O que é, o que é – O otimismo de Gonzaguinha em sua canção mais popular

Por Roberto Canuto
22.05.2026
Foto: Agência Brasil - EBC
Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, um filho do grande Luiz Gonzaga fora do casamento, apareceu para mim na canção "Explode coração", na voz de Maria Bethania, e claro, em mais um tema de novela. Gonzaguinha teve mais de 300 músicas editadas, mas também 72 censuradas pela ditadura militar.
Carioca, ele só se juntou ao Gonzagão, próximo ao final da vida dois dois (numa proximidade de triste coincidência). Espero mostrar aqui, em outros momentos, suas letras de música mais polêmicas, mas hoje escolhi falar, no meio de tantas obras fantásticas do cantor, da alegria de viver, um tema que marcou também sua carreira.
A canção "O que é, o que é" do disco "Caminhos do Coração" de 1982 é um daqueles hinos, músicas que marcam a vida de um povo inteiro, quase um postal do otimismo do brasileiro, que mesmo passando por tanta dificuldade, tanta desigualdade, tanta injustiça, tanta carência de conhecer o próprio país, cantava e canta: "A vida é bonita, é bonita"!
MAS O QUE A LETRA DA MÚSICA NOS DIZ?
"Eu fico com a pureza da resposta das crianças: É a vida, é bonita e é bonita!" - Gonzaguinha se inspirou numa reportagem da televisão, pesquisa onde a pergunta era: Para você, o que é a vida? Já nesse início ele escolhe a resposta mais pura das crianças, preferindo a beleza e o otimismo, no mundo lúdico delas.
"Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz! Ah meu Deus! Eu sei que a vida devia ser em melhor e será! Mas isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita!" - Aqui se diz que temos de propôr a felicidade, mesmo lutando contra todas as intempéries da vida. Não podemos nos entregar à infelicidade, nem a quem nos faz mal. Temos de ver a beleza de sermos aprendizes a cada passo, mesmo que seja sofrido, aprendendo e levantando de novo.
"E a vida? E a vida o que é? Diga lá, meu irmão! Ela é a batida de um coração, ela é uma doce ilusão, ê ô! Mas e a vida? Ela é mar, a vida (maravilha) ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é, meu irmão?" - A cada resposta que o personagem assiste na TV, ele vai analisando e buscando a melhor resposta, ficando sempre entre a positiva e a negativa, o copo mais cheio ou mais vazio.
"Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo. É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo. Há quem fale que é um divino mistério profundo. É um sopro do Criador numa atitude repleta de amor." - Aqui as respostas mais misteriosas ou de sentimento religioso, de fé. O personagem vai viajando nas respostas.
"Você diz que é luta e prazer. Ele diz que a vida é viver. Ela diz que melhor é morrer, pois amada não é e o verbo é sofrer." - Já aqui as respostas são mais humanas, mais fragilizadas pelo dia-a-dia.
"Eu só sei que confio na moça e na moça eu ponho a força da fé! Somos nós que fazemos a vida como der, ou puder, ou quiser. Sempre desejada, por mais que esteja errada. Ninguém quer a morte, só saúde e sorte." - A resposta da moça ajudou o personagem a chegar num resumo melhor sobre a vida, com o equilíbrio entre a realidade e o otimismo. Afinal, temos que focar no bem, no que é bom.
"E a pergunta roda e a cabeça agita. Eu fico com a pureza da resposta das crianças:
É a vida, é bonita e é bonita!" - Acho que o autor prefere, mesmo tendo que ser espertos, atentos, sonhadores e batalhadores, mantenhamos um espírito desarmado como o da criança. No meu caso, quando chego de manhã, nas escolas onde trabalho, pronto para a luta, para avançar em meus sonhos e nos de minha família e meu povo, recebo um abraço de um pequeno aluno e "e a ansiedade simplesmente zera", como um copo d'água gelada no calor do dia, afinal, apesar de tudo, a vida é bonita, é bonita e é bonita!
Belas horas aos que fazem a vida mais bonita para si e para os outros! Aos que não... também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte

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