O Crepúsculo da Águia e o Despertar do Gigante: a Nova Ordem Econômica Mundial e o Protagonismo Brasileiro

Por Odair Dias Filho
18.06.2026
Foto: USA Today Sports (Reuters)
Dizem que os impérios não morrem de velhice, mas de arrogância. E o que assistimos hoje, nesta segunda metade da década de 2020, é o mais formidável espetáculo geopolítico do século: o canto do cisne da extrema e hostil hegemonia econômica estadunidense.
Durante décadas, Washington ditou as regras do jogo global não apenas com a força de sua narrativa, mas sobretudo com a força de seus canhões e canetas. Impôs sua vontade por meio de guerras preventivas em nome da "democracia", sanções asfixiantes que puniram inocentes, saques sistemáticos de recursos de nações em desenvolvimento e, mais recentemente, pelo uso desenfreado de "tarifaços" irracionais.
A águia careca, em sua infinita sabedoria imperial, decidiu que a melhor forma de se manter no topo era taxar seus aliados até a última gota e ameaçar fechar suas fronteiras. O resultado? O feitiço virou contra o feiticeiro.
A ascensão implacável da China e a consolidação inegável do bloco dos BRICS funcionaram como o meteoro para o dinossauro unipolar. O Sul Global, antes visto apenas como um grande almoxarifado submisso de matérias-primas baratas, agora senta à cabeceira da mesa decisória.
A expansão contínua do BRICS vem reduzindo drasticamente a dependência de ferramentas financeiras americanas. O dólar — outrora a divindade intocável das transações internacionais e a principal arma de retaliação de Washington — vê seu altar ruir dia após dia. É a vingança pragmática dos subdesenvolvidos.
Do outro lado do Atlântico, a velha e orgulhosa União Europeia sentiu o golpe da mudança dos ventos. Acostumados a viver confortavelmente na "aba do chapéu" dos Estados Unidos — terceirizando sua segurança militar para o Pentágono e engolindo a política externa da Casa Branca —, os europeus acordaram de um letárgico sono.
Com os sucessivos tarifaços americanos espremendo e asfixiando suas indústrias, além do flerte cada vez mais aberto e irresponsável dos EUA com a saída definitiva da OTAN, a Europa se viu órfã em meio a um vendaval geopolítico. Sem o guarda-chuva militar e sem o mercado consumidor irrestrito do Tio Sam, a ficha finalmente caiu no Velho Continente: era urgente buscar novos parceiros, encontrar novos mercados consumidores e repensar sua própria defesa.
E para onde a Europa precisou olhar? Para o Sul. Especificamente, para o gigante verde e amarelo.
É aqui que a ironia histórica atinge seu ápice. O Brasil conduziu o Mercosul a vitórias diplomáticas acachapantes. A União Europeia, engolindo a seco seu secular protecionismo, viu-se forçada a ratificar o colossal acordo comercial com o Mercosul, costurado aos trancos desde 1994.
Graças à articulação inegociável do governo brasileiro, atropelou-se a ferrenha e barulhenta oposição da França, reconfigurando os fluxos comerciais do planeta a nosso favor. Para coroar o avanço, veio a conquista do acordo entre o Mercosul e a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein).
Juntos, esses blocos somam quase 300 milhões de consumidores bilionários que passam a absorver nossos produtos com tarifas reduzidas ou extintas. Enquanto os EUA fecham portas, o Brasil escancara os cofres europeus.
Mas a Realpolitik ensina uma lição clara aos românticos: não há poderio econômico e diplomático que se sustente sem uma sólida capacidade militar de dissuasão. A diplomacia sem armas é como uma orquestra regida por um maestro sem batuta.
E para os incrédulos das planilhas, os números deste atual mandato do presidente Lula (2023-2026) não mentem; eles esfregam a realidade na cara do velho establishment. O Brasil compreendeu que precisava forjar a sua própria carapaça de aço, e a Defesa Nacional deixou, definitivamente, o estado de inanição.
Por meio do programa Nova Indústria Brasil (NIB), atrelado ao Novo PAC, o governo estruturou uma injeção espantosa para reerguer a base industrial-militar do país. Estamos falando de um montante estipulado de R$ 53 bilhões especificamente alocados para o complexo de Defesa entre 2023 e 2026. É o Estado assumindo o fomento tecnológico sem pudores neoliberais.
Na arena aeroespacial, a Embraer transformou o cargueiro multimissão KC-390 Millennium no maior pesadelo comercial de Washington. Não satisfeito em equipar nossa Força Aérea, o Brasil começou a vender esta obra-prima da engenharia diretamente para dentro do quintal da OTAN. Pela primeira vez na história, países como Portugal, Holanda, Hungria, Áustria, República Tcheca, e mais recentemente a Coreia do Sul (na Ásia), abriram a carteira para nossa tecnologia de voo, injetando bilhões em nossas exportações e deixando os ultrapassados C-130 Hercules americanos comendo poeira nas licitações. Tudo isso somado ao insubstituível caça leve A-29 Super Tucano, que continua dominando o mercado em vendas para a vigilância de fronteiras mundo afora.
O projeto dos caças F-39 Gripen é outro recado contundente. Muito mais do que uma mera compra de prateleira junto à Suécia, o Brasil amarrou um contrato draconiano de transferência de tecnologia. Dos 36 caças encomendados (com expansão em negociação), 15 estão sendo fabricados inteiramente em solo nacional, formando nossos próprios engenheiros no estado da arte da aviação supersônica.
E as Forças Terrestres acompanham o passo, exportando as modernas viaturas blindadas Guarani para as Filipinas e nações africanas. O "terceiro mundo" agora exporta balística.
Mas a cereja do bolo de nossa soberania afunda no mar e brilha no escuro. O Programa Nuclear da Marinha (PNM) e o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) recuperaram aporte financeiro bilionário e status de prioridade presidencial máxima.
Somente em 2024, o Brasil lançou o submarino Tonelero, o terceiro modelo convencional dessa nova safra, avançando implacavelmente na obra do Álvaro Alberto, nosso primeiro e imponente Submarino de Propulsão Nuclear.
Dominar o ciclo completo e 100% autônomo do combustível nuclear e ter um caçador atômico patrulhando as reservas trilionárias do pré-sal na "Amazônia Azul" manda uma mensagem cristalina às frotas imperiais: o Atlântico Sul tem dono, e aqui não se recebe ordens em inglês.
A velha síndrome do "complexo de vira-lata" foi esmagada pelas esteiras dos blindados, pelas hélices dos submarinos nucleares e pela tinta das canetas diplomáticas. Enquanto o antigo império do Norte tenta pateticamente manter a ordem de um mundo que já não existe apenas no grito, em sanções estéreis e ameaças vazias, a nova ordem multipolar vai sendo consolidada.
A geografia nos fez um continente; a natureza nos fez um celeiro; mas foi a coragem estratégica de investir na própria defesa, de fabricar nossos canhões e de rejeitar a submissão neocolonial que definitivamente nos fez potência. Que o antes intocável eixo Norte-Norte aprenda a negociar de igual para igual. Porque o Brasil não apenas chegou ao tão prometido futuro — ele finalmente tomou as rédeas, trancou as portas e guardou as chaves no bolso.

Odair Dias Filho é professor universitário, pesquisador, assistente social e poeta

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