Ministério Público abre inquérito para acompanhar projeto do futuro CT do Santos Futebol Clube

 Carlos Ratton

Ministério Público abre inquérito para acompanhar projeto do futuro CT do Santos Futebol Clube

 Carlos Ratton

13.01.2026

Fotos Divulgação/Câmara dos Deputados/ Fred Casagrande/Prefeitura de Praia Grande  

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), pelas mãos do promotor Alessandro Bruscki, instaurou inquérito civil para apurar supostas irregularidades e acompanhar todo o projeto envolvendo o futuro Centro de Treinamento (CT) profissional do Santos Futebol Clube, na entrada do município de Praia Grande (SP).

Como já publicado com exclusividade pelos Inconfidentes no ano passado, relatório da Frente Contra a Devastação da Zona de Amortecimento do Parque Estadual Xixová-Japuí revela que o empreendimento, que conta com apoio da Prefeitura de Praia Grande, pode destruir o habitat de pelo menos 41 espécies de pássaros e aves, sendo nove endêmicas – que só existem e sobrevivem na Mata Atlântica. Duas estão sob ameaça de extinção.

O promotor já expediu ofício à Administração Alberto Mourão sobre os trâmites do empreendimento e deixou claro que é preciso aprofundamento nas investigações relativas ao projeto, que será instalado em área de amortecimento do Parque.  

A Frente é formada pela sociedade civil e técnicos ambientais. A área de amortecimento tem as mesmas características da fauna e flora de todo o parque estadual. Possui cerca de 90 mil metros quadrados, ao lado do Litoral Plaza Shopping, com fácil acesso ao Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI). O Parque está sob gestão da Fundação Florestal.

Responsável pelo segundo e mais recente relatório é a professora e bióloga Renee Leutz Lopes de Oliveira, que também é observadora de pássaros, revelou aos Inconfidentes, esta semana, que o documento técnico já detectou que o empreendimento, encabeçado pelo pai do jogador Neymar, terá um impacto ambiental imenso na região.

Bióloga Renne Leutz Lopes (à direita)

“São números extremamente significativos. Mostram a importância de preservar e o perigo da perda irreversível de biodiversidade. Os dois relatórios registram dados técnicos que provam que a mata precisa continuar de pé em um bioma que só tem oito a 10% de mata original. Vamos deixar degradar ainda mais? Esse empreendimento é contrário ao plano de manejo do próprio Parque Estadual Xixová-Japuí”, afirma a bióloga, elencando algumas espécies como Ferro Velho; Periquito Rico; Saíra Ferrugem; Saíra Sete Cores; Tié Sangue; Beija-Flor de Fronte Violeta e a Saíra Militar.

A professora garante que além de pássaros e aves, a zona de amortecimento garante a preservação de mamíferos que vivem no parque, “entre eles o gambá, tatu galinha, a preguiça, cutia e várias espécies de morcegos que necessitam dessa área.A zona também é utilizada como moradia”.

Segundo revelou aos Inconfidentes, o primeiro relatório foi assinado pelo biólogo e ornitólogo Bruno Lima e os próximos passos é acompanhar de perto esse novo processo no Ministério Público do estado de São Paulo (MP-SP), além de solicitar junto à Prefeitura e à Câmara de Praia Grande uma a audiência pública, pois acredita que a sociedade precisa estar ciente do que está sendo orquestrado.   

“Temos um abaixo-assinado físico e outro online solicitando a audiência, porque a maioria das pessoas não sabe o que está acontecendo. Zona de amortecimento é protegida por lei. Se ela for destruída, aumenta de forma absurda os impactos ambientais da região. Ecologicamente falando, você tira espécies importantes da biodiversidade e permite aumentar a probabilidade de espécies invasoras para dentro dele (parque). Aumenta os níveis de vento e a probabilidade de ilhas de calor, pois vai substituir o verde pelo cimento. Quando não houver mais nenhuma árvore de pé, a gente vai descobrir que dinheiro não se come”.

Por trás

Denominado CT Vila Praia Grande, o empreendimento que sediará os treinamentos do time profissional do Santos, faz parte de uma iniciativa privada, a custo zero para o clube. Será instalado em uma área mais que o dobro do CT usado atualmente pelo Santos, e inclui a construção de campos, alojamento, refeitório, academia e departamento de saúde.

De acordo com o projeto, a estrutura será moderna e oferecerá conforto, tecnologia, sustentabilidade e inovação, ‘tudo em harmonia com a natureza’. A partir de sua implantação, o CT Rei Pelé, atual centro de treinamento do SFC, ficará para a base e futebol feminino do clube.

