Prêmio e Realidade
Por José Manoel Ferreira Gonçalves

Por José Manoel Ferreira Gonçalves
27.01.2026
O Espelho Quebrado da Pérola. O brilho do troféu “Top Destinos Turísticos 2025” ofusca, mas não apaga, a imagem distorcida que o verão de 2025 projeta sobre o Guarujá.
Enquanto o marketing oficial celebra um suposto “retorno ao topo”, a estação mais crucial para o turismo revela um cenário de negligência e contradições gritantes.
Acontece que a cidade, ao que parece, preparou-se melhor para a cerimônia de premiação do que para receber os turistas que a consagraram.
Esta discrepância não é um mero acidente de percurso; é sintoma de uma gestão que prioriza a láurea sobre a labuta, o verniz sobre o alicerce.
A Conquista do Prêmio e o Colapso do Verão
A tão propalada excelência naufraga diante dos fatos objetivos da atual temporada. Logo no seu auge, a balneabilidade – suposto pilar da premiação –revelou-se uma ficção perigosa.
Entre dezembro e janeiro, a CETESB foi obrigada a declarar trechos da badalada Enseada como impróprios para banho, um vexame recorrente que mancha não apenas as águas, mas a credibilidade do selo recebido.
O esgoto clandestino, velho conhecido da administração pública, segue seu curso rumo ao mar, demonstrando que os investimentos em saneamento, se existentes, são de uma irremediável superficialidade.
Paralelamente, a infraestrutura urbana entrou em colapso absoluto. O sistema viário é um paciente em coma induzido pelo transbordamento de veículos, a coleta de lixo mostra-se francamente insuficiente, e a orla transforma-se em um território de desordem e comércio amador.
O título de “cidade mais segura do litoral” também se desfez em meio aos relatos de roubos e à sensação de desamparo que turistas e moradores passaram a reportar. Guarujá conquista prêmio máximo de turismo e celebra 'retorno ao topo' enquanto sua realidade operacional regride a níveis críticos.
A Celebração do Topo e a Suspeita do Combinado
Tal cenário inevitavelmente corrompe a legitimidade da honraria e alimenta a suspeita de um jogo combinado. Surge a questão incontornável: que critérios objetivos, divorciados de relações políticas e interesses econômicos, poderiam justificar tamanho reconhecimento em meio a um verão de fracassos?
A estrutura da premiação, com sua fase de voto popular facilmente manipulável por campanhas digitais e um júri técnico cujas avaliações carecem de transparência, mostra-se um terreno fértil para encenações.
O prêmio começa a parecer menos um diagnóstico isento e mais um instrumento de marketing, encomendado para beneficiar o trade turístico e embelezar o currículo de gestores públicos.
Celebra-se um “retorno” a um topo que, na prática, nunca foi habitado com a dignidade e eficiência que um destino de excelência exige.
Guarujá conquista prêmio máximo de turismo e celebra 'retorno ao topo' baseado numa narrativa ficcional, erguida para ocultar o precipício de má gestão.
O Mérito que ainda Espera seu Dia
Almejamos, sim, um prêmio por merecimento. Um que fosse coroação de um verão impecável, de praias realmente limpas, de águas cristalinas comprovadas por laudos incontestáveis, de ruas fluindo com ordem e segurança estendida a todos.
Até lá, premiações concedidas à revelia dos fatos serão apenas cenografia vazia. O Guarujá real, aquele dos cidadãos e turistas reais, merece mais do que a efêmera glória de um troféu duvidoso. Merece um legado de trabalho sério que transforme, de uma vez por todas, a “Pérola” do discurso em uma joia de verdadeira excelência, lapidada pela competência e não pela conivência.
José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, advogado e jornalista

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