O abismo da representatividade: conflito entre o palco político e a dor do feminicídio

Por Cidinha Santos
17.10.2026
Foto Divulgação
A sobreposição de datas na agenda política e no sistema de justiça paulista desenhou um quadro amargo das contradições institucionais do país. De um lado, a Câmara de Vereadores de Praia Grande debatia homenagens a uma parlamentar local recém-eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo com uma votação expressiva — cuja plataforma política inclui abertamente a negação do feminicídio e o descarte das pautas de proteção de gênero. Do outro lado, no Fórum, ocorria o julgamento do assassinato brutal de Amanda, morta pelo próprio marido.
Essa coincidência expõe um profundo descompasso moral e institucional. Homenagear quem minimiza a violência contra a mulher no exato período em que o Judiciário julga a dor real e irreversível do feminicídio é um ato de insensibilidade coletiva. Enquanto um tribunal tenta dar respostas à família de mais uma vítima, o espaço legislativo abriu margem para a retórica que invisibiliza as causas de crimes dessa natureza.
Mesmo após o arquivamento da homenagem diante da pressão e dos debates, a postura dos vereadores e vereadoras revelou a profundidade do alheamento político: nenhum parlamentar teve a sensibilidade de convocar a população e os movimentos presentes para se dirigirem ao Fórum e acompanhar coletivamente o julgamento do autor do feminicídio. Prevaleceu o silêncio e o desinteresse em transformar o momento em um ato concreto de solidariedade e justiça.
A ausência de articulação e a sobreposição de compromissos decisivos entre o Fórum e a Câmara esvaziam a presença feminina e a mobilização da sociedade civil organizada. O episódio reflete que a representatividade eleitoral não pode estar descolada da realidade social — a defesa da vida das mulheres exige postura firme, sensibilidade humana e compromisso com a verdade.

Cidinha Santos é jornalista, membra do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e Débora Silva, coordenadora do Movimento Independente Mães de Maio

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