O Bêbado e a Equilibrista – Elis Regina canta do Brasil da Ditadura por João Bosco e Aldir Blanc

O Bêbado e a Equilibrista – Elis Regina canta do Brasil da Ditadura por João Bosco e Aldir Blanc

Por Roberto Canuto

11.09.2026

Foto: Senado Federal

Mais uma vez vamos falar de uma canção que marcou época, durante a ditadura militar brasileira, que aconteceu entre os anos 60 e 80. Elis Regina é, com certeza a cantora mais aclamada como a melhor de todas, até por causa do talento que ela tinha, tanto na capacidade vocal, como na interpretação.

A canção "O bêbado e a equilibrista" é considerada um clássico da MPB, tão amada quanto a cantora, mas pouca gente sabe o que ela quer dizer. Por sua vez a dupla "João Bosco (cantor e compositor) e Aldir Blanc (letrista)" fez muitas obras-primas como essa, várias gravadas por Elis.

João, no Natal de 1977, se sentiu comovido com a morte do gênio Charles Chaplin e compôs uma melodia inspirada na harmonia da música "Smile" (sorriso), composta pelo ator e tema do filme "Tempos Modernos".

Após 10 dias ele entregou uma fita com a gravação da música em violão ao parceiro Aldir Blanc. Alguns dias depois, Aldir chegou à sua casa dizendo que eles tinham feito algo muito especial, mostrando uma letra que falava do sofrimento do povo naquele momento de falta de liberdade e violência, mas com um toque de esperança.

Elis chorou quando Bosco mostrou a canção no violão e claro, quis gravar. O sucesso foi estrondoso, já em 1979, sendo uma das gravações mais consideradas como "favoritas" por pessoas bem informadas e idealistas.

MAS O QUE NOS DIZ A LETRA?

"Caía a tarde feito viaduto e um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos": há 7 anos antes tinha caído o viaduto do Elevado Paulo de Frontin no Centro do Rio, matando 48 pessoas, o que marcou a cidade, representando aqui a decadência da sociedade e a tristeza da tarde. O bêbado trajando luto representava o povo brasileiro naquele momento. Carlitos era o personagem mais famoso de Chaplin, que defendia o povo mais pobre dos subúrbios estadunidenses, sempre com humor, mas com esperança.

"A lua, tal qual a dona do bordel, devia a cada estrela fria um brilho de aluguél": a lua representava a cafetina (dona do bordel) simbolizando os políticos que buscavam vantagens com os militares, que seriam as prostitutas (estrelas frias, lembrando os brazões militares) e sem sentimento.

"E nuvens, lá no mata-borrão do céu, chupavam manchas torturadas, que sufoco!": as nuvens seriam um mata-borrão, peça emborrachada que limpava manchas deixadas por carimbos. Aldir imaginou um céu, manchado de sangue das torturas feitas com os militantes presos (manchas torturadas). As nuvens limpavam (encobriam) as manchas desse sangue.

"Louco, o bêbado com chapéu-côco fazia irreverências mil pra noite do Brasil!": aqui, o bêbado com o chapéu de Carlitos representava o povo brasileiro que, entorpecido pela bebida fazia evoluções alegres, sonhando, cheio de esperança, como o personagem de Chaplin ao final de cada filme a caminho do sol.

"Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete.": os brasileiros conscientes sonhavam com a volta de Herbert José de Souza, o Betinho (irmão do cartunista Henfil) exilado no exterior há anos, junto com tantos outros heróis que partiram em fuga para não serem capturados pela covardia do regime ditatorial.

"Chora a nossa pátria-mãe gentil, choram Marias e Clarisses no solo do Brasil!": os sonhadores brasileiros choravam, apesar da ironia desse trecho, pois a pátria-mãe não era gentil como no nosso hino. Maria era a viúva do operário Manuel Fiel Filho, enquanto Clarisse, era viúva do repórter da TV Cultura Wladimir Herzog. Os dois foram torturados e mortos nos porões do DOI-CODI, em São Paulo.

"Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. A esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar": a dor pungente, ou seja que fere e marca, não há de ser inútil, pois o bem vencerá! Apesar disso, a esperança, nossa "personagem equilibrista", precisa tomar cuidado, pois a vida é difícil como atravessar uma linha ou corda, onde a cada passo ela pode cair e se machucar.

"Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar": quem manda a nossa personagem ser uma artista (de circo)! Ela sabe que nosso show precisa continuar, pois é nossa missão buscar um mundo mais justo, uma sociedade fraterna onde todos tenham direitos iguais.

Obs.: A gravação de Elis Regina começa e termina com um som de realejo, quase circense, num tom melancólico, meio Carlitos, meio tristeza, meio esperança! Hoje vivemos momentos parecidos, mas não podemos cair da linha, da corda, do trapézio.

Belas horas aos que lutaram e lutam hoje pelos direitos de seu povo, pela justiça no Brasil e no planeta, como nossos grandes mestres da MPB, que plantaram e plantam esperança. Aos que não, também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

 

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