Navios-bomba: empresa reconhece perigo e propõe embarcação de combate a incêndio ao MP

Da Reportagem/Cida de Oliveira

Navios-bomba: empresa reconhece perigo e propõe embarcação de combate a incêndio ao MP

Da Reportagem/Cida de Oliveira

27.01.2026

Fotos e imagens: Youtube/Drone Cubatão/ Google Earth/ Reprodução EIA RIMA/Ministério Público

Uma importante revelação foi publicada em reportagem esta semana no Blog do Pedlowski, assinada pela jornalista Cida de Oliveira, em decorrência do trânsito e a permanência de navios-bomba no Porto de Santos. Em discussão jurídica com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), o Terminal de Regaseificação de GNL de São Paulo S.A. apresentou a possibilidade de ceder embarcações que poderiam contribuir para o combate a incêndios na área portuária. Um possível acordo pode ocorrer em breve.

A iniciativa é um verdadeiro reconhecimento do perigo. Por intermédio de advogados, a empresa disse que seguiria em busca de estaleiros nacionais que poderiam fabricar embarcações semelhantes as apresentadas de modo a privilegiar a indústria nacional e possivelmente, oferecer condições de prazo e garantia mais adequadas.

Planos em análise pelo Ministério Público não incluem, porém, a transferência do polêmico terminal de regaseificação do estreito e movimentado canal de navegação do Estuário próxima a área densamente povoada para um local seguro. Com base em estudos e pesquisas técnicas, o MP-SP sempre apontou riscos de acidentes e explosões, com impacto social, que ficaram de fora do licenciamento aprovado apesar das falhas e omissões registradas nos autos do processo envolvendo a questão.

Maran Gas deixa canal após entregar 80 mil toneladas de gás natural liquefeito. Foto: Youtube/Drone Cubatão

O terminal é um projeto estratégico da Commit Gás/Compass localizado no Porto de Santos (SP), com foco na regaseificação de Gás Natural Liquefeito (GNL).

A proposta de espécies de ‘navios-bombeiros’ e outras ainda estão sendo estudadas, assim como documentos com parâmetros técnicos para até a criação de núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários, voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios.

São esperadas contribuições do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil de Santos, Guarujá e Cubatão, e das áreas de saúde quanto a serviços de resposta a emergências decorrentes de acidentes ou sinistros na área portuária.

A jornalista Cida de Oliveira informa na reportagem que, em busca de mais informações sobre as propostas, o Blog contatou a empresa Edge, do grupo Cosan, controladora do terminal, mas as respostas não foram encaminhadas e o espaço ficou aberto para as manifestações. Há pelo menos cinco anos a questão vem sido discutida em Santos e a empresa sempre garantiu, a diversos órgãos públicos e Imprensa, que a segurança do terminal é garantida.

Longe do canal

“Um acordo que precisamos é aquele voltado para um novo local para instalação do terminal, em áreas marítimas externas ao estuário de Santos. E não mantê-lo no canal do porto, como convém à empresa”, disse ao Blog Paulo Ferraz, advogado da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO).

Conforme lembrou, as alternativas locacionais apresentadas durante o licenciamento ambiental se referem a pontos distintos, mas todos dentro do próprio estuário. “Normas aplicadas internacionalmente, como nos Estados Unidos, determinam instalações do tipo a mais de três milhas da costa. Isso equivale a 4,8 quilômetros”, revelou ao Blog.

Mas o aspecto econômico prevaleceu sobre a segurança no maior porto da América Latina, conforme lembrou. “A única razão apresentada para a escolha do local é essencialmente econômica, de que o custo de implantação seria maior em outro local. A perícia judicial sequer se atentou a esse fato, não tratou especificamente sobre a segurança de todos”, disse Ferraz.

Na avaliação da Frente Ambientalista da Baixada Santista (FABS), a proposta apresentada pelo Terminal ao MP-SP não contempla nem minimiza os riscos de uma possível explosão no terminal de regaseificação.

“Nas diversas oportunidades em que abordamos esse tema junto ao MP, ao poder executivo e na Câmara dos Vereadores, apresentamos material suficiente para provar a gravidade dos danos que incidiriam sobre a população da região, com a possibilidade de elevado número de vítimas fatais, além dos incontáveis danos materiais”, disse ao Blog a engenheira agrônoma Mari Polachini, coordenadora da Frente.

Em sua avaliação, um empreendimento com alto potencial explosivo, situado no entorno de silos de armazenamento de fertilizantes e diversos outros materiais de alta combustão poderia provocar, em um eventual desastre, um colapso em todo o sistema portuário.

