O que a despedida de uma produtora trans diz sobre o mercado cultural
Por Maria Sil

Por Maria Sil
21.04.2026
Encerrar um ciclo raramente é escolha puramente subjetiva. Muitas vezes, é o resultado de colisão inevitável com a estrutura. Após 15 anos de trajetória, dezenas de projetos independentes na Baixada Santista, formação técnica em Artes Dramáticas e graduação em Produção Cultural em curso, anuncio minha retirada da busca ativa por recolocação formal. Esta não é uma carta de desistência, mas um diagnóstico sobre as barreiras que definem quem tem permissão para trabalhar no Brasil.
Desde que me mudei para São Paulo em 2025, enviei mais de 400 currículos. O resultado foi a experiência concreta da exclusão. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), pessoas trans enfrentam níveis de inserção no mercado formal significativamente inferiores à média nacional.
A empregabilidade geral gira em torno de 37%, enquanto a de mulheres trans está em 20% . Quando a narrativa do "está difícil para todo mundo" é usada para nivelar o debate, ela ignora deliberadamente os recortes de classe e identidade que hierarquizam o acesso. Não se trata de percepção, mas de estatística.
Ao longo de quinze anos, fui contemplada em editais públicos, coordenei equipes, produzi dezenas de atividades para o terceiro setor, e contribuí para a formação de profissionais que hoje ocupam espaços relevantes na cadeia produtiva da cultura.
Realizei projetos que se desdobraram em filmes, temporadas teatrais, livros e ações educativas. Não ironicamente em 2020 fui contratada pelo SESC Santos para realizar uma das primeiras atividades artísticas da empresa durante a pandemia "O velório de Maria Silvino", que denunciava a baixa expectativa de vida e de oportunidades profissionais de pessoas trans.
Me fiz morta para ser ouvida, no entanto, o setor cultural — que frequentemente se apresenta como um bastião do progressismo — ainda falha em transformar discurso em prática. Muitas instituições, incluindo as geridas por Organizações Sociais (OSs), ainda não compreenderam que trajetórias trans não são lineares. Nossos currículos carregam lacunas que são cicatrizes de exclusão, e não falta de competência.
A realidade que se impôs nesse período de busca foram os subempregos. É preciso honestidade intelectual para afirmar: o subemprego não soluciona a trajetória de nenhum profissional; ele apenas adia a fome. Enquanto o mercado não incorpora a equidade como prática real de contratação, profissionais qualificados são empurrados para a invisibilidade.
Diante desse cenário, mudo minha estratégia. Direciono meu fôlego para novos caminhos, incluindo o foco em concursos públicos, buscando a dignidade que o setor privado e as instituições culturais me negaram. Sigo com o amparo fundamental de quem caminha ao meu lado — meu companheiro Ricardo e meus amigos Késsia e Robinson.
Deixo este território com a seguinte reflexão: quem faz a fricção necessária para abrir caminhos raramente colhe os frutos diretos dessa mudança. Já estremeci estruturas que hoje empregam pessoas trans, ainda que essas portas tenham permanecido fechadas para mim. Às pessoas trans que continuam na luta pelo mercado formal, desejo que encontrem solos menos áridos. Quanto ao mercado, que ele avance da narrativa para a ação.
A minha trajetória continua, mas agora, sob os meus próprios termos. Seguimos.
Por Maria Sil é técnica em artes dramáticas e graduanda em produção cultural

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