O "parabéns" que nos silencia: até quando seremos ignoradas no 8 de março?
Por Cidinha Santos

Por Cidinha Santos
12.03.2026
Todo 8 de março, o cenário se repete com uma ironia cruel. De um lado, mulheres ocupam as ruas e as redes para denunciar números assustadores de feminicídio, a persistente desigualdade salarial e a exaustão da jornada tripla, quando não quádrupla. Do outro, recebemos flores virtuais, mensagens de "parabéns pela sua doçura" e o onipresente "Feliz Dia das Mulheres".
A pergunta que fica, e ecoa com cada vez mais cansaço, é: até quando os homens — nossos companheiros, irmãos, pais e amigos — vão continuar nos ignorando e achando que este é um dia de comemoração?
A conveniência do "Feliz Dia"
Desejar "parabéns" é um ato de conveniência. É muito mais fácil celebrar a imagem romantizada da mulher "guerreira" do que encarar o desconforto de saber que, no Brasil, uma mulher é morta a cada seis horas. Conforme dados da ONU Mulheres, uma mulher ou menina é morta a cada 10 minutos no mundo por parceiros íntimos ou familiares. É mais cômodo oferecer um bombom do que dividir, de fato, a carga mental do lar ou questionar o colega que interrompe a mulher em reunião de trabalho.
Quando dizemos que o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora não é data comemorativa, mas um marco de luta e luto, não estamos sendo "amargas". Estamos pedindo o básico: escuta e respeito à nossa realidade. Quando o homem ignora esse pedido e insiste na celebração vazia, ele está, na verdade, reafirmando que a voz daquela mulher não tem valor diante do desejo dele de manter as aparências e ignora as tantas de nós que foram assassinadas somente por sermos mulheres.
O espelho para as mulheres
Essa resistência também habita em muitas de nós. Fomos educadas para buscar a validação e o afeto, e muitas vezes aceitar os "parabéns" parece o caminho de menor resistência. No entanto, é preciso coragem para dizer: "Eu não quero flores, eu quero o direito de chegar viva em casa. Eu não quero parabéns, eu quero que você não se cale quando presenciar qualquer violência contra uma de nós."
Para além das flores: onde estão os nossos companheiros, pais, irmãos e amigos?
O "nosso" homem — aquele que amamos e com quem dividimos a vida — precisa entender que o 8 de março é um espelho. Se ele nos parabeniza pela "força" enquanto sobrecarrega essa mesma força no dia a dia, ele não está nos femenageando; ele está nos explorando.
A escuta real exige desconforto. Exige que o companheiro ou o amigo baixe a guarda, pare de tentar "ser legal" por um dia e comece a ser aliado nos outros 364. Ignorar o nosso pedido de "não comemoração" é apenas mais uma forma de violência simbólica: a negação da nossa autonomia intelectual e emocional.
Até quando?
A resposta para o "até quando" não está com as mulheres. Nós já fizemos e continuamos fazendo a nossa parte: os dados estão expostos, os gritos foram dados, as pautas estão na mesa. A mudança agora depende do silêncio dos homens para que eles possam, finalmente, ouvir.
O 8 de março não é sobre a "beleza feminina" nem sobre como somos fortes e guerreiras. É sobre a urgência de um mundo onde não precisemos de mais uma data para lembrar que somos humanas e que nossa vida importa. Enquanto o "parabéns" for usado como escudo para não discutir o feminicídio, ele continuará sendo um insulto, não um carinho.
Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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