“Diante disso, é uma irresponsabilidade reduzir a questão da segurança à criação de embarcações de combate a incêndio e organização de ‘núcleos comunitários de defesa civil’ em assentamentos precários voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios’. Assim como considerar que isso seja suficiente para garantir a mínima segurança da população e seu território”, disse a coordenadora.

Mapa mostra grande parte do estuário de Santos e da ocupação urbana no entorno. E no destaque, no centro do círculo branco, o navio FRSU, que regaseifica o GNL. Foto: Google Earth

A única solução aceitável, conforme a coordenadora, é levar o terminal para uma distância segura da costa, como é comum em empreendimentos do tipo. “Como já foi amplamente discutido entre os representantes da sociedade civil e o poder público, o que realmente afastará esse perigo inimaginável de nossas vidas é a mudança do terminal para uma distância para longe da costa”.

Ela lembrou que o projeto de termelétrica Verde Atlântico, proposto em 2017 para a cidade de Peruíbe, na Baixada Santista. Nele, o terminal de regaseificação seria construído a 10 quilômetros da praia (confira imagem). O empreendimento, que traria danos catastróficos para a população, meio ambiente e a terra indígena Piaçaguera, foi barrado pela grande mobilização popular.

No círculo azul, a localização prevista para os navios-bomba da termelétrica de Peruíbe. Projeto foi derrotado pela população. Foto: Reprodução EIA RIMA

“Dessa forma, entendemos que aceitar uma proposta que não contempla a prevenção e não atende minimamente os critérios para ser classificada como mitigação é tripudiar com a vida dos moradores da Baixada Santista, obrigados a conviver com os riscos de uma explosão que destruirá nossas cidades e nossa economia em proporções inimagináveis”, destacou.

Jato de fogo, nuvem incandescente

A literatura internacional sobre o potencial inflamável do gás natural aponta que vazamentos em equipamentos desses navios e em seus sistemas de transferência de gás podem resultar em diversos desfechos. E que, caso a dispersão na atmosfera encontre fontes de combustão pelo caminho, o resultado será jato de fogo, nuvem incandescente, bola de fogo e até explosões, com intensa propagação de radiação térmica e sobre pressão.

Um cenário catástrofico com elevado potencial de riscos à saúde humana e ao meio ambiente, com possibilidades de causar grande número de vítimas fatais dependendo dentre outros aspectos magnitude do incidente e do contingente populacional situado na região.

Para se ter uma ideia, uma explosão do navio regaseificador ou o transportador, tem potência equivalente a 50 bombas de Hiroshima, segundo alerta em seu livro Power Brittle o físico estadunidense Amory Bloch Lovins.

A energia de um único navio metaneiro GNL padrão, com capacidade de 125 mil metros cúbicos, equivale a sete décimos de um megaton de TNT, ou cerca de 55 bombas de Hiroshima.

Como o TRSP não fez estudos e projeções sobre o impacto social à populosa área urbana do entorno, e nem a Cetesb exigiu, a assessoria técnica do MP projetou “quantidades significativas de fatalidades, além de prejuízos às atividades portuárias e em bairros próximos ao canal de Santos, conforme mapa a seguir.

Essa região toda corresponde aos distritos da Ponta da Praia, Estuário, Macuco, Vila Mathias, Vila Nova, Paquetá, Centro e Valongo, situados em Santos. E Jardim São Manoel/Vila Santa Rosa, Jardim Conceiçãozinha, Itapema e Vicente de Carvalho, no Guarujá.

Mapa mostra impactos previstos para o caso de acidentes e explosões. Foto: Reprodução/Ministério Público

Controlado pela Edge, empresa do grupo Cosan, o terminal entrou em atividade em abril de 2024, antes da licença de operação da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), concedida três meses depois e com a condição de a Edge não injetar o gás no gasoduto Subida da Serra, de propriedade da Comgás, do mesmo grupo.

Isso foi no início da disputa entre a agência estadual paulista Arsesp e a ANP, quanto à regulação quanto à esfera administrativa. A agência federal multou o TRSP devido à operação apressada, com auto de interdição. E tudo foi parar na Justiça.

A Edge obteve liminar que suspendeu a interdição, mas manteve a multa de R$ 85 mil. A disputa pela regulamentação do gasoduto entre as esferas federal e estadual, com implicações em tarifas mais altas para o consumidor, está agora no Supremo Tribunal Federal. O terminal segue a todo vapor. Dados da Edge apontam regaseificação e distribuição diária de 14 milhões de metros cúbicos pela Comgás na Baixada Santista, na capital e em outras regiões do estado.

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