O racismo não nega a inteligência negra, nega seu direito à centralidade, à autoridade e à superioridade
O racismo não nega a inteligência negra, nega seu direito à centralidade, à autoridade e à superioridade Por CristianoTorres1977

O racismo não nega a inteligência negra, nega seu direito à centralidade, à autoridade e à superioridade
Por CristianoTorres1977
17.01.2026
O racismo não odeia a inteligência enquanto abstração. Ele odeia a inteligência quando ela rompe a hierarquia racial e ameaça o monopólio histórico do poder simbólico. Aqui opera exatamente o mecanismo descrito por Schopenhauer, a inteligência expõe o limite do outro, e por isso produz ódio, não admiração.
A inteligência negra nunca foi inexistente, nem invisível por natureza. Ela foi ativamente negada, deslocada, desautorizada e subalternizada, porque pensar nunca foi o problema. Mandar, definir, nomear e ocupar o centro da razão sempre foi.
Esse processo tem origem histórica concreta. Ele começa no século XV, quando a Igreja Cristã Católica, por meio de seus documentos oficiais, desumaniza juridicamente povos africanos, indígenas e muçulmanos.
Em 1452 e 1455, o Papa Nicolau V, nas bulas Dum Diversas e Romanus Pontifex, autoriza explicitamente a escravização, a expropriação e a redução desses povos à condição de coisa. Ali se estabelece a tese central, corpos negros podem ser usados porque não possuem alma plena nem razão soberana.
A partir desse ponto, o racismo não precisou negar que negros pensam, bastou retirar do pensamento negro qualquer direito à centralidade, à autoridade e à superioridade intelectual. A inteligência negra passa a existir apenas como força funcional, nunca como instância normativa da razão.
A Reforma Protestante não rompe esse eixo, ela o reorganiza economicamente. Martinho Lutero, ainda que critique Roma, não rompe com a hierarquia racial herdada, e o protestantismo europeu e anglo saxão segue legitimando a escravidão, agora associada à ética do trabalho, da obediência e da predestinação. No mundo atlântico, igrejas protestantes lucram diretamente com o tráfico, a compra e a mercantilização de corpos negros.
Nos Estados Unidos, igrejas batistas, e posteriormente adventistas e outras denominações, normalizam a escravidão, a segregação e depois a subordinação racial, usando a Bíblia como instrumento de disciplina mental, mesmo após o fim formal do regime escravista. O controle deixa de ser apenas físico e passa a ser cognitivo, moral e narrativo.
O que o racismo faz, portanto, não é negar a existência do pensamento negro, mas negar seu direito de governar o campo simbólico, produzir verdade, organizar o mundo e definir o que conta como razão legítima. Isso é coerente com Schopenhauer, ninguém odeia a inteligência enquanto ideia abstrata, o ódio nasce quando ela se manifesta onde desmascara a impostura do outro.
A violência racial não surge porque um negro pensa, ela surge quando esse pensamento se impõe, lidera, organiza, interpreta a realidade e retira do branco o privilégio histórico de ser a medida universal da razão, privilégio sustentado por teologia, direito, economia e força.
Por isso, o conflito não é ontológico, é político. Não se trata de quem é capaz de pensar, mas de quem recebeu autorização histórica para exercer soberania intelectual.
Quando o pensamento negro recusa a margem, quando não pede licença, quando não se traduz para agradar, quando não aceita a pedagogia da submissão, ele desorganiza a fantasia racial de superioridade construída desde o século XV. E é exatamente nesse ponto, e não antes, que o ódio emerge.
O racismo não combate a inteligência negra, ele combate a possibilidade de que essa inteligência exerça centralidade, autoridade, superioridade simbólica e poder narrativo.
Por isso, a resposta não é debate. É desqualificação, silenciamento, patologização e tentativa permanente de reinscrever o negro no lugar que lhe foi imposto por instituições cristãs, estruturas coloniais e economias raciais.
O problema nunca foi o pensamento preto existir. O problema sempre foi ele não aceitar mais a posição subalterna que a Igreja Cristã, o colonialismo e a branquitude tentaram eternizar.
Cristiano Torres é professor especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais.

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