Nenhum posicionamento é neutro ou inocente. O explorado é burro, conivente e cúmplice das barbáries da direita

Por CristianoTorres1977

Nenhum posicionamento é neutro ou inocente. O explorado é burro, conivente e cúmplice das barbáries da direita

Por CristianoTorres1977

17.03.2026

Nenhum posicionamento é neutro ou inocente. Toda escolha humana diante das estruturas sociais já constitui uma tomada de posição. O silêncio é uma posição. A aceitação é uma posição. A adaptação passiva também é uma posição. O que frequentemente se apresenta como neutralidade não passa de uma forma silenciosa de adesão à ordem existente. A neutralidade não existe no campo das relações sociais marcadas pela desigualdade. Ela é apenas uma máscara discursiva que permite a continuidade da dominação sem a necessidade de justificativas explícitas.

No mundo contemporâneo, a exploração não se sustenta apenas pela força econômica ou pela coerção institucional. Ela depende também da aceitação, da tolerância e, em muitos casos, da identificação simbólica de parte dos próprios explorados com as estruturas que os dominam. Esse fenômeno revela um aspecto fundamental da permanência das desigualdades sociais. A dominação não opera exclusivamente de cima para baixo. Ela também se reproduz horizontalmente entre aqueles que vivem sob suas consequências.

Quando um indivíduo submetido à precarização do trabalho, aos salários rebaixados e às condições degradantes de sobrevivência decide defender as estruturas que produzem essas condições, ele deixa de ser apenas vítima da exploração. Ele passa a participar da manutenção dessa mesma estrutura. Não se trata de negar a existência da desigualdade material ou das condições estruturais que limitam as possibilidades de ação. Trata-se de reconhecer que a permanência da exploração também depende de comportamentos que a reproduzem.

O século XXI não é um tempo de ignorância informacional absoluta. Nunca houve na história humana um período com tamanha circulação de informações, narrativas e experiências compartilhadas. A dor social é visível. A precarização do trabalho é visível. A redução sistemática dos salários é visível. As formas contemporâneas de escravidão econômica são visíveis. Elas se manifestam na instabilidade laboral, na informalidade crescente, na substituição de direitos por promessas de empreendedorismo individual e na naturalização da exploração como se fosse apenas parte inevitável da vida econômica.

Diante desse cenário, surge uma questão inevitável. Como estruturas de exploração tão evidentes continuam sendo defendidas por aqueles que sofrem suas consequências? A resposta não pode ser reduzida à simples ignorância. Ela envolve mecanismos de identificação simbólica, expectativas de ascensão individual e internalização das narrativas produzidas pelos próprios exploradores.

O explorado aprende a olhar o mundo através das lentes do explorador. Ele passa a interpretar a desigualdade como resultado de mérito individual. Ele passa a acreditar que a precarização do trabalho é apenas uma etapa temporária no caminho da ascensão social. Nesse processo, a exploração deixa de ser percebida como violência estrutural e passa a ser interpretada como desafio pessoal.

Esse deslocamento simbólico produz um efeito social profundo. O explorado deixa de se reconhecer como parte de uma condição coletiva e passa a se imaginar como um indivíduo isolado em competição permanente com todos os outros. A solidariedade social se dissolve. A organização coletiva perde legitimidade. A crítica às estruturas de exploração passa a ser vista como ressentimento ou fracasso individual.

A consequência desse processo é a consolidação de uma forma sofisticada de dominação social. Não é mais necessário convencer permanentemente os explorados da legitimidade da desigualdade. Basta permitir que eles próprios reproduzam as narrativas que justificam essa desigualdade.

A precarização do trabalho ocupa um papel central nesse mecanismo. Empregos instáveis, contratos temporários, jornadas fragmentadas e ausência de garantias trabalhistas produzem uma condição permanente de insegurança econômica. A insegurança impede a estabilidade necessária para a organização coletiva. O trabalhador permanece ocupado apenas com a tarefa imediata de sobreviver.

Salários rebaixados operam como instrumento complementar dessa dinâmica. A redução contínua da remuneração não afeta apenas o padrão de consumo. Ela limita o tempo, a energia e os recursos disponíveis para qualquer forma de reflexão crítica ou mobilização social. O trabalhador precarizado vive sob pressão constante. Ele precisa aceitar condições cada vez mais degradantes para evitar a exclusão completa do mercado de trabalho.

