Patriotas de exportação

Patriotas de exportação

Por José Manoel Ferreira Gonçalves

30.05.2026

A bandeira na lapela

Este gesto é um retrato da família Bolsonaro. No dia 28 de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas estrangeiras. A decisão entra em vigor em 5 de junho.

Dias antes, Flávio Bolsonaro posara com Donald Trump no Salão Oval. O senador confirmou sem rodeios que pedira a classificação ao presidente americano. O New York Times foi direto: a medida amadureceu depois de meses de lobby agressivo dos filhos do ex-presidente preso.

Convém traduzir a cena para o português claro. Dois brasileiros viajaram a uma potência estrangeira e a convenceram a mirar o próprio território deles. Não há forma honesta de descrever de outro modo o que aconteceu.

Quando a pátria vira catálogo

A retórica da família sempre girou em torno da bandeira. Bandeira no peito, hino na boca, verde e amarelo em tudo. O patriotismo, porém, evaporou na primeira chance de cobrar vantagem. Eduardo Bolsonaro vive auto-exilado nos Estados Unidos, foragido de um processo por obstrução da Justiça, e de lá opera para que Washington castigue o Brasil. Já fez isso antes.  Em 2025, articulou o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. Batizou a medida de "Tarifa

Moraes". Telefonou a gabinetes de senadores americanos para sabotar a comitiva oficial do Senado que tentava reverter o golpe econômico. Quando a família perde em casa, terceiriza a represália ao império.

A designação das facções repete a fórmula num registro mais grave. O Congresso brasileiro debateu equiparar o crime organizado ao terrorismo e recusou a tese. Em seu lugar, aprovou o Projeto de Lei Antifacção, que reforça a investigação patrimonial, a asfixia financeira e o combate à lavagem de dinheiro. A democracia decidiu. Derrotados no Parlamento, os Bolsonaro foram buscar em Washington o que o voto dos representantes lhes negara.

Há, porém, uma camada que transforma o oportunismo em algo pior. A Revista Fórum reconstrói o que Flávio teria oferecido em troca do carimbo. Num documento entregue a Trump, o senador teria prometido, caso eleito, privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil e destinar a exploração das terras raras a empresas ligadas a Wall Street, com a China fora do jogo.  Em público, ele já adianta o roteiro. Falou de "parceria estratégica" nos minerais críticos e garantiu que, sob seu governo, o Brasil não retaliaria o tarifaço. A soberania, ali, virou catálogo de ofertas.

O escudo e o calendário

O detalhe mais sórdido vem do calendário. A classificação saiu na mesma semana em que a Polícia Federal apertou o cerco sobre o grupo político do senador.

Em 15 e 26 de maio, duas operações miraram os casos Refit, do empresário Ricardo Magro, e Banco Master, de Daniel Vorcaro. A PF investiga um elo direto entre gente próxima a Flávio e o próprio Comando Vermelho. Apura a receptação de fuzis, AK-47 e AR-10 vindos dos Estados Unidos em contêineres, dentro de um esquema de lavagem que passaria por offshores em Delaware.

O advogado de Eduardo Bolsonaro abriu uma delas, na vizinhança de outras quinze do grupo de Magro. Os mesmos operadores controlam um fundo que, segundo a Fórum, recebeu cerca de 24 milhões de dólares de Vorcaro a título de patrocínio ao filme Dark Horse, a pedido de Flávio.  Desses, dez milhões já teriam mudado de mãos.

Junte as pontas. A facção que Flávio pediu para rotular de terrorista é a mesma que a PF investiga por abastecer de armas o esquema que orbita o grupo dele. E a designação, ao transferir a cooperação entre os dois países para órgãos subordinados à Casa Branca, embaraça justamente a troca de informações que a PF persegue sobre Delaware.

O Planalto leu o movimento como interferência eleitoral e manobra para desviar o foco das investigações. Não é leitura desabrida.  É a conclusão a que qualquer um chega ao pôr as datas lado a lado. O patriota não cuidava apenas do palanque. Talvez erguesse também um escudo.

O manual já testado

E os estragos não dependem da intenção. O primeiro deles tem nome e endereço recentes: Venezuela. Em janeiro deste ano, os Estados Unidos invadiram o país vizinho, depuseram e capturaram Nicolás Maduro sob a justificativa de combate ao narcoterrorismo. Nos últimos meses, a Marinha americana bombardeou embarcações no Caribe, fora de sua jurisdição, com a mesma desculpa. O rótulo de terrorista é a chave jurídica que destranca esse tipo de ação. 

O promotor Lincoln Gakiya, que persegue o PCC há mais de vinte anos e vive sob escolta por causa disso, alertou para o risco de que a CIA ou forças especiais conduzam operações secretas na fronteira ou dentro do Brasil. Não é fantasia. É a página seguinte de um manual já testado no continente.

O segundo estrago desmonta o argumento de quem defende a medida. Flávio repete que um em cada quatro brasileiros vive sob o jugo das facções e promete libertá-los.

A ideia vendida ao eleitor diz que o selo de terrorismo aperta o cerco aos bandidos. Acontece o contrário. Gakiya explica que a reclassificação tira a segurança pública brasileira da esfera policial e a empurra para a esfera militar e de inteligência americana. Os canais que hoje ligam o Ministério Público ao FBI e à DEA tendem a fechar.

A CIA passa a represar a informação que circula entre investigadores.  Quem festeja a designação imagina reforço no combate ao crime e recebe o oposto.

A conta chega ao lugar de sempre

Há ainda o flanco econômico. As facções deixaram de ser um fenômeno de favela e se infiltraram na economia formal, com participação na distribuição de gás, no mercado imobiliário, em commodities e em criptomoedas.

Uma vez rotuladas de terroristas, qualquer transação suspeita de tocá-las expõe bancos brasileiros a sanções severas dos Estados Unidos.  Multinacionais podem reavaliar suas sedes no país. O governo resistiu à medida por meses justamente porque mediu o tamanho do buraco, entre a hipótese de uma intervenção armada e a de um castigo financeiro de proporções imprevisíveis.

Resta o detalhe que escancara a má-fé. PCC e CV não são organizações terroristas, e Gakiya, que conhece suas entranhas, faz questão de repetir isso. O conceito adotado pela ONU exige motivação ideológica, ódio racial, religioso ou político. As facções brasileiras não perseguem ideologia alguma.

São empresas do crime, mafiosas na estrutura, movidas por lucro, território e corrupção de agentes públicos. Tratá-las como terroristas não configura erro de avaliação. É escolha calculada, porque só esse rótulo abre a porta que serve ao projeto político da família.

No fim, a conta chega ao lugar de sempre. O brasileiro comum arca com a fatura, o risco e a humilhação, enquanto a soberania nacional vira moeda numa barganha familiar. Os Bolsonaro pediram ao estrangeiro que decidisse o destino da casa alheia, que por acaso é a deles.  Chamaram o gesto de patriotismo. O dicionário guarda outra palavra.

José Manoel Ferreira Gonçalves - Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político

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