Pau que bate em Chico, bate em Francisco?
Por Ton Andrade

Por Ton Andrade
14.04.2026
Todos conhecem o dia 21 de abril como o feriado que marca a morte de Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes. Executado em 1792, após um longo processo que o condenou à morte, poucos têm real dimensão da complexidade desse episódio da nossa história.
Por muito tempo, sua imagem foi retratada com barba longa e cabelos compridos, em uma representação semelhante à de Jesus Cristo — uma construção simbólica que buscava associá-lo à figura de um mártir ou messias na historiografia brasileira. A verdade é que, no momento de seu enforcamento, Tiradentes estava com barba e cabelos raspados.
Tiradentes foi apontado como um dos líderes da chamada Inconfidência Mineira. No entanto, é importante destacar que ele não figurava entre os membros mais proeminentes do movimento, formado majoritariamente pela elite de Vila Rica (atual Ouro Preto).
Inspirados pelas ideias iluministas europeias, esses homens pretendiam proclamar uma república em Minas Gerais, motivados, sobretudo, pelos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa, como a derrama.
Desse movimento surgiu também um símbolo importante: a bandeira com a inscrição em latim “Libertas quae sera tamen” — “Liberdade, ainda que tardia”. Hoje, essa é a bandeira do estado de Minas Gerais, herança direta daquele projeto político.
A conspiração, entretanto, foi denunciada por um de seus integrantes, Joaquim Silvério dos Reis. Endividado com a Coroa, ele realizou o que hoje chamaríamos de uma espécie de delação premiada: em troca da denúncia, teve suas dívidas perdoadas.
Os envolvidos pertenciam, em sua maioria, à aristocracia mineira — entre eles, coronéis, poetas e advogados. Tiradentes, por sua vez, destoava desse grupo. Não era membro da elite e exerceu diversas atividades ao longo da vida para se sustentar: foi tropeiro, comerciante, minerador, militar e também dentista prático, origem de seu apelido.
Com a denúncia, a Coroa iniciou a perseguição aos participantes, que foram presos e submetidos a um longo julgamento por traição. Durante o processo, muitos atribuíram a Tiradentes o papel de líder do movimento — algo historicamente questionável. Ainda assim, ele assumiu a responsabilidade, enquanto os demais foram condenados ao degredo, sendo enviados para fora da colônia.
Tiradentes foi enforcado e esquartejado. Partes de seu corpo foram expostas ao longo do caminho entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro como forma de intimidação. Sua cabeça, exibida em praça pública, desapareceu posteriormente em circunstâncias nunca esclarecidas. Seus bens foram confiscados pela Coroa, sua casa destruída e o terreno salgado, como forma de punição simbólica.
Durante décadas, sua memória permaneceu relativamente apagada. Foi apenas após a Proclamação da República, em 1889, que Tiradentes foi resgatado como herói nacional — em parte, por sua condição de militar e pela necessidade de construção de símbolos republicanos.
Mas essa história nos leva a uma reflexão incômoda: por que apenas Tiradentes foi condenado à morte, enquanto os demais receberam penas mais brandas?
Por qual razão a rainha Dona Maria I sentenciou apenas ele de forma tão severa? Ele não era o único conspirador. Teria sido sua condição social um fator determinante? Se todos tivessem recebido a mesma punição, as elites de outras capitanias aceitariam passivamente ou haveria uma reação em cadeia? A independência poderia ter ocorrido antes?
É nesse ponto que o ditado popular ganha força e atualidade: pau que bate em Chico, bate em Francisco? Fica a reflexão.
Ton Andrade é formado em História, Pedagogia e Sociologia, com pós-graduação em História e Cultura Afro-Brasileira, Sociologia da Educação e Cultura e Filosofia. Possui 15 anos de experiência na Educação Básica, atuando na formação crítica de estudantes e no desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à reflexão sobre temas históricos e sociais relevantes, com destaque para questões ligadas à cidadania, identidade e memória histórica.

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