O povo tem direito de viver o Carnaval

Por Roberto Canuto

O povo tem direito de viver o Carnaval

Por Roberto Canuto

04.02.2026

FESTA DO MEU POVO - Roberto Canuto - (canção do CD de Simone Ancelmo)

Sexta-feira à noite, finalmente a folia vai nascer.

Na favela ou na estrada é gente correndo pro seu prazer.

Diarista é Porta-bandeira, estudante é Pierrot.

Toda fantasia é uma maneira de espantar o tédio, a dor.

Sábado e domingo, imponente o desfile vai rolar.

Da "Marques" ao "Anhembi" é gente sambando pra extravasar.

O Bloco de Rua, o Frevo, a Banda, o Moçambique, o Afoxé,

O Trio Elétrico, a Escola de Samba, todos nos ensinam fé!

Na segunda e terça é tanta gente na marchinha dos salões.

É criança, velho e adolescente; todos somos foliões.

Ignore a inveja, o preconceito racial e social,

Que esse povo humilde tem direito de brincar o Carnaval.

O meu povo quer amor, uma fantasia tão real;

Um eterno Carnaval, a felicidade, apoteose sem final.

Como essa música nasceu?

Quando escrevi essa letra e compus a música, eu estava impulsionado por uma revolta, devido a um comentário de um jovem branco de 25 anos (ex-policial) que trabalhava no mesmo local que eu. Ele havia comentado que em toda escola de samba, só havia gente bandida, desde o presidente até as senhoras da "Ala das Baianas".

Quem nunca ouviu um comentário, não tão criminoso quanto esse, mas do tipo: "Brasileiro só quer saber de futebol e carnaval! De trabalhar que é bom, ele foge!"

Geralmente esse tipo de frase é falando "indiretamente" do povo pobre e negro. Lembremos que o Carnaval se iniciou na Europa, festejando os últimos dias antes de iniciar-se a quarentena de preparação da semana santa, mas quando chegou ao Brasil por intermédio dos portugueses brancos, começou com o Entrudo, festa em que trocava-se de papéis e os escravos ficavam livres nesse período e podiam "atacar de brincadeira" seus donos brancos, jogando água, lama e outras "travessuras". Uma hipocrisia disfarçada de benevolência.

Análise da letra

O que sentimos na sexta-feira que antecede o Carnaval é aquela alegria de passarmos 4 ou 5 dias descansando ou viajando. Nas favelas e em toda periferia das cidades a correria é na preparação dos desfiles e danças típicas.

A diarista e o estudante são exemplos de pessoas de todas as profissões que sonham um dia pisar numa avenida e se sentir dentro da festa, dentro da arte. O personagem que vestimos nos faz esquecer da vida e como qualquer ator sente, é como se vivêssemos a vida de outra pessoa.

Nos desfiles da Marquês de Sapucaí, do Anhembi, da Dráusio da Cruz aqui em Santos ou em milhares de cidades pelo país, desfilar ou dançar o samba ou o frevo pode ser o ato de mostrar seu talento ou a fantasia que muitas vezes a própria pessoa costurou ou projetou, aguardando o ano inteiro por esse momento.

Pode ser também participar da Escola ou Bloco que representa o povo de seu bairro, seu mundo, seu modo de viver. E o Brasil é muito rico em movimentos e tradições que contam a história da região e a cultura de cada povo, como o Moçambique, o Afoxé e o Maracatú.

É um pertencimento que foi conquistado a duras penas, tendo como exemplo a história do samba, que sofreu enorme preconceito no passado e desde a Tia Ciata até Joaozinho Trinta foram bandeiras difíceis de defender.

Hoje se chama o carnaval carioca e outros de "O maior espetáculo da Terra", e, deixando de lado a influência do "jogo do bicho" e outros problemas, o que importa é que o ser que se manifesta ali precisa desse momento de extravasamento, de alívio das dificuldades da vida. Daí o meu uso do termo "escolas" para lembrar que essas escolas nos ensinam fé, pois o momento de alegria do Carnaval é luz na vida dessas pessoas, é a fé na beleza da própria vida.

Nos salões Brasil afora, também acontece a tradição das marchinhas que contam muito da nossa história. Lembro com pura felicidade de momentos da infância como as matinés de Carnaval no Clube dos Portuários em Santos e assistindo os desfiles da praia sobre o ombro de meu pai ou vendo a alegria de minha mãe ao ver os blocos.

Não deixemos que os preconceituosos tirem o seu, o meu, o nosso direito como brasileiros de brincar o Carnaval, de viver esses momentos quase sempre doces e alegres. Somos todos Foliões. A folia não é "ato pagão", mas um "direito sagrado"! Belas horas aos que amam o Carnaval! Aos que não... ah... não sabem o que perdem.

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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