Oceano – A valsa de Djavan que conquistou o coração do país

Por Roberto Canuto
06.06.2026
Com a proximidade do dia dos namorados, escolhi falar de amor. E olha que esse é forte, quase platônico, de um cantor e compositor “TOP” do Brasil. O sucesso desse gênio da MPB influencia desde alguns mais jovens, até “quase todos” os que já são pais e avós.
Alagoano de Maceió, Djavan Caetano Viana já tem 75 anos e continua tendo uma energia de jovem. Conheci esse ícone com a canção “Flor de Lis”, da qual falarei um dia, mas o trabalho musical de Djavan é o que mais guardo na memória as letras e melodias, pois seu sucesso foi e é estrondoso, com várias músicas conhecidas do povo, em vários ritmos, tendo uma pegada jazz e de black music, de soul e blues, de POP e de “nordeste”, além do samba, ou seja, puro suco de MPB da melhor qualidade.
Seu modo de tocar a maioria das suas músicas mais lentas no violão, já tem cara de estilo próprio. Enfim, “djavaniar”, como diria Caetano (o Veloso) seria talvez dar uma roupa nova à vida, “conquistar sem ser direto” e com ritmo atraente e muita paixão. Enfim, Djavan é um “trovador da paixão”, que coloca o amor entre duas pessoas como tema de quase todas as suas músicas.
Mas, no caso de Oceano (de 1989), que é uma valsa, ritmada em 3 tempos, o sucesso foi avassalador, talvez por ter um início épico, forte como um filme e simples como um nordestino, para cantar um grande drama de amor, fazendo as pessoas se identificarem com a paixão, trazendo uma dor cheia de beleza. E, cá pra nós, quase todo mundo já viveu isso.
MAS O QUE A LETRA DA MÚSICA NOS DIZ?
“Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão, dava prá ver o tempo ruir”: a narração já começa com o personagem comparando o seu amor com um mar alto, talvez incontrolável, que causa tensão. E vem por aí uma tempestade, com o tempo ruindo. As emoções variam entre o amor e o medo.
“Cadê você? Que solidão! Esquecerá de mim”: aqui um quase pessimismo, ao imaginar que amada o esquecerá por estar longe dele. E a paixão explode em saudade.
“Enfim, de tudo que há na terra, não há nada em lugar nenhum que vá crescer sem você chegar. Longe de ti, tudo parou. Ninguém sabe o que eu sofri!”: o amor dele é tão imenso, que o planeta todo sofrerá se ela não voltar. O mundo ficou paralisado e as pessoas não entendem o tamanho de seu sofrimento.
“Amar é um deserto e seus temores. Vida que vai na sela dessas dores. Não sabe voltar! Me dá teu calor!”: nesse momento ele compara o amor a um deserto, onde não há água, o calor é insuportável de dia e o frio horroroso à noite e ainda cheio de animais perigosos.
A vida, antes cheia de alegria, subiu num cavalo selvagem (que simboliza a forte dor do personagem) que a levou essa vida para longe e ela não sabe voltar. Só o calor da amada o fará reencontrar essa vida.
“Vem me fazer feliz porque eu te amo! Você desagua em mim e eu, oceano, esqueço que amar é uma dor só”: a primeira frase se auto-explica e traz o leitor para o centro da questão, todo esse sofrimento é por algo muito bom, que é o amor. Aqui a amada passa a ser um rio maravilhoso, que, ao desaguar no personagem, o faz se transformar num mar, belo e forte. E ele aceita, mesmo que o amor seja sinônimo de dor, ou seja, amar dói mas bom demais!
Obs.: No meu modo de ver, o adverbio “só” faz parte de duas frases: (...uma dor só) e (Só sei viver...). Não encontrei o nome dessa figura de linguagem, mas ela já foi usada por Chico Buarque e outros.
“Só sei viver se for por você”: O personagem se derrama e pede por sua vida.
DJAVAN E SUAS “LETRAS DÍFICEIS”
Enquanto outros mestres da MPB fazem letras que você consegue entender ao buscar informações, pegar um dicionário ou conhecer muitos autores, Djavan não se preocupa em dar um “mapa do tesouro” a quem lê. Ele coloca o que sente no papel e literalmente o leitor “corre atrás”. Mas é bom, porque essa situação cria um mistério. Paixão e mistério juntos, sempre caem bem!
Belas horas aos que desaguam nas vidas dos outros para transforma-las num belo mar! Aos que não... também!

Roberto Canuto é poeta, cantor, compositor e professor de arte.

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