O recorte racial invisível do PISA 2025: quem são os 67% que não leem?

Por Cristiano Torres
17.09.2026
Foto: Instagram
A análise dos dados do PISA 2025, divulgada pelo g1 em 17 de setembro de 2026, mostra uma verdade dura e clara: 67% dos alunos mais pobres do Brasil não atingem o nível mínimo de proficiência em leitura.
Isso quer dizer o seguinte: se considerarmos 100 estudantes pertencentes ao grupo socioeconômico mais vulnerável, 67 não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura. Só os outros 33 conseguem atingir esse patamar.
A mesma análise mostra que, entre os alunos mais ricos, esse número é bem menor: 26% não atingem o nível mínimo de leitura. Ou seja, a cada 100 estudantes pertencentes ao grupo socioeconômico mais favorecido, 26 não alcançam esse nível e 74 atingem.
A diferença entre os dois grupos é enorme e, segundo a análise realizada com os dados do PISA 2025, é a maior registrada entre os países da América Latina e do Caribe participantes da comparação.
Agora vem o ponto principal: a divulgação desse resultado apresenta o recorte socioeconômico, mas não mostra a composição racial dos 67% de estudantes que não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura.
É justamente a partir dessa ausência de cruzamento entre os dados que este artigo constrói seu próprio recorte racial, articulando o resultado do PISA com os dados oficiais do IBGE.
O IBGE mostra que, em 2024, as pessoas pretas e pardas representavam 56,8% da população brasileira, mas correspondiam a 71,3% das pessoas pobres do país.
Isso significa que a população negra está sobrerrepresentada entre as pessoas em situação de pobreza. A taxa de pobreza era de 25,8% entre pessoas pretas, 29,8% entre pessoas pardas e 15,1% entre pessoas brancas.
É nesse cruzamento que aparece o que chamo de efeito massa. Quando uma população já sobrerrepresentada na pobreza também está concentrada nas condições sociais que dificultam o acesso ao conhecimento, à aprendizagem e às oportunidades educacionais, a desigualdade deixa de aparecer apenas como uma experiência individual e passa a produzir um efeito coletivo.
Não se trata de afirmar que todos os estudantes pretos ou pardos estejam submetidos às mesmas condições, mas de observar como a concentração de vulnerabilidades produz consequências que ultrapassam o indivíduo e atingem o conjunto social.
O efeito massa aparece justamente quando diferentes desigualdades se acumulam sobre uma parcela significativa da população, fazendo com que aquilo que poderia parecer uma sucessão de situações individuais revele, na verdade, uma dimensão estrutural.
Agora vamos destrinchar a conta.
O PISA mostra que, a cada 100 estudantes pertencentes ao grupo socioeconômico mais vulnerável, 67 não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura. O IBGE mostra que 71,3% da população pobre brasileira é formada por pessoas pretas ou pardas.
Aplicando os 71,3% aos 67 estudantes:
(67 × 71,3) ÷ 100 = 47,771
O resultado é 47,771 estudantes pretos ou pardos. Arredondando, chegamos a aproximadamente 48 estudantes pretos ou pardos.
Agora calculamos a parcela restante. Se pretos e pardos representam 71,3%, os demais representam:
100 - 71,3 = 28,7%
Aplicando os 28,7% aos 67 estudantes:
(67 × 28,7) ÷ 100 = 19,229
O resultado é 19,229 estudantes, o que corresponde a aproximadamente 19 estudantes brancos.
Assim, em uma representação de 100 estudantes pertencentes ao grupo socioeconômico mais vulnerável, 67 não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura.
Aplicando a composição racial de 71,3% observada pelo IBGE na população pobre brasileira, chegamos a aproximadamente 48 estudantes pretos ou pardos e 19 estudantes brancos entre esses 67.
A conta fecha:
47,771 + 19,229 = 67
Ou, utilizando os números arredondados:
48 + 19 = 67
Portanto, dentro dessa estimativa, 71,3% dos 67 estudantes que não alcançam o nível mínimo de leitura correspondem a aproximadamente 48 estudantes pretos ou pardos, enquanto 28,7% correspondem a aproximadamente 19 estudantes brancos.
É importante compreender de onde vem esse resultado. Os 67% vêm do PISA. Os 71,3% vêm do IBGE. Os aproximadamente 48 estudantes pretos ou pardos são o resultado da aplicação dos 71,3% aos 67 estudantes que não alcançam o nível mínimo de leitura.
Esse número não aparece diretamente como uma contagem racial na divulgação do PISA. Ele é uma estimativa construída a partir do cruzamento dos dados. O PISA apresenta a desigualdade educacional pelo recorte socioeconômico.
O IBGE apresenta a composição racial da pobreza brasileira. Ao colocar os dois dados em relação, este artigo torna visível uma dimensão racial que permanece escondida quando a desigualdade educacional é apresentada somente pelo eixo econômico.
Esse resultado revela que a crise de proficiência em leitura no Brasil não se reduz à dimensão econômica. Os 67% não são um grupo sem rosto: ao articular a leitura do PISA com a composição da pobreza do IBGE, observa-se que a vulnerabilidade educacional incide diretamente sobre uma população na qual pretos e pardos estão sobrerrepresentados.
O PISA expõe a desigualdade pelo viés da renda, enquanto o IBGE explicita o recorte de cor da pobreza. O cruzamento desses dados revela um cenário que permanece invisível quando as informações são observadas isoladamente.
A pergunta, portanto, permanece: quem são os 67% que não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura?
A estimativa aqui construída reforça a urgência de que os levantamentos educacionais futuros passem a cruzar, de forma direta nas suas bases oficiais, raça, condição socioeconômica e desempenho escolar.

Cristiano Torres é professor, especialista, pesquisador CAPES, mestrando em Letras e analista crítico das desigualdades sociais

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