MP-SP quer garantias de Kayo Amado sobre ocupação da área continental de São Vicente (SP)

Órgãos de controle e ambientais foram acionados

MP-SP quer garantias de Kayo Amado sobre ocupação da área continental de São Vicente (SP)

Carlos Ratton

01.09.2026

Fotos: Porto de Santos/Prefeitura de São Vicente/ Facebook

O prefeito de São Vicente (SP), Kayo Amado (Podemos) começou o mês de setembro com uma notícia pouco satisfatória relação a sua intenção de ceder parte da área Continental - uma grande região do município separada da ilha por canais e mangues, reunindo mais da metade da população da cidade em seis bairros, entre eles o Jardim Rio Branco, Humaitá e Parque das Bandeiras – à industrialização.

A Promotoria de Justiça deu um parecer integralmente favorável ao advogado Rui Elizeu de Matos Pereira na ação popular, com pedido de liminar (decisão antecipada e provisória), obrigando a Prefeitura a provar que as indústrias pesadas não vão destruir a Mata Atlântica e nem inundar os bairros vizinhos.

Exigiu ainda que um perito de confiança do juiz vá até a bacia do Rio Boturoca para avaliar o tamanho do impacto físico, biótico e hidrológico da lei e mandou expedir ofícios à Câmara de Vereadores, à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) e ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMDEMA) para rastrear gravações de audiências, atas e descobrir se o texto da lei foi adulterado para beneficiar empresas específicas de contêineres, conforme aponta a ação.

Também quer que Kayo Amado responda com multa diária em seu próprio bolso (CPF pessoal) caso descumpra as futuras ordens judiciais. Segundo apurado pelos Inconfidentes, com o parecer em mãos, o juiz que está avaliando a causa deve rejeitar todos os argumentos da Prefeitura e abra a fase de perícia técnica.

Prefeito Kayo Amado terá que se explicar ao MP

“A sociedade civil segue mobilizada para garantir que o desenvolvimento da Área Continental não signifique devastação ambiental ilegal e prejuízo ao erário público”, afirmou Rui de Matos à Reportagem no último final de semana. O advogado tenta que a área seja entregue para empresas privadas em detrimento a cerca de 150 mil habitantes que lá vivem, que terão que conviver com depósitos de containers.

“Penso que não há progresso, nem desenvolvimento, nem empregos. Apenas há interesse de uma Administração que caminha para o fim de seu período, para obter vantagens indevidas.

Advogado Rui Elizeu de Matos Pereira

O advogado pretende, na ação, efetivamente anular o que considera ato lesivo ao meio ambiente e à moralidade administrativa, diante da ausência de consulta e participação popular quando, em 16 de abril último, a Prefeitura publicou, no Boletim Oficial do Município (BOM), a Lei Complementar nº 1.234/2026, que alterou abruptamente o zoneamento da Área Continental de São Vicente, transformando Zonas de Preservação e Desenvolvimento Sustentável (ZPDS) em Zonas de Qualificação Industrial (ZI).

Conforme explica à Justiça, visando fiscalizar a legalidade do ato administrativamente, Rui de Matos protocolou pedido formal de informações baseado na Lei de Acesso à Informação (LAI), requerendo cópias integrais do processo administrativo que deu origem à lei, incluindo pareceres jurídicos e técnicos da Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, dos estudos ambientais e de impacto de vizinhança (EIV) que justificaram a reclassificação de áreas ZPDS para ZI e das atas e relatórios conclusivos das audiências públicas realizadas para debater a referida alteração, conforme exigido pelo Estatuto da Cidade.

Também solicitou cópias das atas das reuniões do Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMDEMA) onde a reclassificação destas áreas foi discutida e aprovada e lista das empresas instaladas na Área Continental que protocolaram pedidos de regularização com base no novo prazo estabelecido pela lei até dezembro deste ano.

Rui Pereira explica ratifica que a mudança promovida pela legislação permite a instalação de terminais de contêineres e empresas privadas na Área Continental, gerando severo desmatamento da Mata Atlântica nativa e a consequente impermeabilização do solo, conforme informações colhidas em links do prefeito e secretários.

“O distrito sofrerá com o gravíssimo agravamento das enchentes catastróficas que já assolam e castigam a população local em base rotineira, conforme farta documentação midiática e digital anexada. Cabe ressaltar que o atual prefeito já é réu em diversas ações populares e investigado em feitos instaurados pelo Ministério Público local por degradação ambiental, demonstrando um padrão de reiteração em condutas lesivas ao ecossistema local”, apontara o advogado na última reportagem veiculada pelos Inconfidentes.

Para o advogado ambientalista, o ato de sancionar e promover a lei 1.234/2026 está repleto de nulidade absoluta por vício de finalidade pois o interesse público primordial do planejamento urbano deve ser o bem-estar da população e a preservação ecológica. “Contudo, ele (Amado) utilizou-se da máquina pública para atingir fim puramente privado. A deliberada sonegação dos estudos técnicos por meio do silêncio na Lei de Acesso à Informação escancara o desvio de poder”.

Pedidos

Nos pedidos à Justiça, Rui de Matos requer não só suspender a lei, como paralisar emissões licenças, alvarás ou regularizações baseadas nela. Também quer a imposição de multa diária no valor de R$ 5 milhões - teto proporcional à extensão dos potenciais danos irreversíveis à Mata Atlântica e à bacia hidrográfica local, a ser suportada pessoalmente pelo patrimônio de Kayo Amado em caso de descumprimento ou de prática de atos que visem burlar a suspensão determinada pela Justiça.

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