Mulheres de Atenas – A ironia antimachista de Chico Buarque
Por Roberto Canuto

Por Roberto Canuto
24.04.2026
Nesses tempos tristes de aumento do feminicídio, um dos retrocessos que saíram do armário da extrema direita (apesar de talvez ser um dos crimes mais antigos da humanidade), busquei um "clássico" de Chico (quase tudo dele o é) e de Augusto Boal, que ainda confunde alguns incautos que acham que os nossos ativistas musicais poderiam ser preconceituosos.
"Mulheres de Atenas" foi lançada em 1976 para uma peça de teatro (do mesmo nome) de Augusto Boal, coautor da música, ainda num período pesado da ditadura militar, e agradou pessoas que, de forma ignorante, se sentiram representadas por um texto que lhes parecia defender a mulher submissa, num momento bem propício ao machismo, de domínio do militarismo e toda a sua ideologia boçal e ultrapassada.
Mas ela encantou os "arautos da utopia" e ajudou a me transformar num deles. Lembro que Chico teve muitas letras barradas e modificadas pela censura. Ele chegou a usar nomes falsos para que seus trabalhos "passassem" pelo crivo da covardia (e burrice) do regime militar. Chegou a se exilar (fora do país) por causa disso.
Fico feliz em citar meu maior mestre em letras de música que, como outros grandes poetas, abriu minha cabeça e trouxe meu coração até aqui. Virão outras dele.
Vamos conhecer a letra da música e o que ela nos diz?
"Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas! Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas".
Na Grecia antiga, antes do domínio romano, houve 300 anos de glória, dominando outros povos.
Os homens voltavam das guerras sedentos de encontrar suas esposas, que foram criadas para servi-los. Eles eram motivo de orgulho pelas vitórias, exemplos de força e coragem.
"Quando amadas, se perfumam, se banham com leite, se arrumam. Suas melenas".
Criadas para serem amantes competentes, as esposas se perfumavam, se enfeitavam como um presente a seus heróis.
O banho de leite era usado para purificar e embelezar. "Melenas" eram mulheres com cabelos cumpridos e às vezes despenteados. Elas se entregavam de várias formas aos seus algozes.
"Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem, imploram, mais duras penas. Cadenas".
As mulheres eram agredidas e não podiam nem chorar. O termo "cadenas" significa "correntes", aqui pode ser no sentido figurado ou não. Os gregos tinham escravos, inclusive do sexo feminino. Essas então, imagine o que sofriam.
"Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas. Quando eles embarcam, soldados, elas tecem longos bordados, mil quarentenas. E quando eles voltam sedentos, querem arrancar, violentos, caricias plenas, obscenas".
Aqui se insinua que elas eram apaixonadas pelos maridos, grande figuras masculinas, choravam, aceitavam as funções do lar e torciam por seu regresso, ilesos, para se entregarem ao prazer e toda sorte de abusos, não ao amor.
"Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas. Quando eles se entopem de vinho costumam buscar o carinho de outras falenas. Mas no fim da noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas pequenas, Helenas".
Aqui é citado que o "bom guerreiro" traía sua esposa, comparada à Helena de Tróia, figura idolatrada da Ilíada de Homero, trocando-a por uma "falena" que significa uma mariposa, ou "mulher da noite". Mas ele se entregava a sua bela borboleta na volta. Se sua Helena o traísse, morreria.
"Mirem-se no exemplo daqueles mulheres de Atenas! Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade, têm medo apenas. Não têm sonhos, só têm presságios, o seu homem, mares naufrágios. Lindas sirenas, morenas"
Claro que a esposa ateniense se tornava uma boa mãe, mas extremamente submissa. Afinal sua função, além de servir o marido, era procriar e trazer ao mundo novos heróis machistas.
A "Sirena" seria uma figura mitológica grega "metade mulher, metade pássaro" com um canto que atraía navegantes para os perigos do mar. Aqui, na verdade, ela era uma presa fácil.
"Mirem-se no exemplo daqueles mulheres de Atenas! Temem pros seus maridos, heróis e amantes de Atenas. As jovens viúvas marcadas e as gestantes abandonadas não fazem cenas, vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolham às suas novenas, serenas. Mirem-se no exemplo daqueles mulheres de Atenas! Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas"
Finalmente, após serem mães, as mulheres se tornavam viúvas ou idosas e só restava chorar, serenas e tristes, aceitando sua condição de submissas até "secarem" por seus maridos.
Enfim, o autor provocava e provoca as mulheres a pensarem se elas aceitam se mirar nesse exemplo. As mulheres vêm mudando, sim. Será que os homens e o mundo mudaram?
Belas horas aos que lutam por um mundo mais justo, diferente da antiga Atenas! Aos que não... também!
Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte

Comentários dos leitores
Carregando comentários…