à educação e à riqueza de forma profundamente desigual.
E os dados sobre os jovens que não estudam nem trabalham confirmam o tamanho do problema: em 2025 eram 46,6 milhões de jovens de 15 a 29 anos e 17,5% deles estavam fora de qualquer atividade uma proporção que embora menor que em 2019 quando era de 22,4% ainda representa milhões de vidas paradas sem perspectiva sem formação e sem chance de romper o ciclo.
A história da alfabetização do trabalho e da desigualdade não pode ser entendida como uma sequência neutra de avanços civilizatórios, mas como um campo permanente de disputa entre forças de dominação e processos de emancipação.
Desde as sociedades antigas baseadas na escravidão passando pela reorganização moral do trabalho na tradição religiosa medieval pela Reforma Protestante e pela consolidação da ética capitalista do mérito construiu-se uma longa trajetória de naturalização da desigualdade onde diferentes sistemas simbólicos foram usados para justificar a exploração material de grande parte da população.
No Brasil essa lógica ganha contornos ainda mais severos por causa da herança direta da escravidão e das formas posteriores de exclusão social que não foram superadas, mas apenas reconfiguradas ao longo do tempo.
A falta histórica de acesso à terra à educação à renda e às condições básicas de cidadania não pode ser vista como um acidente, mas como parte de um processo estrutural que definiu quem teria direito à formação intelectual e quem ficaria restrito ao trabalho manual e precário. Nesse sentido a redução do analfabetismo embora seja um avanço inegável não elimina por si só as estruturas que geram desigualdade exploração e exclusão.
O desafio contemporâneo, portanto, não se resume a alfabetizar no sentido técnico da palavra. É preciso combater também as formas de analfabetismo que permanecem mesmo após a escolarização formal especialmente o analfabetismo político histórico e social que impede grande parte da população de compreender as relações de poder que moldam a sua própria existência.
É nesse ponto que a educação deixa de ser apenas um dado estatístico para se tornar um campo de luta real pois saber ler e escrever não garante por si só a capacidade de entender criticamente o mundo.
Ao observar o trabalho contemporâneo marcado por jornadas exaustivas que o regime (6x1²) representa de forma simbólica fica claro que a exploração não desapareceu. Ela apenas se tornou mais sofisticada reorganizando-se por meio de novas formas de controle sobre o tempo a vida e a subjetividade dos trabalhadores.
O trabalhador entrega não só sua força de trabalho, mas também sua saúde seu tempo livre sua convivência social e sua possibilidade de se formar continuamente. Ao mesmo tempo é constantemente bombardeado por discursos que transformam essa condição em mérito individual e não em resultado de uma estrutura histórica de desigualdade.
Nesse cenário a pergunta central não é apenas quantos brasileiros sabem ler e escrever, mas quantos conseguem de fato interpretar criticamente a realidade em que vivem. Uma sociedade pode reduzir drasticamente o analfabetismo e ainda manter mecanismos profundos de alienação reprodução de desigualdades e naturalização da exploração se a educação não estiver ligada à formação de uma consciência crítica.
O avanço da alfabetização é, portanto, apenas uma etapa inicial de um processo muito mais amplo. Ele envolve enfrentar as heranças históricas de exclusão criticar as formas atuais de exploração do trabalho e disputar permanentemente o sentido da educação na sociedade. Sem isso o risco é que a leitura da palavra continue separada da leitura do mundo e que a conquista estatística da alfabetização não se transforme necessariamente em emancipação social.
No fim o que está realmente em jogo não é apenas o número de analfabetos no país, mas a capacidade coletiva de compreender que nenhuma desigualdade é natural nenhuma exploração é inevitável e nenhum modelo de trabalho é imutável. É exatamente essa compreensão que define em última instância se a educação será apenas um dado estatístico ou uma verdadeira força de transformação histórica.

Cristiano Torres é professor especialista pesquisador CAPES mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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