Morte em rope jumping pode ser um alerta para a Baixada Santista

Falta de fiscalização em Limeira (SP) assemelha-se ao que ocorre em Santos e Guarujá (SP) em relação às canoas havaianas

Morte em rope jumping pode ser um alerta para a Baixada Santista

Carlos Ratton/ Fiamini - Soluções Integradas em Comunicação

19.06.2026

Fotos: Tony Valentte/Fiamini/Reprodução

A morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, no último sábado (13), em Limeira-SP, após ser lançada de uma ponte sem a corda de proteção, tem supostamente a responsabilidade compartilhada entre a empresa que prestou o serviço de rope jumping, a Prefeitura e o Governo Federal. É o que explica o advogado Arthur Rollo, ex-secretário nacional de Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça.

Fazendo um paralelo com o que ocorre em relação à modalidade canoas havaianas que cruzam o Canal do Porto de Santos (SP) sem fiscalização, as prefeituras de Santos e Guarujá (SP) também podem supostamente serem responsabilizadas por uma tragédia já anunciada, após o sufoco vivido pelos praticantes também em um sábado, 02 de maio, no lado de Guarujá. 

Na situação de Limeira, gestão municipal veio a público declarar que a Ponte do Esqueleto, onde os saltos são costumeiramente realizados, é estrutura federal, sendo da União a responsabilidade pela manutenção, pela segurança e pelo controle de acesso.

Rollo concorda. Contudo, alerta que, as empresas que exploram a região com esportes de aventura devem ser fiscalizadas pelo município. Os Inconfidentes já alertaram sobre isso em reportagens este ano.

“A Prefeitura de Limeira diz que já havia alertado o Governo Federal inúmeras vezes sobre o uso indevido do local para atividades radicais e que, agora, vai processar a União. Ora, por que não fez isso antes? Uma vida se perdeu! E, por mais que o Governo Federal seja responsável pela área, é o município quem fiscaliza as empresas que atuam na cidade. Ainda mais num fim de semana, em que estas atividades são mais corriqueiras, não se viu ali no entorno uma só viatura da Guarda Civil Municipal (GCM) ou do Departamento de Fiscalização. Para mim, é muito claro: este risco é compartilhado entre União, Prefeitura e empresa”, avalia o advogado.

Advogado Arthur Rollo 

Na Ponta da Praia, em Santos, ocorre o mesmo. Não se vê Guarda Civil Municipal (GCM) ou do Departamento de Fiscalização e as canoas continuam a cruzar o canal do maior porto do hemisfério sul, reascendendo alerta no Ministério Público Federal (MPF) diante dos riscos diários. Mesmo com mar agitado, ventos fortes e ondas que por vezes ultrapassam três metros e, ainda, sob alerta da meteorologia, os canoístas insistem em desafiar a natureza e por pouco, naquele sábado, não perderam a vida.

O MPF reabriu a denúncia protocolada pela Associação Guarujá Viva - Água Viva por conta da necessidade de fiscalização complementares para apuração de eventuais irregularidades no uso das canoas havaianas, especialmente quanto à aplicação das normas (leis) e à efetividade da fiscalização pelos órgãos responsáveis.

No caso, a Marinha do Brasil – via Capitania dos Portos, a Autoridade Portuária de Santos (APS), e as prefeituras de Santos e Guarujá, que acreditam ainda não serem importantes medidas para evitar uma tragédia anunciada.

Ainda no caso de Limeira, seis pessoas foram presas, após a vítima ser lançada de uma altura de 40 metros sem o equipamento de segurança fixado ao seu corpo, incluindo os três homens que conduziam a atividade. Segundo a Polícia, o grupo responsável pelo rope jumping não tem empresa formal. Há casos em Santos semelhantes. Ninguém fiscaliza empresa alguma. 

Em depoimento, os instrutores alegaram que praticam este tipo de esporte há tempos e que promoviam eventos havia cerca de um ano. O ingresso para saltar da Ponte do Esqueleto custa entre R$ 100 e R$ 180, dependendo da empresa organizadora. Há informações de cobranças em Santos para passeios em canoas havaianas.  

Em Santos, em uma das várias reportagens, Os Inconfidentes já haviam informado que a Água Viva tinha encaminhado manifestação formal ao MPF solicitando a apuração de possíveis irregularidades na exploração comercial de canoas havaianas na região da Ponta da Praia, em Santos (SP), e no Canal do Estuário.

A iniciativa da entidade decorreu de duas reportagens que trouxeram à tona indícios de possível desvio de finalidade, ausência de segurança na navegação e uso indevido de espaço público em atividades realizadas em área de intenso tráfego marítimo.

Segundo revelado, dezenas de embarcações permanecem estacionadas em área pública (foto acima) e estariam realizando passeios turísticos remunerados, com cobrança de valores de até R$ 80 por pessoa, inclusive com travessias do canal, principal via de navegação do maior porto da América Latina. Há relatos de passeios realizados com canoas alinhadas e presas entre si, transportando cerca de 20 pessoas, inclusive crianças.

“Os instrutores estavam ali na Ponte (do Esqueleto) uniformizados. A jovem tinha ingresso nas mãos - aquelas pulseiras de controle e de identificação. Ela confiou que estava contratando um serviço seguro, legalizado. Queria apenas se divertir. Mas o que vimos é algo sem o mínimo de controle e de preparo. Onde estava a Prefeitura? Cadê a União? E, simplesmente, os instrutores se esqueceram do principal: de acoplar na consumidora a corda que a protegeria de uma queda fatal. Penso que devem responder por homicídio doloso, quando o autor assume o risco de produzir o resultado (dolo eventual)”, comenta Rollo sobre a questão de Limeira.

Indenização

Sobre os direitos da família da vítima, o ex-secretário nacional de Defesa do Consumidor explica que cabe indenização e que a empresa responsável pela atividade deve ser a primeira a ser acionada na Justiça. Contudo, como trata-se, segundo as investigações, de grupo sem atividade formalizada, é possível que lhe falte lastro econômico para arcar com a reparação financeira.

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