Mito da costela e vazio programado: a construção da incompletude feminina no mundo ocidental
Por Cidinha Santos

Por Cidinha Santos
25.04.2026
A sensação de um "vazio no peito" que muitas mulheres relatam não é um defeito biológico ou uma carência natural, mas o resultado de uma engenharia social, religiosa e política meticulosa.
Desde o mito bíblico da Costela de Adão, a narrativa ocidental moldou a identidade feminina como algo inerentemente fragmentado e dependente. Essa base teológica incutiu a ideia de que a mulher é uma peça de um quebra-cabeça que só se completa com a presença masculina, transformando o sacramento da união no único caminho permitido para a plenitude e a felicidade.
Para a psicanalista Maria Homem, essa estrutura molda profundamente o nosso inconsciente. Embora o desamparo seja uma condição humana universal, a cultura empurra a mulher a acreditar que esse desamparo só se cura através do "Outro".
Dessa forma, o vazio deixa de ser uma questão existencial legítima para se tornar uma dependência amorosa paralisante. Esse sentimento de falta é uma ansiedade induzida, ensinando que o amor romântico é o único preenchimento possível, o que gera uma busca incessante por uma validação externa que nunca parece ser suficiente.
Essa incompletude fabricada se manifesta de forma cruel na divisão desigual do cuidado. Como aponta Lélia Gonzalez, no Brasil, essa dinâmica tem raízes coloniais e racistas.
A sociedade foi estruturada sobre o corpo da mulher como a cuidadora universal — uma herança da figura que sustenta emocionalmente a cultura enquanto seu próprio cansaço é invisibilizado.
A mulher é ensinada a antecipar necessidades e organizar o caos alheio em todas as esferas. No relacionamento, ela escuta as dores e oferece suporte logístico; no trabalho, frequentemente assume o "trabalho emocional" de mediar conflitos e acolher a equipe; e na família, é quem mantém os laços vivos e cuida dos idosos.
No entanto, raramente ela é o objeto desse cuidado, recebendo em troca apenas a passividade de parceiros ou colegas que se colocam no lugar de beneficiários desse esforço.
Márcia Tiburi discute como essa subjetividade feminina foi apagada para que a mulher se tornasse um "objeto" de uso e suporte para o homem. O mito do amor romântico, reforçado pela religião, serve para que a mulher nunca se sinta potente por si mesma.
Tiburi argumenta que o "vazio" é, na verdade, a ausência de uma voz própria num mundo que prioriza o monólogo masculino. Quando a mulher busca preencher o vazio no peito com "alguém", muitas vezes está tentando validar sua existência por meio do olhar de quem a vê apenas como uma extensão funcional ou uma servidora emocional.
O paradoxo trágico é que a mulher, construída como o pilar de todos ao seu redor, é quem mais sofre com a solidão, inclusive a "solidão a dois".
O vazio persiste porque o parceiro, condicionado por uma masculinidade que não prioriza a empatia ou o cuidado doméstico, frequentemente ocupa a posição de um dependente emocional, sendo poupado de olhar para as próprias responsabilidades.
Para preencher esse espaço, o caminho não é a busca pelo "homem-solução", mas a desconstrução da ideia de incompletude. A liberdade começa quando reconhecemos que o cansaço não é falta de amor, mas falta de reciprocidade e justiça afetiva.
A mulher não é uma costela; ela é um corpo inteiro, capaz de desejar e agir para além do serviço ao outro. Reconhecer a própria voz e a própria história de resistência é o primeiro passo para transformar o vazio em potência e autonomia.
Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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