Não dá para explicar vacina para quem resolve beber detergente

Não dá para explicar vacina para quem resolve beber detergente

Por Joaquim José da Silva Xavier

14.05.2026

Entre tantas declarações sensatas, o premiado ator Wagner Moura disse num passado não tão distante que "não dá para explicar a Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Áurea", sugerindo que críticas à cultura brasileira derivam de um atraso histórico e falta de valorização da arte.

Como inconfidente, diante da mais nova sanha bolsonarista contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por conta da suspensão da fabricação e o recolhimento de lotes de detergente lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetante da marca Ypê, só me resta acompanhar o raciocínio do artista e dizer: não dá para explicar vacina para quem resolve beber detergente.

Eu não deveria mais me surpreender. Afinal, para quem já assistiu pedidos de ditadura em plena democracia, orações para pneus, sinais de celular sobre a cabeça pedindo intervenção extraterrestre e, ainda, compra de sandálias da marca Havaianas somente para picotá-la enquanto dava pulinhos em frente a uma das lojas com o pé direito, usar Ypê para tomar banho, escovar os dentes e até beber, é quase que uma sequência natural.

Já li nas redes sociais uma frase tão interessante quanto a do ator Wagner Moura: “o difícil não foi tirar Jair Bolsonaro do poder, mas sim, tentar aceitar o verdadeiro hospício a céu aberto que ele deixou.

Em um de seus perfis nas redes sociais, a jornalista Edna Gomes citou que outra importante jornalista – Daniela Lima -  perguntou a Gilberto Kassab como ele se sentia apoiando políticos que incentivam pessoas a beberem detergente em meio a uma crise sanitária.

Lembrou com propriedade que o Brasil já viveu o fervor da desinformação durante a Covid-19, quando tinha um presidente que não queria que a população se vacinasse, não queria que usasse máscara. E muitas pessoas desacreditaram da ciência, acreditaram em falsas curas, se agarraram a um remédio com esperança enquanto hospitais lotavam e família enterrava seus mortos.

“Foram mais de 700 mil vidas perdidas e o mais triste é perceber que parte da sociedade não aprendeu nada. Agora surgem novamente figuras públicas incentivando absurdos perigosos, como se brincar com a saúde da população fosse bacana, mas a consequência não acontece nas redes. Mas já chegou na UTI, já tem gente intoxicada, enquanto alguns políticos influenciadores transformam ignorância em espetáculo. O papel de um político sério deveria ser preservar vidas, orientar com responsabilidade e defender a saúde pública, não flertar com a necropolítica, onde a desinformação vira ferramenta e a vida humana perde valor”, disse Edna

Na mesma toada, a também jornalista Raquel Sherazade acrescentou também em um vídeo em suas redes sociais: que o fato da decisão da Anvisa ter sido tomada junto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo - órgão ligado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas – não foi suficiente para convencer ‘a turma do detergente’.

“Não é uma questão de razão, é uma questão de pertencimento político e ideológico. Para pessoas situadas no campo da polarização, como é o caso, não importa a verdade, não importa a informação, a ciência, a evidência, a saúde pública, o bom senso comum. Quem manda é o coração. O que importa é sentir-se acolhido, é fazer parte de um grupo, ainda que esse grupo represente tudo que há de mais incoerente, pernicioso, antiético, desumano”, disse.

Raquel vai mais longe ao enfatizar que a necessidade de pertencimento está ligada ao instinto de sobrevivência e desperta emoções primitivas. “Sem um grupo ao qual pertencer, não há como se defender. Então, isolamento vira vulnerabilidade. Sr parte de um grupo, qualquer grupo, é preferível a ficar só. É por isso que a maioria vai com a manada. É por isso que quem não põe a razão à frente do sentimento, é conduzido em rebanho como uma besta, trotando feliz rumo ao abatedouro”

Foi cirúrgica: “sentimentos como o medo, o ódio, a paixão ideológica, são frequentemente utilizados por falsos líderes espirituais e políticos charlatães. Isso é o que chamamos de manipulação. Por isso, por trás do alarmismo, das teorias conspiratórias, do patriotismo extravagante, das guerras santas espirituais, há interesses puramente pessoais. Os manipuladores sabem disso. É por isso que eles se utilizam de pessoas desinformadas, ressentidas, presas no olho e sugestionáveis como massa de terror”

Por fim, disse ser necessário sair do trance ideológico. Da bolha de informação e ideológica. Falou que é preciso humildade para reconhecer o erro e coragem para se desgarrar do grupo, para confrontar incoerências, contradições. Para passar por cima, se livrar  do fanatismo, da radicalização e das correntes ideológicas, que mais dividem do que somam.

Conheço algumas pessoas que conseguiram. Espero que muitas outras consigam. Caso contrário, viveremos para ver muita gente ainda bebendo detergente ou coisa ainda pior.

Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) foi morto enforcado no dia 21 de abril de 1792. É celebrado como mártir da Independência e herói brasileiro até os dias de hoje.

     

Comentários dos leitores

Carregando comentários…