Nego Panda lança “Águas Ancestrais”, na Vila do Teatro, nesta quinta (12)
Cidinha Santos

Cidinha Santos
11.02.2026
Fotos: Divulgação
Nesta quinta-feira (12), a partir das 18 horas, a Vila do Teatro – Praça dos Andradas, 95, Centro de Santos (SP), será palco de um reencontro com as raízes afro-brasileiras. O escritor, poeta e mestre de capoeira Elton Alexandre, o Nego Panda, lança sua mais nova obra, “Águas Ancestrais”, da Editora Periferia tem Palavra.
O livro é o resultado de uma imersão profunda do autor por Salvador (BA), a "pequena África", onde buscou reconectar sua identidade como homem preto e periférico por meio do diálogo com grandes mestres e vivências em terreiros e rodas de capoeira.

Mais do que escritor, Nego Panda é um articulador da palavra na Baixada Santista. À frente da Editora Periferia tem Palavra, ele lidera projeto político-literário que prioriza a publicação de autores e autoras das periferias, negros, negras e da comunidade LGBTQIAPN+.
Para Panda, a literatura é uma ferramenta de emancipação, e sua editora funciona como uma ponte para vozes que o mercado tradicional muitas vezes ignora. Membro da Academia de Letras de Praia Grande e coordenador pedagógico, o autor traz em “Águas Ancestrais” uma escrita que ele define como "escrevivência", embalada pela cadência do berimbau e pela força da ancestralidade.
A entrevista foi conduzida por escrito, via aplicativo de mensagem.
No livro, você narra um mergulho em Salvador e no Recôncavo. O que as águas da Bahia trouxeram de resposta para o homem preto e artista que saiu daqui da Baixada Santista?
Nego Panda - A palavra que resume essa experiência é conexão; trouxe grandes reflexões sobre como me identificar nesse fazer e compartilhar artístico e poético, entender que a nossa ancestralidade está mais perto do que a gente imagina.
Você descreve Salvador como a pequena África brasileira. Como foi o choque — ou o encontro — entre a sua vivência como mestre de capoeira em Praia Grande e Santos com a energia das rodas no Forte da Capoeira na Bahia?
Nego Panda - Cada roda de capoeira carrega uma intensa energia ancestral. O berimbau é um instrumento que fala com os mortos e o Forte é um lugar com muitas histórias e muitas vivências. Pisar nesse lugar foi uma forma de me ligar com os mais velhos - os que vieram antes de nós. O forte carrega várias histórias e grande energia. Tem uma frase do mestre Pastinha [Vicente Ferreira Pastinha, defensor da Capoeira Angola] e repetida pelo mestre Sombra [Roberto Teles de Oliveira, referência na divulgação da capoeira no Brasil e no mundo] que eu gosto muito: “Jogar capoeira é pôr o corpo em oração”. Por mais que muitas pessoas possam discordar, jogar capoeira é vivenciar, é se conectar com o sagrado que deve ser respeitado e reverenciado, sempre!
Em um dos trechos do livro, você cita a imagem de "Anastácia Livre" como símbolo de ressignificação da dor. Como a sua escrita atua para transformar as cicatrizes do racismo em potência e dignidade?
Nego Panda - Tem um Itan [do iorubá itan] que considera a língua como o melhor alimento que, em certo momento e num segundo momento, é servido como o pior prato, o pior alimento. Eu escolhi a língua como o melhor alimento, pois ela pode nos oferecer coisas boas ou negativas dependendo da forma que é usada. Exu [orixá da comunicação e do movimento] nos ensina sobre o poder da palavra e eu procuro, por meio da poesia, trazer para o público leitor ou ouvinte não apenas o reflexo do que o sistema nos empurrou. Nossa história tem dor, tem sofrimento, mas não podemos ficar reduzidos a isso. Somos amor, afeto; a história viva dos nossos ancestrais e as pessoas têm se conectado com isso de diferentes formas, porque elas veem a verdade presente na poesia.
