O rock e o tribunal digital

Por Luciano Albano

O rock e o tribunal digital

Por Luciano Albano

05.03.2026

O rock sempre se notabilizou como exemplo de posicionamento forte e atitude. Antigamente o "inimigo" era o sistema, o governo ou a censura estatal dentre outras temáticas contundentes. Hoje,o "inimigo" pode ser o seu próprio fã-clube armado com prints de anos atrás.

O moderno nos traz situações impensáveis e nos leva a reflexões profundas sobre esse momento paradoxal. Agradar a todos, em especial ao Tribunal do X (Twitter) ou ao algoritmo do Instagram, é um erro crasso que a maioria dos artistas cometem.

Eles deveriam ter foco na sua base real. Há sempre o medo do "cancelamento”, ele só efetivamente acontece quando o artista depende de marcas e da "massa" superficial.

Como combater isso? Através da construção de uma comunidade leal (via newsletters, fã clubes fechados ou plataformas como Discord), desta maneira ele cria um escudo contra esse cancelamento externo.

Exercer o mantra a seguir pode ser um belo exemplo de sensatez: "Não fale para quem quer te destruir; fale para quem comprou o ingresso".

O artista deve enfrentar com altivez um dos piores inimigos dos novos tempos: a polaridade política. A neutralidade é, por vezes, vista como uma posição política e também é a mais odiada por ambos os lados.

A artista sim, deve se posicionar, mas ele deve ser firme, profundo, pertinente e não usar slogans. O público pode perdoar o erro, mas é cruel e considera a hipocrisia imperdoável, especialmente quando exerce o conhecido "ativismo de fachada".

Diante deste cenário, o artista deve ter em mente que haverá a perda de público em aproximadamente 20% mas é esse um risco calculado. Importante é trabalhar e manter os demais 80% do público apaixonado. O rock nunca foi sobre unanimidade; foi sobre identificação tribal.

É fundamental que exista com intensidade a Arte como Resposta, não o Print. Responder a críticas políticas com notas de esclarecimento em PDF nos “Stories” jamais será o melhor caminho.  Isso não é atitude rock'n'roll. Trata-se de um meramente "comportamento corporativo".

Importante é focar na obra diante da polarização e de ataques. Usar o poder criativo diante de tensões, compor álbuns viscerais e letras que representem força e indignação diante de injustiças. A arte deve ser empunhada como escudo diante destes cenários caóticos.

O rock não morre pelo cancelamento e o seu tribunal digital. Morre pela auto censura. Ao “pedir permissão” para incomodar, ele praticamente entrega sua guitarra para o algoritmo. A música é o seu território com a sua liberdade estabelecida.

O público pode até boicotar um show. Porém a história é sempre gravada e jamais se esquece quem tem a honra, altivez e coragem de desafiar o silêncio confortável, quem não mergulha no sono profundo dos comodistas.

Portanto, caro artista: jamais se intimide. Tenha sempre a atitude que o rock possui em sua essência. Suba no palco. Toque firmemente seus riffs, bends, frases harmônicas, cante e diga o que precisa ser dito. E se as luzes se apagarem, toque no escuro.

Luciano Albano é músico e publicitário, formado em Comunicação Social

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