O cão morto de Milei, os asnos vivos de Tarcísio e o banquete do desmonte

O cão morto de Milei, os asnos vivos de Tarcísio e o banquete do desmonte

Por Odair Dias Filho

24.07.2026

Foto: Wikipedia

Na pompa salpicada de mofo do Palácio dos Bandeirantes, ajustam-se os colarinhos para pendurar no peito de Javier Milei a mais alta honraria do Estado.

A Ordem do Ipiranga, criada para celebrar o brado de independência, presta-se agora como adereço festivo ao mestre de obras da ruína platina. Tarcísio de Freitas, de prancheta em riste e sorriso ensaiado, aplaude com o fervor do discípulo que finalmente recebe a visita do guru.

O laboratório argentino é a grande atração da noite. Sob o berrado lema da "Libertad, carajo!", Milei converteu a Argentina em um experimento de necroeconomia a céu aberto.

O projeto é cristalino: a liquidação a preço de xepa do patrimônio público, o esfacelamento das funções básicas do Estado e a precarização institucionalizada do trabalho.

Sob a sua gestão, a jornada de trabalho expande-se até as doze horas sem o melindre das horas extras, o direito sagrado à greve é criminalizado e a organização sindical é tratada como sabotagem.

Quando a fome e o desespero empurram a população para as ruas, o "anarcocapitalismo" retira a máscara teórica e veste a farda da repressão: canhões de água, gás lacrimogêneo e cassetetes tornam-se os únicos instrumentos de diálogo social.

Tudo isso, claro, embalado pelo mais vassal e automático alinhamento à geopolítica de Donald Trump e dos Estados Unidos — uma subserviência tática que confunde soberania nacional com capachismo ideológico e submissão voluntária aos interesses de Washington.

E é precisamente esse o farol que ilumina o Palácio dos Bandeirantes. Milei é o espelho no qual a gestão paulista se mira com vaidade. O modelo a ser seguido em São Paulo tem na entrega criminosa da Sabesp o seu troféu mais emblemático.

Sob o verniz tecnocrata e a justificativa rasteira da "eficiência", a joia do saneamento básico foi rifada ao mercado financeiro, entregando o controle de um recurso vital à voracidade do capital privado.

O resultado não tardou a secar nas torneiras: bairros inteiros, do interior às periferias da capital, já amargam uma crônica falta de água. O prejuízo, como dita a regra de ouro do neoliberalismo de rapina, é brutalmente socializado, enquanto os dividendos fluem caudalosos e ininterruptos para as contas dos acionistas.

Essa secura nas tubulações converte-se no reflexo físico de uma aridez muito mais profunda, estrutural. A sede fisiológica que hoje rasga a garganta do paulista com a torneira vazia é a tradução literal de uma sede desesperadora por justiça social, por liberdade genuína — e não a caricatura mercadológica vendida pela extrema-direita — e por políticas públicas reais.

O que falta não é apenas o líquido potável; falta a presença de um Estado que não trate a vida humana como passivo contábil. Quando a água seca para o povo e transborda para o mercado, a privatização do saneamento revela-se como o que realmente é: a privatização da própria dignidade.

É uma cruzada metódica de desertificação. O avanço predatório sobre o orçamento das universidades estaduais — centros mundiais de excelência e pensamento crítico —, o desmonte asfixiante da educação e a diabolização constante dos servidores públicos compõem esse mesmo ecossistema árido.

O servidor, que sustenta a máquina na ponta do sistema, converteu-se no bode expiatório perfeito para justificar a sanha privatista e o sucateamento deliberado do pouco que resta de amparo à população.

Cabe aqui a reflexão visceral que deveria ecoar dos corredores da USP às plataformas lotadas dos trens concedidos à iniciativa privada: é essa a distopia que desejamos para o futuro de São Paulo?

Um Estado convertido em balcão de negócios, onde a eficiência se mede pelo grau de desidratação dos direitos e a paz social é imposta pela força da tropa de choque?

Há, contudo, uma sutil distinção metodológica entre os dois personagens dessa comédia sombria. Milei, como já registrou o folclore do bizarro político, busca conselhos econômicos e diretrizes geopolíticas na mediunidade, consultando o espírito de seu falecido mastim Conan por meio de canalizações esotéricas.

Tarcísio de Freitas dispensa o telepatismo canino e o espiritismo de canil. O governador paulista não tem a mania de conversar com cachorros mortos; sua especialidade, mais terrena e ruidosa, é falar para asnos vivos — uma plateia dócil e rinchante que aplaude entusiasticamente a própria sede enquanto o banquete do desmonte é servido.

Odair Dias Filho é professor Universitário, assistente social, pesquisador, escritor e poeta

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