Peruíbe (SP) sedia Jogos Indígenas

A iniciativa busca promover intercâmbio entre aldeias, entre indígenas e não indígenas, a fim de valorizar a ancestralidade, saúde corporal e espiritual e a acolhida comunitária

Peruíbe (SP) sedia Jogos Indígenas

Por Catharina Apolinário

02.06.2026

Fotos: Prefeitura de Peruíbe/Instagram

Começam nesta sexta-feira (5) e vai até domingo (7), os Jogos Indígenas de Peruíbe (SP) – Contra o Marco Temporal e a Favor das Retomadas Ancestrais, na terra indígena Piaçaguera, aldeia Tapirema e coletivo Cultive Resistência. A entrada é gratuita 

A iniciativa busca promover intercâmbio entre aldeias, entre indígenas e não indígenas, a fim de valorizar a ancestralidade, saúde corporal e espiritual e a acolhida comunitária. Para Catarina Nimbopy’rua, anciã e nhadetsy da Aldeia Tapirema, uma das protagonistas da retomada do território ancestral, a atividade vai além do esporte.

Para as organizadoras, os jogos são importante para união dos jovens e reviver momentos em que os ancestrais viviam os esportes indígenas. Também são importantes para retomar as práticas esportivas que muitos indígenas estavam esquecendo e para quem está procurando viver a sua cultura.

O evento esportivo irá receber outras etnias de outras aldeias e acontece ainda a união do povos originários.  Os Jogos Indígenas, em sua terceira edição, combinam brincadeiras, práticas esportivas originárias e atuais, e rezos.

Como ferramenta de educação comunitária, auxiliam no ensino de valores como cooperação, respeito à natureza e união entre os povos.  Para o morubixaba (cacique) Awa Tenondeguá, da Aldeia Tapirema, os jogos fazem um importante papel de aproximar os povos indígenas de nossa região.

“A comunidade está empenhada em realizar os jogos. Esses jogos não são somente disputa, mas o fortalecimento da nossa cultura, da nossa tradição, dos nossos esportes, das práticas tradicionais”.

Dentre as modalidades disputadas estão o arco e flecha, uca-uca, corrida de tronco, cabo de guerra, zarabatana, além de brincadeiras tradicionais.

A participação nas atividades é gratuita e não precisa de inscrição prévia, todas as pessoas podem participar e são convidadas à experiência de uma das modalidades. Haverá prova dos txondaros e txondarias no txakemaki.

Para quem gosta de assistir, além de uma programação esportiva haverá exposição de arte indígena de diversas aldeias. Recheada tradição contemporaneidade, jogos sempre são emocionantes.

A programação cultural contará com cantos, danças, apresentações interaldeias, benção dos anciãos, iniciação do fogo e fogueiras culturais. Bem como batalha de rima entre aldeias e apresentações do grupo da aldeia, Yramoi Djawé, com o repertório balanço da floresta.

Momentos para rezas e banhos rituais também são comuns durante a celebração. Os jogos Indígenas de Peruíbe são uma iniciativa independente, que conta com doações de parceiros e ativismo comunitário. Os recursos arrecadados com aluguel de barracas, camping e refeições são destinados à comunidade.

Camping e alimentação Para quem quiser pernoitar na Aldeia Tapirema, a organização oferece área de camping e alimentação vegana preparada pela comunidade. Os valores para camping, aluguel de barracas e alimentação você pode conferir no site vivencianaaldeia.org. 

Início

Os jogos Indígenas de Peruíbe começaram em 2023, quando foi realizada a primeira edição pela Aldeia Tapirema e Cultive Resistência. Josimas Ramos, do Coletivo Cultive Resistência, conta como surgiu a parceria.

“Em uma das atividades que a gente realiza na comunidade surgiu a ideia de fazer brincadeiras, de forma muito pontual. Mas uma das lideranças da comunidade, a Mimi (Fabiola Apyradju), chamou a gente para propor os jogos. Foi assim que surgiu”. 

Apyradju conta que numa época onde as pessoas estavam muito desunidas, os jogos vem para socialização. “Daí surgiu a ideia de fazer essa união todos os anos, para juntar as aldeias do território Indígena Piaçaguera.”

Na primeira edição dos jogos, em 2023, cerca de 800 pessoas passaram pela aldeia. Na edição de 2024 cerca de 1000 pessoas passaram pela aldeia nos três dias de jogos, entre djuruás e indígenas. Tendo ainda a participação dos Acadêmicos Indígena da Unicamp (@coletivo_aiun), núcleo composto por universitários indígenas de todo o Brasil. Para inscrições, aluguel de barracas e mais informações, consulte o site vivencianaaldeia.org

Aldeia

A Aldeia Tapirema fica na Terra Indígena Piaçaguera, em Peruíbe, na região próxima às ruinas do Abarebebê, não por coincidência. A Terra Indígena é casa território de cerca de 700 indígenas que se autodeclaram Tupi-Guarani, contando com 12 aldeias, e teve sua demarcação registrada em 2016.

Para acessar a aldeia é necessário percorrer um caminho a pé, seja pela entrada da Lagoa da Aldeia Tekoa Kwaray, seja pela rota da Praia do Taniguá e Tapirema, com entrada pela Rua Piratinins.

A Aldeia Tapirema foi fundada há sete anos, está na Terra Indígena Piaçaguera, demarcada em 2016, cuja retomada se inicia no ano 2000, após 70 anos de exploração da área por uma mineradora que extraia areia e insumos para construção civil.

Após escavar até os cursos d’água, alagando as áreas e criando lagoas artificiais visíveis ainda hoje no território, a mineradora foi autuada pelo Ministério Público. A aldeia está localizada na única área de restinga preservada do Brasil, quebrando, na orla do país, a continuidade de urbanização nas praias do litoral brasileiro.

O local é também espaço de achados arqueológicos de povos antigos da região, dentre eles indígenas do tronco tupi. Também nos arredores se encontra as Ruinas do Abarebebe, uma igreja do século XVI, usada para catequização dos indígenas da região no período colonial.

Ainda que com toda esse patrimônio material reconhecido, os indígenas da região lutam contra processos da mineradora – a última ação na justiça ocorreu em 2022 - pela retomada das terras e expulsão dos indígenas, bem como contra a ideia do Marco Temporal.

Quem é o coletivo Cultive Resistência?

Cultive Resistência é um coletivo formado em 2009 que pensa uma outra forma de vida, uma vida que busca Autonomia, Liberdade e Respeito para as pessoas, a terra e todos os seres. Em seu conjunto de ações, está o objetivo de desenvolver projetos sócio culturais e políticos com povos indígenas, populações em situação de vulnerabilidade, pessoas LGBTQIA+, mulheres e jovens através da Cultura, Educação Ambiental, Saúde, Fortalecimento e Autonomia.

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