O sopro de Tereza e a força que atravessa continentes: o 25 de julho como farol de potência negra

Por Cidinha Santos
26.07.2026
Tereza de Benguela gravura liderança quilombo. ilbusca.
Fonte: mundonegro.inf.br
Há datas no calendário que não existem apenas para comemorar, mas para convocar. O 25 de julho é uma delas. Mais do que marco formal, o Dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra é o ponto de encontro entre o passado que sangra e o futuro que se constrói todos os dias, a muitas mãos.
É a data em que o continente para e olha, olho no olho de quem sempre sustentou as estruturas da sociedade, mesmo quando a própria estrutura insistiu em invisibilizá-las.
Essa sustentação não é força abstrata: traduz-se em números que revelam a centralidade e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade dessas vidas. Representando o maior grupo demográfico do Brasil — cerca de 28% da população total, somando mais de 60 milhões de pessoas —, as mulheres negras são a espinha dorsal do país.
Contudo, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) e das pesquisas de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) expõem como o racismo e o machismo estruturais ainda pesam sobre seus ombros.
Elas chefiam cerca de 30% dos lares brasileiros, muitas vezes em famílias monoparentais (núcleo familiar formado apenas pelo pai ou pela mãe – maioria pela mãe), e dedicam em média mais de 21 horas semanais ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas.
Esse esforço não remunerado garante o funcionamento da sociedade, mas compromete diretamente o tempo destinado aos estudos, ao descanso e à ascensão profissional.
A busca por autonomia e a recusa do apagamento, no entanto, não são recentes. No século XVIII, onde hoje fica o estado de Mato Grosso, uma mulher ergueu um Estado dentro do Estado. Tereza de Benguela, a Rainha Tereza, liderou o Quilombo do Quariterê por décadas.
Sob o seu comando, o quilombo não era apenas refúgio de sobrevivência, mas uma sociedade organizada, com parlamento, divisão de trabalho, produção têxtil e cultivo agrícola.
Tereza não governou apenas para os seus: uniu negros e indígenas em resistência comunitária contra a opressão colonial. A história oficial tentou apagar seu nome durante séculos, mas o eco de sua liderança atravessou o tempo.
Reconhecida oficialmente no Brasil pela Lei nº 12.987/2014, a figura de Tereza ressurge não como lembrança distante, mas como a bússola política e existencial.
Ainda assim, as barreiras históricas que a Rainha Tereza combateu no passado continuam a se manifestar no presente sob novas roupagens – e a disputa pela memória urbana é uma das facetas mais visíveis.
Na cidade de Santos, por exemplo, o movimento de mulheres negras protagonizou uma emblemática batalha pelo direito à cidade e à ancestralidade: a instalação da estátua de Iemanjá Negra.
A escultura, que retrata a divindade com suas feições e cor originais africanas, permaneceu por longo tempo guardada, escondida e travada pela burocracia do poder público, que negava a autorização para sua ocupação no espaço urbano.
Foi a organização, a pressão e a insistência do movimento feminista e antirracista local que garantiram que a imagem saísse das sombras e ocupasse seu lugar de direito à beira-mar, escancarando como a ocupação do espaço público também é um território de disputa contra o racismo religioso e institucional.
Essa mesma rigidez institucional se desdobra no mercado de trabalho e nas estatísticas sociais. O rendimento médio das trabalhadoras negras corresponde a aproximadamente metade do auferido por homens brancos e a cerca de 60% da renda das mulheres brancas.
A informalidade atinge cerca de 45% desse contingente, e 1 em cada 6 mulheres negras ocupadas trabalha no serviço doméstico remunerado, setor ainda marcado pela baixa proteção social.
O teto de vidro também se impõe na liderança: apenas uma em cada 46 mulheres negras ocupadas alcança cargos de gerência ou diretoria, em contraste com um para cada 17 homens brancos.
Na educação e nas condições fundamentais de vida, os abismos persistem em taxas de analfabetismo duas vezes maiores e em índices desproporcionalmente mais altos de insegurança alimentar nos lares chefiados por mulheres negras.
Diante desse cenário, a articulação coletiva se torna imperativo de sobrevivência e transformação.
A origem internacional da data remonta a 1992, quando mulheres negras de 32 países da América Latina e do Caribe se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana. Daquele encontro histórico nasceu a rede internacional de afeto, denúncia e articulação política contra o racismo e o machismo.
Como bem resumiu a filósofa Angela Davis, quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Essa premissa ganha vida cotidiana no continente latino-americano, onde a resistência se manifesta na manutenção das tradições quilombolas e terreiros, na ocupação de espaços intelectuais e na linha de frente das lutas comunitárias.
Falar sobre as mulheres negras neste 25 de julho não é falar apenas sobre a dor da opressão, mas sobre a grandiosidade da invenção. É reconhecer a tecnologia ancestral de transformar escassez em abundância, de erguer pontes onde só havia muros e de cultivar o afeto e a dignidade como atos revolucionários.
A semente plantada por Tereza de Benguela e por tantas outras heroínas germina diariamente nas salas de aula, nos palcos, nas cozinhas, nos gabinetes e nas ruas.
O 25 de julho nos lembra que a liberdade não foi dada, mas conquistada, e que a voz, a memória e a existência da mulher negra latino-americana e caribenha são a própria chave para a construção de um futuro verdadeiramente inclusivo e democrático para as mulheres negras.

Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.

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