Moradores da Zona Noroeste precisam de “acesso à cidade” e não pirotecnia

Carlos Ratton

Moradores da Zona Noroeste precisam de “acesso à cidade” e não pirotecnia

Carlos Ratton

26.01.2026

Fotos: Tony Valentte/PMS/Portal GOV BR

Santos completa 480 anos nesta segunda-feira (26), com uma programação que reúne eventos culturais, solenidades oficiais e entregas de obras em diferentes áreas. As atividades marcam a data histórica e se estendem ao longo do mês, envolvendo regiões do Centro Histórico, orla e Zona Noroeste. Mas será que essa última região tem o que comemorar?

A Reportagem de Os Inconfidentes fez um levantamento que aponta que problemas persistem por décadas sem solução, apesar das promessas e pura pirotecnia que, ano após ano, são lançadas em tribunas, indicações, requerimentos, projetos de lei, gabinetes administrativos e, com certeza, palanques em comemoração ao aniversário.

Estudante de Jornalismo e suplente de vereador, Luis Henrique Fernandes da Silva, nascido e criado na ZN, consegue resumir a questão: “para a Zona Noroeste, eu acho que mais falta em si é acesso à cidade, o direito à cidade, vamos dizer assim. Existe uma luta, um movimento por isso”.   

“Acesso à cidade" refere-se ao direito fundamental de todos os habitantes usufruírem plenamente o espaço urbano, incluindo moradia, transporte, saúde, educação, cultura e lazer, promovendo cidades justas e inclusivas. 

Envolve políticas públicas que garantam a equidade e a participação cidadã, indo além do mero deslocamento físico para abranger a transformação social do território.

A mobilidade urbana, o planejamento territorial e a gestão de recursos são cruciais para superar desigualdades e garantir que a cidade seja um bem comum para todos, combatendo a exclusão socioespacial. 

A mobilidade urbana, por exemplo, ainda é deficiente na ZN. Ela não envolve só o transporte, mas de como o acesso a ele (ou a falta dele) afeta a vida, o trabalho e o lazer. A falta de mobilidade vem sendo um fator de exclusão para quem mora longe ou não tem recursos.

“Santos tem uma das maiores tarifas do país, R$ 5,25. Com 10 reais, você não consegue se locomover de forma confortável. Considerando que a ZN é uma região com pessoas de renda mais baixa, que vivem em condições precárias, falta o direito de ir e vir de ônibus para algum lugar na cidade. É custoso ir à praia, ao shopping, fazer um curso, ir até ao cinema, teatro, enfim”, afirma Luiz Henrique Silva.

Ele lembra ainda dos problemas com moradias em condições precárias e em palafitas. “Muitos moradores de bairros como Rádio Clube e Jardim Castelo possuem suas casas, mas sem acesso à escritura, dificultando qualquer transação com o imóvel, como vender de forma financiada. Temos o maior complexo de palafitas em que até hoje ainda falta saneamento básico”.

O estudante enfatiza que o Dique da Vila Gilda, por exemplo, abriga a maior favela de palafitas do Brasil, com estimativas que chegam a 20 mil habitantes vivendo em condições precárias sobre manguezais na Zona Noroeste, enfrentando riscos de incêndios e alta da maré.

“Esse número é subestimado. Percebe-se claramente que a Cidade não tem o interesse em oficializar esses números, de contabilizar as pessoas que existem ali dentro. Existe um movimento constante de construção de moradia, principalmente quando ocorre alguma tragédia. De prático, sabemos que milhares ainda não têm saneamento básico, necessário para uma saúde plena”, afirma.  

Enchentes

O suplente a vereador ressalta outro problema de décadas: as enchentes. É crônico e promessas não faltam, como a implantação de 10 estações elevatórias, sendo que somente uma foi entregue até agora.

O resultado é dramático, com milhares de pessoas perdendo móveis e a saúde por anos a fio. “A Cidade vem sendo governada há 30 anos praticamente pelo mesmo grupo e a Zona Noroeste continua sem investimento suficiente para combater as enchentes. O tal Programa Santos Novos Tempos iria acabar com esse martírio, mas o resultado foi zero”.

Vale lembrar que foi construído um viaduto iluminado na entrada da Cidade, cujas obras no entorno prometiam acabar com as enchentes na Avenida Nossa Senhora de Fátima, pelo menos no entorno a qual ele foi construído. Na verdade, o equipamento se tornou uma espécie de toboágua.

“Dependendo do nível de enchente na Avenida Nossa Senhora de Fátima, o transporte não passa para o outro lado da cidade. As pessoas perdem o dia de trabalho, de estudo e de ir ao médico, por exemplo”, afirma o estudante.

O estudante elencou outros problemas relacionados à região praticamente esquecida de Santos, que envolvem também a saúde – falta de médicos, vagas, agilidade no atendimento básico.

Também na área da educação, com escolas com estrutura defasada, que sofrem com enchentes (interna ou externamente) e sem a possibilidade de acesso ao ensino superior. “Por isso, existe um forte movimento para que o Instituto Federal prometido fique na ZN”.

Como promover o acesso à cidade?

Há estudos e garantem que as questões relacionadas à Zona Noroeste de Santos podem ter solução se houvesse a doção de políticas públicas de verdade, como implementar um plano diretor que investisse verdadeiramente em infraestrutura e serviços. Usar instrumentos como a outorga onerosa para financiar melhorias urbanas.

Também seria importante envolver a população na gestão e planejamento, através de conselhos e movimentos sociais, para que suas necessidades fossem atendidas. A Tarifa Zero, por exemplo, um crescente movimento que vem tomando o país, poderia eliminar uma barreira econômica significativa.

O acesso à cidade é um direito complexo que exige ações coordenadas para garantir que todos possam viver bem e participar ativamente da vida urbana, não apenas existir nela.

A ZN

Numa área de 12,3 quilômetros quadrados, composta por 16 bairros (Alemoa, Areia Branca, Bom Retiro, Caneleira, Castelo, Chico de Paula, Ilhéu Alto, Piratininga, Porto Alemoa, Porto Saboó, Rádio Clube, Saboó, Santa Maria, São Jorge, São Manoel e Vila Haddad), a Zona Noroeste comemora seu aniversário sempre no último domingo de agosto, desde 1976, após a lei 4.047 do então prefeito Antônio Manoel de Carvalho.

Mas os registros de movimentação ali vêm de muito antes: em 1534 era instalado no local o Engenho dos Erasmos, um dos primeiros engenhos de açúcar da América Latina, construído a mando de Martim Afonso.

Foi a partir dele que a região começou a ser povoada gradativamente. Sua posição geográfica também contribuiu com o início das ocupações, por ser ligação entre Santos e São Vicente, pelo caminho onde hoje fica a Avenida Nossa Senhora de Fátima, e pela construção do Polo Industrial de Cubatão.

 

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