Você é reconhecido como um Griô (guardião da memória oral). Como é o desafio de passar a "voz do tambor" e o "aço do berimbau" para o papel impresso, mantendo viva a oralidade?
Nego Panda - “Nós somos o começo, o meio e o começo”, como nos ensinou Nego Bispo [intelectual negro, quilombola, escritor, poeta e ativista político], manter viva a oralidade com a escrita é falar com o tambor do coração, é entender essa circularidade que rege a nossa vida, porque cada nova escrita é um novo grito, é um chamado de atenção na permissão de Exu.
Como nasceu o projeto da editora e por que, em 2026, ainda é um ato político e necessário priorizar a publicação de autores negros, periféricos e da comunidade LGBTQIAPN+?
Nego Panda - A Periferia tem Palavra é uma editora de resistência, um instrumento da resiliência de vários autores invisibilizados por um sistema literário elitista, que enxerga a nossa literatura como uma literatura menor, somos corpos políticos e a escrita é uma forma de mostrarmos que ainda estamos vivos, de mostrar para os nossos que não estamos sós!
No livro, você dialoga com mestres de capoeira e lideranças religiosas. Para você, escrever é um ato solitário ou "Águas Ancestrais" é, na verdade, um coro de muitas vozes que caminham com você?
Nego Panda - Assim como na ciranda de Lia do Itamaracá “Minha ciranda não é minha só. Ela é de todos nós...”, minha escrita é o reflexo de toda a vivência que tenho e que traço em trocas ao longo dessas águas que transbordam com quem veio antes e depois de mim, sem esquecer que tudo isso é um reflexo presente da ancestralidade que se faz viva no dia a dia. Eu não ando só e não escrevo só.
O que o público pode esperar do evento no dia 12 de fevereiro? Será apenas uma sessão de autógrafos ou teremos o "Nego Panda" performático, unindo slam (batalha de poesia falada), poesia e capoeira no palco?
Nego Panda - Muita poesia e performance embalada pelas águas e encruzilhadas da ancestralidade.
Este livro contou com o apoio do ProAC [Programa de Ação Cultural] e da Política Nacional Aldir Blanc. Qual a importância desses mecanismos de fomento para que obras com essa temática e editoras independentes de periferia consigam, de fato, chegar às mãos do leitor?
Nego Panda - Os editais são uma ferramenta importante para diferentes produções literárias, sobretudo para as editoras pequenas e autores independentes, mas é preciso entender que eles [os editais] não são o fim do processo. São necessárias outras formas de políticas públicas que fortaleçam escritores e escritoras e todos os fazedores de cultura, para além dos editais, uma política pública que enxergue a literatura negra periférica e a arte para além das culturas de massa, de modo que vários autores saiam da invisibilidade. Para isso é preciso melhorar o investimento em políticas públicas voltadas à cultura.
Qual conselho você dá para o jovem da quebrada que hoje escreve em um caderno escondido e ainda não acredita que a sua própria história pode virar um livro?
Nego Panda - Acredite no seu sonho, na sua história – também é preciso um pouco de sorte. Não posso iludir esse jovem dizendo que é um rio de maravilhas, é preciso ter um afeto na condução das palavras, dizer que é um caminho possível, mas que acima de tudo, a poesia, a literatura seja um mecanismo de liberdade, identidade, empoderamento e autoestima. Como costumo falar em oficinas: seja verdadeiro e seja a poesia e “s’imbora” poetizar a vida.
• Evento: Lançamento do livro "Águas Ancestrais"
• Data: 12 de fevereiro, às 18h
• Local: Vila do Teatro (Praça dos Andradas, 95, Centro, Santos)
• Editora: Periferia tem Palavra
• Preço R$ 40,00 (até a véspera do lançamento tem 20% de desconto)
• Como comprar: direct do instagram @negopanda_periferiatempalavra

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