Prefeitura e drenagem em colapso

Por José Manoel Ferreira Gonçalves

Prefeitura e drenagem em colapso

Por José Manoel Ferreira Gonçalves

07.02.2026

A cidade que afunda. A chuva de 4 e 5 de fevereiro de 2026 não surpreendeu Guarujá. Surpreendeu, isso sim, a tranquilidade com que a Prefeitura segue tratando risco como rotina.

Em 12 horas, pontos de monitoramento registraram volumes próximos de toda a média mensal, e encostas saturaram até perderem coesão. Sirenes tocaram, celulares apitaram, famílias correram.

Quando o poder público recorre a alertas como linha de defesa principal, admite que falhou antes, no concreto, no canal, no contrato.

O drama ganhou rosto nas comunidades de encosta. Vila Baiana e Barreira do João Guarda viram a água descer escura, carregando sedimento, virando lama e invadindo casas.

Fissuras no Morro do Concreto e rachaduras agravadas no Morro do Macaco, cenário de tragédias anteriores, reforçaram o recado: o mapa de risco não mudou, apenas envelheceu.

A Prefeitura contabilizou 151 desabrigados, empurrados para escolas e abrigos improvisados. Quem perdeu sofá, geladeira, documento, perdeu também a sensação de chão firme.

Prefeitura falha em drenagem

A tragédia urbana não nasce só da nuvem. Ela cresce no atraso crônico das obras que deveriam reduzir o impacto inevitável da chuva. O caso do Rio Santo Amaro virou símbolo do que a gestão escolheu tolerar.

Três reservatórios de contenção, os prometidos “piscinões”, caminharam a passo lento, pararam no primeiro semestre de 2024, ficaram mais de um ano largados e só voltaram a andar em 2025.

Durante o abandono, o canteiro virou foco de lixo, mau cheiro e mosquitos. No bairro Santo Antônio, o resultado apareceu na forma mais previsível: água dentro de casa.

O prefeito prefere vender futuro com megaprojetos e maquetes. A drenagem, que não rende foto bonita, ficou para depois. Só que a conta chega sem cerimônia. E, quando chega, cobra em moeda alta: vida interrompida, comércio fechado, rua intransitável e patrimônio destruído.

Prefeitura falha em drenagem

No Jardim Santense e no Pae Cará, a Prefeitura assistiu a um erro primário de obra ferroviária reduzir a capacidade de vazão ao trocar manilhas por tubulações menores.

Interrompeu o serviço tarde, depois do estrago. Fiscalização não pode existir apenas no boletim de ocorrência. Ela precisa caminhar junto da obra, exigir padrão, medir impacto, embargar na primeira irregularidade. Quando não faz, o Executivo municipal vira sócio do desastre, ainda que não assine o contrato.

Some-se a isso a zeladoria que não dá conta do básico. Canais entupidos, bueiros obstruídos, resíduos se acumulando onde a água deveria correr. E a contradição fica mais gritante quando o município coloca na mesa cifras elevadas para a limpeza urbana, mas entrega à rua a sensação de abandono. O cidadão paga duas vezes: no imposto e na perda.

Saúde, medo e a conta invisível

A inundação misturada a esgoto amplia o problema para além do alagamento. A Baixada Santista já conviveu, recentemente, com norovírus e surtos que exigiram investigação e resposta sanitária. Depois da água baixar, a doença circula, e a rede municipal absorve a pressão. A Prefeitura conhece esse roteiro e, mesmo assim, mantém o ciclo: remendo na emergência, atraso na prevenção.

O que se cobra do prefeito

Guarujá precisa de prioridade, não de promessa. Finalização imediata da macrodrenagem, fiscalização dura sobre obras de terceiros, revisão do licenciamento que impermeabiliza o solo sem contrapartida e um plano contínuo de limpeza e manutenção que funcione na prática. Sem isso, cada verão vira roleta russa. E cada sirene, um atestado de que a administração chegou tarde de novo.

José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, advogado e jornalista

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