O progresso é um monstro barulhento: notas sobre a longevidade e o fim do silêncio

O progresso é um monstro barulhento: notas sobre a longevidade e o fim do silêncio

Por Cidinha Santos

05.07.2026

Imagem produzida por IA

Houve um tempo em que o silêncio era um jogo. Quando minhas sobrinhas eram crianças, uma das minhas brincadeiras favoritas com elas era a de "brincar de silêncio". O desafio era simples, quase ingênuo: fechar os olhos e ver quem conseguia passar mais tempo sem emitir um único som, apenas escutando o mundo pausar.

Ganhava quem mergulhasse mais fundo na ausência de ruído. Hoje, olhando pela janela enquanto o concreto avança sobre a vizinhança, percebo com uma ponta de melancolia que esse jogo faliu. Não porque as crianças cresceram, mas porque a cidade perdeu a capacidade de calar.

O crescimento urbano é, por definição, barulhento. Chamam de desenvolvimento o rugido incessante dos motores, o estridular das buzinas no trânsito engarrafado e o bater de estacas das novas construções que engolem o horizonte. O progresso que nos prometeram não veio de pantufas; veio de britadeira.

E se engana quem pensa que o caos sonoro fica restrito às calçadas. Ele invade os espaços coletivos mais cotidianos, como o transporte público, onde o desrespeito ao espaço alheio ganhou novos contornos tecnológicos.

Hoje, entrar em um ônibus significa, quase sempre, ser transformado em ouvinte forçado da vida alheia. Passageiros utilizam o celular no viva-voz para chamadas ou áudios, compartilhando — ou melhor, perturbando — todo o coletivo com suas conversas íntimas, dramas familiares ou fofocas de trabalho.

"Ler um livro dentro do ônibus tornou-se uma missão impossível, um exercício hercúleo de abstração"

Mesmo sem querer, somos obrigados a ouvir tudo, em detalhes cirúrgicos. O mais curioso é que a pessoa que grita ao telefone parece nem se dar conta da própria exposição desnecessária, trancada em sua bolha egocêntrica.

Nesse cenário, o direito ao próprio pensamento é confiscado. Ler um livro dentro do ônibus, que antes era o refúgio de tantos trabalhadores e estudantes, tornou-se uma missão impossível, um exercício hercúleo de abstração que raramente termina em sucesso.

Essa sinfonia caótica altera sutilmente as fronteiras entre a solidão e a solitude. A solitude — aquele isolamento voluntário, pacífico e regenerador, onde nos encontramos com nossos próprios pensamentos — exige uma atmosfera de quietude que a cidade moderna confiscou.

Sem o silêncio para acolher a solitude, o que sobra é a solidão: o isolamento doloroso, empurrado goela abaixo por um ambiente que, de tão saturado de ruído, nos ensurdece para nós mesmos.

O paradoxo mais cruel dessa modernidade barulhenta reside na biologia. Estamos vivendo mais. A medicina e a tecnologia esticam a nossa expectativa de vida, empurrando a longevidade para patamares nunca antes vistos.

Mas a pergunta que ecoa no peito, abafada pelo som do escapamento de uma motocicleta ou pelo viva-voz do banco de trás, é: diante do aumento da longevidade, quando teremos tranquilidade para seguir vivendo?

De que adianta ganhar anos de vida se o ambiente onde devemos desfrutá-los nos agride vinte e quatro horas por dia? O envelhecimento natural pede desaceleração, pede o compasso calmo da contemplação, o direito de ler em paz ou simplesmente de ouvir o nada. No entanto, as cidades parecem projetadas apenas para a urgência e para a falta de civilidade.

As minhas sobrinhas já não são crianças e a brincadeira de silêncio ficou guardada no passado. Mas a urgência daquele jogo permanece viva em mim.

Precisamos, urgentemente, redescobrir o valor do vazio sonoro e do respeito ao espaço do outro. Caso contrário, a nossa tão celebrada longevidade será apenas uma extensão do tempo que passamos suportando o barulho, sem nunca mais conseguir escutar a vida acontecer.

Cidinha Santos é jornalista e assessora de imprensa

 

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