O Grito de Socorro do Litoral
O Grito de Socorro do Litoral Por José Manoel Ferreira Gonçalves

O Grito de Socorro do Litoral
Por José Manoel Ferreira Gonçalves
20.01.2026
O Alerta Vermelho das Águas. O cenário paradisíaco das praias brasileiras esconde uma realidade indigesta e perigosa. Recentemente, um estudo abrangente liderado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que pelo menos 30% dos ambientes aquáticos costeiros do Brasil estão classificados como "sujos" ou "extremamente sujos".
O levantamento, fundamentado em mais de 6 mil registros globais de contaminação, coloca o país em uma posição desconfortável no ranking da negligência ambiental. A pesquisa utilizou o Clean Coast Index (CCI), uma métrica internacional rigorosa que quantifica resíduos sólidos em zonas costeiras, expondo as cicatrizes que a atividade humana impõe ao ecossistema marinho.
A Vergonha nos Manguezais Santistas
Dentro desse contexto alarmante, os manguezais de Santos e São Vicente, no litoral paulista, ganham um destaque negativo que deveria envergonhar autoridades e cidadãos.
Eles figuram entre os dez pontos mais sujos de todo o planeta. Classificados como "hot spots" mundiais de contaminação, esses berçários da vida marinha enfrentam uma degradação sem precedentes. É fundamental compreender que a poluição nesses locais não se resume apenas ao lixo visível. A presença de resíduos sólidos onde eles jamais deveriam estar altera a química da água e compromete a fauna local.
Além de São Paulo, estados como Pernambuco, Bahia, Pará e Santa Catarina também apresentam pontos críticos que exigem intervenção imediata.
A Invasão Silenciosa dos Microplásticos
O grande vilão dessa crise é o plástico, que compõe cerca de 68% de todo o lixo encontrado nos oceanos. Todavia, o perigo torna-se ainda mais insidioso quando o material se fragmenta em microplásticos. Essas partículas minúsculas já permeiam a cadeia alimentar, sendo ingeridas por animais e, inevitavelmente, por seres humanos.
Estudos científicos demonstram que microplásticos já foram detectados em órgãos vitais como fígado, pulmão e até no sangue humano. Outro resíduo subestimado é a guimba de cigarro. Muitas pessoas ignoram que seus filtros são feitos de polímeros plásticos carregados de substâncias tóxicas, que levam anos para se decompor e liberam veneno nas águas.
O Mito da Biodegradabilidade
Existe uma percepção equivocada de que plásticos rotulados como "biodegradáveis" resolvem o problema. Especialistas alertam que esses materiais são tão resistentes quanto os convencionais em condições marinhas. Enquanto uma folha de árvore se desintegra em dias, um plástico dito "verde" pode levar séculos para sumir.
Por conseguinte, a solução não reside apenas na troca de materiais, mas na redução drástica do consumo e na gestão eficiente de resíduos. O Brasil deu um passo importante com a Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico (Enop) para o período de 2025-2030, que visa coordenar políticas públicas para mitigar essa tragédia anunciada em âmbito nacional e internacional.
Um Compromisso com o Amanhã
Preservar a costa não é uma questão meramente estética ou turística, mas de sobrevivência biológica e econômica. A renovação de 50% do oxigênio do planeta depende da saúde dos oceanos e do fitoplâncton, ambos ameaçados pela poluição plástica. Portanto, precisamos de ações robustas que unam ciência, governança e conscientização popular. O acordo global contra a poluição por plásticos, em negociação na ONU, representa a última fronteira de esperança para reverter esse quadro. Somente com a fiscalização rigorosa e a mudança de hábitos poderemos garantir que o azul do nosso mar não seja sufocado por uma maré de descaso e resíduos.
José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, advogado e jornalista

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