Já foi revelado que o futuro complexo esportivo será bancado pelo pai do jogador Neymar Junior, o empresário Neymar da Silva Santos, que já respondeu por infrações ambientais e foi multado em 2023 no valor de R$ 16 milhões, junto ao filho, pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Mangaratiba, no Rio de Janeiro. A multa foi revogada em 2024.

Choque

A obra entra em choque com o artigo 2º da lei 11.428, de dezembro de 2006, conhecida como a “lei da Mata Atlântica”, que não permite a destruição do bioma para um empreendimento como o anunciado pelo pai de Neymar.

Só se pode derrubar Mata Atlântica, no Brasil, em áreas privadas, como nesse terreno, se essa obra comprovadamente atender a um interesse social ou utilidade pública, que não é o caso de um empreendimento privado”, já explicou Luís Fernando Guedes Pinto, diretor da ONG SOS Mata Atlântica.

Cumplicidade

Somente 12% da Mata Atlântica ainda permanece de pé no Brasil. O governo brasileiro tem um compromisso do desmatamento zero até 2030. No entanto, ano passado, com a cumplicidade de dezenas de deputados (as) federais, o país assistiu o maior retrocesso das última quatro décadas em termos de biodiversidade, segundo especialistas e ambientalista do mundo.

Os (as) parlamentares derrubaram 56 vetos dos 63 aplicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Lei do Licenciamento Ambiental (15.190/2025), permitindo desmatamento sem análise prévia dos órgãos ambientais estaduais ou federais.

O Projeto de Lei 2159/2021, conhecido como PL da Devastação, flexibiliza e desmantela o sistema de licenciamento ambiental no Brasil, permitindo Licenciamento Automático por Autodeclaração (LAC) e enfraquecendo órgãos ambientais, gerando aumento do desmatamento, impactos em povos indígenas e quilombolas, e permitindo retrocessos nas metas climáticas.

Ele foi votado e aprovado em sessão conjunta da Câmara dos Deputados e Senado Federal e, em função da gravidade de suas consequências, atinge com força o bioma do Brasil e, particularmente, o Estado de São Paulo e a Baixada Santista.

Entre os deputados que votaram a favor do PL da Devastação estão os três regionais (fotos): Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), a deputada federal Rosana Valle (PL) e o deputado Delegado Da Cunha (PP). 

Com a aprovação, qualquer empresário poderá obter a autorização preenchendo um formulário na internet e comprometendo-se de “boa-fé” a seguir algumas regras. O problema é que isso não vai valer apenas para empreendimentos de pequeno, mas também para os de médio e de grande porte, como o caso do CT do Santos. 

Da Cunha, Paulo Alexandre Barbosa e Rosana Valle    

Os parques

O Parque Estadual Xixová-Japuí que abriga importante porção de Mata Atlântica conservada e destacada da Serra do Mar, com 901 hectares em meio à Região Metropolitana da Baixada Santista, fica entre os municípios de São Vicente e Praia Grande.

São Paulo possui o Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) – a maior área de proteção integral do litoral brasileiro com 340 mil hectares. Abrange parte de 23 municípios, constituindo um verdadeiro corredor ecológico, conectando os mais significativos remanescentes da Mata Atlântica do país. Seus principais componentes são a garantia do suprimento de água qualitativa e quantitativamente, e, por fim, a proteção e a conservação da biodiversidade.

Além do Parque Estadual da Serra do Mar, São Paulo possui a Estação Ecológica da Juréia-Itatins (foto) – com 84.425 hectares e caracterizado como um dos trechos mais bem protegidos e preservados de Mata Atlântica do Brasil, com flora e fauna bastante diversificada, com grande número de espécies raras e várias endêmicas regionalmente.

Manifestação contra o projeto do CT do Santos em Praia Grande

Dossiê-denúncia

O projeto CT do Santos está entre os empreendimentos em cidades do litoral paulista citados em um dossiê-denúncia que aponta empreendimentos da iniciativa privada de alto impacto ambiental e a omissão do Governo de São Paulo e dos gestores municipais no enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas e de crimes ambientais.

Coordenado pelo mandato do deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL), o documento foi lançado ano passado, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). O documento reúne contribuições de diversas instituições e movimentos da sociedade civil, como a Frente Contra o Desmatamento – Baixada Santista e a Frente Contra o Lixão na Área Continental de São Vicente.

Presidente da Frente Parlamentar de Combate às Mudanças Climáticas na Alesp, Cortez afirmou que o levantamento expõe o enfraquecimento dos órgãos de controle ambiental e a redução drástica de recursos públicos destinados à área, sobretudo quando comparados aos grandes empreendimentos de infraestrutura.

Comentários dos leitores

Carregando comentários…