Nesse contexto, surgem formas contemporâneas de escravidão econômica. Não se trata de escravidão legalizada, mas de relações de trabalho nas quais a liberdade formal existe apenas no plano jurídico, enquanto a dependência material torna a recusa praticamente impossível. O indivíduo é formalmente livre para rejeitar a exploração, mas materialmente incapaz de sobreviver sem se submeter a ela.

A dominação moderna não precisa de correntes visíveis. Ela se sustenta por meio de contratos precários, promessas de ascensão individual e narrativas meritocráticas que transformam a exploração em virtude moral.

É nesse ponto que emerge o princípio da não neutralidade social. Nenhum posicionamento diante dessas estruturas é neutro. Aceitar passivamente a exploração sem produzir qualquer forma de enfrentamento significa contribuir para sua continuidade.

É possível sobreviver dentro de uma condição de exploração. Sobreviver pode exigir concessões materiais inevitáveis. Um trabalhador pode aceitar um emprego precarizado para não morrer de fome. Essa aceitação material não define necessariamente uma adesão simbólica à exploração.

No entanto, a sobrevivência material não impede o posicionamento crítico. O indivíduo pode reconhecer a injustiça da condição que o sustenta. Ele pode denunciar a precarização do trabalho. Ele pode questionar os salários rebaixados. Ele pode construir formas de solidariedade e organização coletiva.

A ausência completa desse posicionamento produz outro fenômeno. A exploração deixa de ser apenas uma estrutura imposta. Ela passa a contar com a passividade ativa daqueles que vivem sob ela.

Essa passividade não é simples ausência de ação. Ela constitui uma forma de participação indireta na reprodução da dominação.

Quando o explorado defende discursos que legitimam a precarização do trabalho, ele reforça a estrutura que o precariza. Quando ele repete narrativas que naturalizam salários rebaixados, ele contribui para a normalização dessas práticas. Quando ele ridiculariza qualquer tentativa de organização coletiva, ele atua como guardião simbólico das fronteiras que mantêm a desigualdade.

Esse comportamento revela um paradoxo central das sociedades contemporâneas. A permanência da exploração depende não apenas da ação consciente dos dominadores, mas também da participação involuntária ou consciente de parte dos dominados.

Nesse sentido, o explorado pode tornar-se cúmplice da estrutura que o explora. A cumplicidade não significa necessariamente intenção consciente de manter a desigualdade. Ela pode manifestar-se simplesmente pela recusa em confrontar as estruturas que produzem essa desigualdade.

A exploração social, portanto, não é apenas uma relação econômica. Ela é também uma relação simbólica e discursiva. Narrativas, interpretações e percepções de mundo desempenham papel decisivo na sua reprodução.

A linguagem transforma-se em instrumento de legitimação da desigualdade. Expressões como mérito, esforço individual, empreendedorismo e competitividade funcionam como dispositivos simbólicos que ocultam as relações estruturais de exploração.

O trabalhador precarizado é incentivado a enxergar sua condição como oportunidade. A instabilidade é apresentada como liberdade. A ausência de direitos é apresentada como flexibilidade. A exploração é reinterpretada como autonomia.

Essa inversão simbólica produz um efeito ideológico poderoso. O indivíduo deixa de perceber a violência estrutural da exploração. Ele passa a enxergá-la como escolha pessoal.

Quando essa percepção se consolida, a dominação torna-se mais eficiente. Não é mais necessário impor a desigualdade pela força. Ela passa a ser defendida pelos próprios sujeitos que vivem sob seus efeitos.

É nesse ponto que a crítica à neutralidade se torna fundamental. Nenhum posicionamento diante dessas estruturas pode ser considerado inocente. A aceitação passiva da exploração não é apenas consequência da dominação. Ela também contribui para sua permanência.

A permanência da precarização do trabalho, dos salários rebaixados e das formas contemporâneas de escravidão econômica depende da continuidade desse ciclo. Estruturas de exploração produzem condições materiais que dificultam a organização coletiva.

A ausência de organização coletiva permite que essas estruturas permaneçam intactas.

Esse ciclo se retroalimenta continuamente. A precarização gera medo. O medo gera silêncio. O silêncio gera continuidade da exploração.

Romper esse ciclo exige mais do que sobrevivência. Exige posicionamento.

Nenhum posicionamento é neutro.

E nenhuma exploração permanece apenas pela força.

Ela também depende daqueles que, mesmo vivendo sob suas consequências, continuam permitindo que ela se reproduza.

Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais

Comentários dos leitores

Carregando comentários…