O que falta à Baixada Santista?

O que falta à Baixada Santista?

Por Paula Ravanelli

28.05.2026

Há algum tempo venho me perguntando por que a Baixada Santista, mesmo reunindo alguns dos ativos econômicos mais estratégicos do país, continua incapaz de construir uma agenda regional consistente para o seu futuro. Temos o maior porto da América Latina, um dos principais polos industriais do Brasil, infraestrutura logística privilegiada, universidades, institutos de pesquisa, tradição sindical, capacidade técnica e enorme potencial para liderar a transição energética e a neoindustrialização brasileira. Ainda assim, seguimos reagindo às crises — e raramente planejando o futuro.

Essa sensação voltou com força nas últimas semanas. Primeiro, durante o seminário “Neoindustrialização, Emprego e Futuro do Polo Industrial de Cubatão”, realizado no Instituto Federal de São Paulo, em Cubatão. Depois, na entrega da carta-programa construída coletivamente no evento ao ex-ministro Fernando Haddad, ao secretário estadual Jorge Lima e à ex-ministra Marina Silva. Em todos esses espaços, a impressão era a mesma: a região possui enormes diagnósticos, mas ainda pouca capacidade de articulação política regional.

A Baixada Santista fala muito sobre seus problemas, mas pouco sobre seu projeto comum

Talvez esse seja o nosso principal gargalo. Falta-nos uma visão regional de desenvolvimento. Cada cidade disputa isoladamente investimentos, obras e protagonismo político, enquanto os grandes temas que definirão nosso futuro ultrapassam completamente os limites municipais: porto, mobilidade, habitação, logística, saúde, meio ambiente, mudanças climáticas, industrialização, empregos e transição energética. Nenhum desses desafios pode ser resolvido de forma fragmentada.

O caso de Cubatão é emblemático. Durante décadas, a cidade sustentou parcela significativa da industrialização brasileira, pagando um preço ambiental e social altíssimo. Hoje, enfrenta um processo silencioso de desindustrialização, perda de empregos e redução de arrecadação. Ao mesmo tempo, a movimentação econômica do porto cresce de forma impressionante. Mas essa riqueza circula sem necessariamente produzir desenvolvimento territorial, emprego de qualidade ou redução das desigualdades.

 

Existe aí uma contradição que a região ainda não enfrentou politicamente: como é possível que um território tão estratégico permaneça tão vulnerável?

A resposta passa necessariamente pela ausência de planejamento regional de longo prazo. A Baixada Santista continua excessivamente dependente de agendas externas — sejam elas definidas em Brasília, no Palácio dos Bandeirantes ou nos conselhos das grandes empresas. Falta uma pactuação regional capaz de estabelecer prioridades próprias e defender um modelo de desenvolvimento alinhado aos interesses da população local.

Não se trata de nostalgia de um passado industrial que não volta mais. A neoindustrialização não pode significar retorno ao modelo predatório dos anos 1970. O desafio agora é outro: construir um novo ciclo de desenvolvimento baseado em inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental, agregação de valor, soberania produtiva e geração de empregos qualificados.

E isso exige coragem, sobretudo das lideranças políticas da nossa região

Exige discutir o papel estratégico do Porto de Santos. Exige defender cadeias produtivas nacionais. Exige integrar universidades, institutos federais, setor produtivo e sindicatos. Exige pensar mobilidade, saúde pública e habitação como parte do desenvolvimento econômico. Exige compreender que transição ecológica e industrialização não são agendas opostas. Exige, sobretudo, capacidade de coordenação regional.

A carta-programa construída no seminário aponta justamente nessa direção. Não é um documento acabado, nem solução mágica para os problemas da região. Mas talvez tenha um mérito importante: recolocar a ideia de planejamento regional no centro do debate político.

Porque, no fundo, a pergunta mais importante não é apenas qual indústria queremos.

A pergunta central é: que projeto de desenvolvimento regional queremos construir para as próximas décadas?

Paula Ravanelli é advogada e procuradora do Município de Cubatão, feminista e ativista dos direitos humanos. Atuou como Assessora Especial da Presidência da República nos governos Lula e Dilma e integra o Conselho Municipal da Condição Feminina de Cubatão. 

 

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